Em emails antigos de blogs antigos
Estou no quarto mês de meus 23 anos, e há 5minutos morri. Não vejo uma luz, um anjo ou nenhum parente que amo vindo me buscar. Enquanto isso vou esperando. Não parece que mudou muita coisa na verdade.
As pessoas do hospital acabaram de desistir de me reanimar e já cobriram meu corpo com um lençol. O médico diz que não sabe a causa e tem de me levar para o Instituto médico legal. São mais três horas no hospital, e o carro do IML chega. É uma Veraneio, e me sinto um ladrão, um patife, ou um idiota sendo carregado por um carro de polÃcia. A vergonha existe, mas minhas bochechas já não ficam mais vermelhas, afinal o sangue já não corre mais.
Chego no IML e noto que não sinto o cheiro. Por um instante acho bom, nunca gostei do cheiro de morte, apesar de nem ter convivido tanto com ela. O médico não me diz nada, e não haveria de dizer. Vai logo fazendo um corte que vai de debaixo do umbigo até o peito. Mexe em todos os órgãos. Observa que o pulmão e o fÃgado estão em péssimo estado, mas essa não poderia ser a causa. O Coração não tinha tanta atividade, quase possuÃa o músculo contraÃdo, como se estivesse sempre contraÃdo, ou reprimido. O resto do corpo não possuÃa nenhuma alteração. Causa: idiopática. Merda, num dá pra falar que é morte por causa desconhecida? Já são 10h morto, e depois de me preparar para ser velado ele me coloca num caixão de madeira barata e me taca atrás de uma caminhonete.
Hora de ser velado, e não tem tantas pessoas aqui. Meu tio me acompanhou até em casa. Ser velado em casa é até confortante, mas minha mãe diz que só vai me enterrar no dia seguinte. Não sei se vou dar conta. É angustiante esperar pra saber quem realmente gosta de você. Todos os meus amigos estão aqui. Dois. E parece que meus parentes do interior chegarão só no dia seguinte. Por isso a causa da espera.
Na verdade, acho que esses parentes nem fariam tanta falta. A imagem que tenho deles é sempre de festas recheadas de velhos sem saúde. Acho que é por isso que nunca gostei do cheiro da morte. Tinha a certeza que ela estava sempre perto do cheiro daqueles velhos. Bolos molhados, piadas repetidas e a nostalgia. Sempre a nostalgia. Mal que sempre me acompanhou. Na verdade a nostalgia para mim é a utopia, um lugar que nunca existiu e que é melhor colocá-lo no passado, já que não possuo a expectativa de tê-la futuro.
Não posso dizer que não estou feliz pelas pessoas que ainda choram por cima de mim. São poucas e insuficientes, mas é bom saber que ainda há quem goste de mim.
Meu corpo não reage, meu fÃgado já não vai ter utilidade e vou sentir falta disso, apesar de há muito tempo ele não ser tão eficiente. As noites de fuga em álcool, foram suficientes para, apesar do absurdo lingüÃstico, ser incluÃdo fora da minha vida. Meu coração já não possui vida, mas isso não o impede de fazer mal. A visão está presente, e de presente não me traz nada em especial.
Minha mãe se levanta e vai dormir, meus outros parentes também. Eles me abandonam sozinho na sala de estar. Como podem abandonar um morto na sala? Essa seria uma visão sombria até pra mim, que sou o morto. Nem como morto conseguia chamar a atenção. E mesmo assim eu tinha a vontade ser musico. Graças a Deus escutei os conselhos da minha famÃlia. Minha irmã me disse que deveria procurar um emprego direito. Arrumei um num consultório, eu era o anunciante de dentista, e ficava de 7h à s 18h gritando:
_ Dentista! Dentista!
Meu pai ficou feliz sabendo q eu finalmente havia conseguido arrumar um emprego. Sempre escondi qual era a minha função. Mas esse emprego não durou muito. Logo desisti e consegui um outro de boy. Era mais difÃcil, mas ao menos acontecia alguma coisa. Claro, antes de sair do consultório eu chamei o dentista de ‘filho da puta’, só pra seguir os hábitos da relação patrão empregado. Até hoje martela na minha cabeça a palavra ‘dentista’ Cheguei a perder algumas noites sem dormir, ou acordando falando essa palavra.
Não sei como pude ser tão estúpido de ter desistido da carreira de trompetista. Tentei seguir uma carreira normal e me dei muito pior. Quando eu achava que seria um momento interessante para a minha carreira, eu morri duma morte tão estranha que ainda nem sei o que é. Que bosta de vida. E mesmo agora morto ainda cheguei a pensar que tinha seguido o rumo certo.
Já chegou de manhã, e minha mãe diz q vai me enterrar, pois os meus parentes não virão ao enterro. E nessa hora me bate uma dor no coração, porque eles pouco tinham consideração por mim.
O carro da funerária chegou. O carro é preto, sempre gostei dessa cor..
Nunca liguei muito para o que ia fazer do meu futuro, as pessoas sempre me guiaram. Eu pai me guiou. Minha mãe me guiou. Minha irmã me guiou. Agora, esse motorista me guia, mas ele já não faz parte da minha vida.
Agora estou reparando, eu num fiz porra nenhuma da minha vida. Não andei pelado na rua, não coloquei um batom vermelho e poucas vezes arrisquei um ‘eu te amo’ clichê. Eu não arrisquei fazer nada. Cometi poucas injúrias, e agora entendo porque eu era um homem consenso. Eu era consensualmente comum, café com leite e água com açúcar.
Estou descendo pela terra, e os choros que ouço são para o preto da cova ao lado. Eles choram em prantos, e dá a impressão de existirem vários segredos. Do meu lado está minha famÃlia, e os amigos de sempre. Meu corpo tomba enquanto desce, mas me parece apenas a maré de sempre. Minha cabeça dói, mas me parece a dor de sempre. Enquanto me jogam terra, as pessoas começam a se dispersar, e meu corpo está tão calado quanto ao nascimento, ele não diz nada, parece só ter cheiro. O cheiro e o olhar do meu pai, olhar de trabalho cumprido. Meu pai vai embora com o resto das pessoas.
Nesse momento que está tudo escuro e, não sinto mas sei, que já existem bichos me comendo. Agora entendo porque está tudo tão igual ao que era antes. O que aconteceu foi que vivi uma vida póstuma. Não vivi e não gostei. Minha mãe chora a esperança que lançava em mim. Meu pai dobra as meias. E meus amigos, como sempre, bebem o morto, com aquela impressão de deja vu. A impressão de que pouco mudou.