Entrevista - Parte I
Nesta entrevista dividida em duas partes, o eco-libertário Philipe Ribeiro, de Fortaleza, nos conta um pouco sobre os problemas e lutas ambientais no Ceará. Recentemente ele esteve dando um giro por algumas cidades litorâneas do Estado, conhecendo principalmente a realidade e lutas dos povos do mar.
Agência de NotÃcias Anarquistas > Na prática há movimento “anarquista verde” no Ceará, ou é como no resto do Brasil, coisa de individualidades anarquistas que se preocupam e se movem com questões ligadas ao meio ambiente, a multiplicidade da vida?
Philipe Ribeiro < No Ceará temos, há alguns anos, um trabalho com companheiros e companheiras de três assentamentos rurais que usam técnicas agroecológicas de cultivo e propõe um pacto com a terra, no sentido de que as questões sociais, econômicas e ambientais caminhem juntas numa perspectiva de respeito mútuo. Não há um grupo “anarquista verde” formado, mas indivÃduos de outros grupos e individualidades que se articulam, por afinidade, de acordo com a necessidade. O Assentamento 24 de Abril [Acarape/CE], por exemplo, estava dividido em dois: o Grupo Majoritário e o Grupo Autônomo. O primeiro servia o capital sem nenhuma reflexão e usava de todos os artifÃcios, inclusive queimadas, para plantar e colher cana-de-açúcar a fim de vender para uma fábrica de cachaça de uma grande agroindústria local. O Grupo Autônomo tentou articular o assentamento inteiro para refletir sobre as queimadas e o corte desenfreado da mata, mas os próprios técnicos do governo federal [IBAMA, INCRA] admitiam a “queimada responsável” e o corte de trechos da mata. O conflito entre os dois grupos se intensificou e a resposta do governo federal [INCRA] foi a expulsão do cadastro de uma famÃlia do Grupo Autônomo, que iria comprometer a organização do grupo. Fizemos uma mobilização em Fortaleza com ativistas de vários grupos, dentre eles anarquistas, ecologistas e universitários contra a expulsão desta famÃlia. A ajuda internacional de grupos anarquistas foi muito importante, deu uma pressão polÃtica mais forte. A solidariedade internacional com recursos financeiros serviu para pagar os honorários do advogado, já que não conseguimos um que tivesse comprometimento com a causa. Resultado: não houve a expulsão e o assentamento foi dividido em dois. Foi uma vitória parcial, já que querÃamos que o pacto com a terra se estendesse por todo o assentamento rural, mas diante da conjuntura daquele momento podemos dizer que tivemos êxito. Uma outra famÃlia do Assentamento 24 de Abril saiu há um pouco mais de um mês, de bicicleta, com destino à Argentina. O projeto se chama Ciclovida e propõe um resgate das sementes crioulas [de comunidade] e contra o agronegócio. O Ciclovida cruzará o Brasil articulando nos assentamentos rurais e, por ventura, grandes cidades - com o intuito de fortalecer o compromisso de um pacto com a terra. Acredito que os[as] companheiros[as] irão contribuir para o fortalecimento do anarquismo verde no Brasil.
ANA > E como os grupos e individualidades libertárias podem ajudar esses compas nessa jornada?
Philipe < A solidariedade pode ser feita com a divulgação do Projeto Ciclovida em jornais, fanzines, informativos e outros meios de comunicação do movimento libertário. Outra forma é através da organização de seminários, palestras e oficinas em comunidades rurais e urbanas, escolas, universidades e nos demais espaços de luta que a famÃlia de trabalhadores rurais tenha a possibilidade de dialogar sobre a questão do resgate das sementes crioulas, o processo de cura natural como alternativa à medicina tradicional, o uso da bicicleta como meio de transporte ecológico e a questão fundiária no Brasil. A ajuda pode ser, ainda, por meio de uma campanha para arrecadação de fundos, já que o Ciclovida não dispõe de nenhum financiamento. O projeto está se sustentando minimamente com a venda dos cordéis do companheiro Inácio e, também, do CD que produzimos com vinte músicas retratando os últimos vinte anos de “reforma agrária†no Brasil. Tenho contribuÃdo com a logÃstica do Ciclovida e se alguém se interessar no projeto pode falar diretamente comigo ou através do sÃtio do Ciclovida. Os endereços de contato estão no fim da entrevista.
ANA > E hoje, quais os principais problemas ambientais no Ceará? Uma coisa que me chamou a atenção quando estive aà foi o vasto número de construções de grandes complexos hoteleiros, ressorts, praticamente em todo litoral cearense…
Philipe < O entendimento das questões polÃticas no Ceará se faz necessário por meio do resgate do modelo imposto pelo governo do Estado, que está nas mãos do PSDB há vinte anos. Esse modelo polÃtico beneficia o capital estrangeiro, a instalação de grandes grupos empresariais dos mais diversos ramos e toda a estrutura arcaica, ultrapassada e antidemocrática de realizar grandes obras e promover um forte marketing no intuito de fazer crer que o aporte de capital estrangeiro e a instalação de grandes empresas no Estado é o único meio possÃvel para o “desenvolvimento”. Não podemos esquecer que tais obras são custeadas pelo BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], que investe pesado no Estado, trazendo muito dinheiro para grandes obras e guiando as polÃticas públicas de acordo com a polÃtica de financiamento e empréstimo do banco. Para piorar o panorama, temos ainda o Prodetur, um ambicioso projeto que visa o desenvolvimento do turismo no nordeste, promovido pelo Banco do Nordeste e endo$$ado pelo famigerado BID. As cartilhas do Prodetur são trilingües [português, inglês e espanhol] e é um verdadeiro banco de negócios, como podemos ver neste trecho: “uma economia em permanente expansão, que fica ainda mais forte com incentivos fiscais, e uma mão-de-obra com alta capacidade de absorção de treinamento e tecnologia”. Traduzo no português de mercador como “uma economia que pode ser livremente explorada [sobretudo na concorrência desleal com as atividades locais de subsistência], onde não se paga praticamente nenhum imposto [e assim o governo deixa de arrecadar, ficando sem dinheiro em caixa para subsidiar e fomentar projetos locais de educação, saúde, moradia...] e uma mão-de-obra passÃvel de exploração com uma capacidade de submissão em expansão”. No tocante ao meio ambiente, é mais enojaste: “8 novos aeroportos, estradas, eletrificação, saneamento, PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE e recuperação do patrimônio histórico fazem do Nordeste destino dos novos investimentos em turismo”. Preservação do meio ambiente? Isso é uma falácia! O turismo de massa é um dos principais responsáveis pelo desmatamento de áreas do ecossistema manguezal, além de interferências diretas e indiretas em vários estuários ao longo de todo o litoral - sem esquecer do forte conflito cultural com as comunidades tradicionais de pescadores e pescadoras. Esse tipo de turismo se desenvolveu na década de 80 e 90, consolidando-se nos últimos vinte anos. Temos desde a década de 70 a especulação imobiliária, principalmente no litoral, pela construção das casas de veraneio. Para piorar o quadro socioambiental do Estado, em 1999 a criação de camarão em cativeiro [carcinicultura] cresceu de forma vertiginosa e degradante ao destruir extensas áreas do ecossistema manguezal, comprometendo a diversidade ambiental e as atividades tradicionais de subsistência, como a pesca e a mariscada. Estamos rodeados por grandes projetos de empresas internacionais, sobretudo portugueses e espanhóis, numa clara e evidente recolonização do nordeste brasileiro. Um pescador contou na última Assembléia dos Movimentos Sociais da Zona Costeira, que um megainvestidor chegou em sua comunidade falando que iria construir um grande complexo hoteleiro que daria emprego para centenas de pessoas. O empreendimento contrataria pessoas da comunidade para a cozinha e o carregamento de malas. O pescador olhou-o nos olhos, coçou a cabeça e respondeu: “Mas moço… e pra PESCADOR vai ter emprego?”.
ANA > O descaso aos manguezais e lagoas em Fortaleza também são bem grande, não?
Philipe < As lagoas daqui, como na maioria das grandes cidades do mundo, simplesmente agonizam por um conjunto de fatores, tais como o assoreamento, o aterramento, a eutrofização, a especulação imobiliária e, claro, a poluição através da descarga de esgotos clandestinos nesses corpos hÃdricos. Os manguezais sofrem todas essas mazelas e mais ainda o desmatamento da mata ciliar dos rios e bosques de mangue, que são áreas de preservação permanente de acordo com o Código Florestal. Ainda temos uma grande área de manguezais ao longo do Rio Cocó, que corta a cidade, mas as interferências humanas têm levado esse ecossistema à nÃveis preocupantes de perda da qualidade ambiental. Algumas medidas de recuperação tem sido tomadas, só que a educação ambiental ou não se realiza em conjunto, ou ela anda vagarosamente - sem continuidade entre um projeto e outro, assim, a degradação retorna.
ANA > Outra coisa curiosa que percebi quando estive em Fortaleza foi a quantidade de veÃculos 4×4 rodando nas ruas e avenidas da cidade. Veja só, acabei descobrindo que proporcionalmente Fortaleza é a cidade com o maior número desses carros no Brasil. E esse carro é um dos que mais contamina o ar. Louco, não? [risos]
Philipe < Todo carro contamina o ar, e muito. Os carros movidos a diesel são os mais poluentes e é aà onde entra a sua afirmação: a maioria dos carros 4×4 são à diesel, portanto, mais prejudiciais ao meio ambiente. Realmente, aqui a proporção de carros 4×4 é grande, mas deve-se ao fato de termos um litoral muito bonito e explorado sem pudor pelos marqueteiros do turismo de massa. Uma alternativa, a médio prazo, seria o incentivo ao uso de combustÃveis menos prejudicais, como o gás natural, já que duvido muito que uma “dondoca†vá andar de bicicleta pelas praias sem que isso seja a última moda em Paris ou da novela das oito. Fortaleza é mais uma das grandes cidades brasileiras que apresenta uma concentração de renda a nÃvel imperial. Certa vez li uma reportagem em que nossa cidade tinha um dos maiores Ãndices de carros importados e, também, um dos primeiros lugares em inadimplência no setor. Aqui se vive muito “de fachadaâ€, muitos pensam que vivem em Londres e levam a vida com muito luxo e pouco “no buchoâ€. A Fortaleza dos bairros nobres e “do turista†é saneada, iluminada e policiada, já a periferia agoniza com medidas paliativas. Temos 94 áreas de risco na cidade: entra governo, sai governo e nada muda. Hoje a prefeitura é administrada pelo PT depois de vinte anos nas mãos da direita. A prefeita, que é de um dos setores mais “esquerdistas†do partido, a DS [Democracia Socialista], mudou o discurso quando chegou ao poder. Em 2002 ela esteve nos protestos contra o BID e hoje está dando continuidade a um projeto do ex-prefeito Juraci Magalhães [PMDB] chamado BIDFor [pior nome impossÃvel], que vi$a o reordenamento do transporte com a implantação de três corredores com faixas exclusivas para ônibus, ampliação das paradas e terminais e a inclusão de duzentos ônibus articulados. Não se fala em inclusão dos “sem transporteâ€, muito menos do passe livre para estudantes e trabalhadores[as].
ANA > Sim, todos os carros contaminam o ar, mas a questão dos 4×4 é que além de poluentes, é um carro para o campo, e não para a cidade, ademais é um carro grande, ocupa muito espaço. E o tragicômico nessa história, é que a maioria dos últimos modelos batizados de “ecosports”, levam aquele selinho do Ibama, que atendem a legislação ambiental. Ora, ora…
Philipe < É uma questão puramente mercadológica. Esses carros 4×4 realmente ocupam muito espaço, consomem muito combustÃvel e, assim, poluem bastante. Os modelos vendidos no Brasil são menores que os americanos, ainda bem, lá a problemática é maior porque é cultural o americano gostar de imensas picapes. Já os modelos “ecosports†são desenvolvidos para o tÃpico “aventureiro de fim de semanaâ€. É um carro mais barato que os modelos genuinamente 4×4 e que tem uma performance muito boa para quem não exige muito do carro nas trilhas ou que anda fora do asfalto uma vez ou outra. O mercado automobilÃstico vai criando modelos de acordo com a demanda e, se alguns governos ou usuários quiserem um carro que seja “ambientalmente corretoâ€, pode ter certeza que eles vão colocar mais filtros para poluir um pouco menos, colar selos “ambientaisâ€, confeccionar camisas e chaveiros do tipo “eu amo a natureza, eu uso um ecosport 
ANA > Uma coisa que tem que ficar bem clara é que os automóveis produzem diversos contaminantes, não só pela queima de combustão, mas também pelos lÃquidos e amianto dos freios, a poluição acústica etc. E isso sem falar da contaminação produzida pelas indústrias indiretamente relacionadas com o automóvel, como embalagens, lubrificantes, petroquÃmicas, uso da água na lavagem dos carros…
Philipe < O uso desenfreado dos carros particulares é o grande problema, penso eu, da questão do transporte. Podemos pressionar o governo federal para redução dos contaminantes em toda a linha de produção e manutenção automobilÃsticas, entretanto se não combatermos o uso irracional, estaremos sempre um passo atrás da problemática. Daà a necessidade de otimizarmos o sistema coletivo de transporte, metrô e ônibus integrados, como também a bicicleta numa alternativa para pequenos trajetos.
ANA > Também não podemos esquecer que além de toda contaminação do ar que o carro proporciona, ele ainda causa milhares de mortes e de inválidos por ano em todo Brasil.
Philipe < Isso é verdade. Segundo o DENATRAN [2002], houve 18.877 vÃtimas fatais em acidentes de trânsito e 318.313 vÃtimas não fatais. Carnificina sobre quatro rodas, sem dúvida. E o quadro evolutivo dos acidentes oscila um pouco mas não difere muito destes valores. Há na necessidade de por em prática uma outra forma de se pensar o transporte…
ANA > Falando sobre transporte, como é complicado andar de bicicleta em Fortaleza, não? Essa cidade tem muitos carros! O centro de Fortaleza é muito pior que São Paulo. [risos]
Philipe < Fortaleza, como muitas cidades do Brasil, foi projetada no modelo europeu da época. Só que os engenheiros e arquitetos esqueceram que aqui o clima é tropical e até hoje sofremos esse erro primário de construção civil. O centro da cidade foi idealizado com ruas estreitas e imóveis germinados, em que não há recuo das laterais das edificações, resultado: não há espaço para ventilação. Para o padrão europeu é muito bom, esquenta os imóveis, mas para climas tropicais não podemos esquentar o que já ferve. Se até hoje não houve interesse em repensar a ventilação dos imóveis do centro, quem dirá a questão da bicicleta! No projeto do BidFor diz que haverá a construção de ciclovias [espero que construam, embora duvide bastante], entretanto se tais obras não forem discutidas com os usuários, servirão apenas de marketing polÃtico da prefeita e enriquecimento das construtoras. Ao mencionar “usuáriosâ€, não falo da meia dúzia de jovens e adultos ricos que pedalam na Avenida Beira-mar, o recanto preferido dos turistas, mas da maioria dos ciclistas que são pessoas das camadas mais pobres da população, que vão de bicicleta para o trabalho a fim de economizar com as passagens de ônibus, atravessando a cidade das periferias aos bairros nobres e necessitam que as ciclovias existentes e as futuras sejam integradas. Só quem realmente usa os serviços públicos é que sabe as deficiências e demandas.
ANA > Essa prefeita está equivocada, pois não é necessário construir mais ciclovias, estruturas… A questão é ir efetivamente contra o automóvel, é tirar espaços desses “monstros motorizados” já existentes e oferecer para os pedestres e ciclistas, “humanizar” a cidade. Ao meu ver aquele belo centro histórico de Fortaleza não deveria circular carros. O que acha?
Philipe < Acredito que devemos raciocinar conforme Chomsky em seu livro “Notas sobre o Anarquismoâ€, editado pela Editora Imaginário e Sedição Editorial em 2004, no qual ele se refere à s metas e projetos: “Por projetos, eu quero dizer a concepção de uma sociedade futura que inspire o que realmente fazemos, uma sociedade na qual um ser humano respeitável gostaria de viver. Por metas, eu quero dizer as escolhas e tarefas que estão a nosso alcance, e iremos seguir um caminho ou outro, guiados por um projeto que pode estar distante e não ser muito bem acabado. [...] As metas e os projetos podem parecer estar em conflito, e freqüentemente estão. Mas não há contradição nisso, como creio que todos saibamos pelas costumeiras experiênciasâ€. Fiz esse preâmbulo para afirmar que é importante pensarmos a questão do transporte nestas duas perspectivas. Como projeto, e entenda-se como medidas a longo prazo, endosso o que você disse na pergunta: temos que tirar os automóveis das ruas e humanizá-los para o uso de pedestres e ciclistas, entretanto, uma mudança radical desta é possÃvel, somente, com uma grande mobilização popular que não temos. E tal mudança se faz necessária para a inclusão das pessoas no contexto social, mas vejamos: numa cidade como São Paulo, ou Fortaleza, o que faremos para vencer as grandes distâncias sem os veÃculos motorizados? E a questão dos deficientes fÃsicos, mentais, como incluÃ-los nesse panorama se sua locomoção é especial? Tenho um primo nesta situação e não sei como faria se não tivesse um automóvel. É um nó aparentemente complicado para desatar, e é aà onde entram as metas, compreendidas como medidas a curto prazo: podemos trabalhar no sentido de se evitar, ao máximo, o uso de carros particulares para pequenos trajetos. Para estas distâncias podemos ir a pé ou de bicicleta. Em grandes distâncias, de leste a oeste da cidade, se estamos sem bagagens e sozinhos, a melhor opção é usarmos o ônibus [aqui não tem metrô]. As compras nos supermercados também podemos fazê-las sem carro e vários deles já dispõem de um serviço gratuito que entrega em domicÃlio. Ótimo, são três exemplos de que não precisamos usar o carro. No entanto, apenas medidas individuais não bastam. E é aà onde, mesmo em conflito com o projeto anarquista, legitimo uma meta que é reformista por excelência: cobrar da prefeita a construção e integração das ciclovias e, para os ônibus, exigir mais linhas, melhoria da qualidade do serviço e a gratuidade do uso - entendido que quem deve pagar é quem se beneficia pela minha viagem [os empresários, patrões, lojistas - quando vou e volto do trabalho, por exemplo] e não eu, como usuário. Entendo que ao minimizarmos o uso dos carros particulares e maximizarmos o uso dos coletivos e das bicicletas, estaremos dando um salto importante na questão do transporte. No centro de Fortaleza temos duas ruas que viraram calçadões, podemos ter – sem dúvida – mais ruas transformadas em grandes calçadas, mas há de se estudar a logÃstica quanto o combate aos incêndios, sistemas de água e esgoto, segurança, infra-estrutura para abastecer as lojas e por aà vai. Um projeto municipal pretende interligar a praça José de Alencar à praça da Lagoinha, uma obra muito importante para o centro. Se forem interligadas, estaremos dando mais um passo para a humanização da cidade e devemos cobrar [mesmo que legitimemos pontualmente o reformismo] da gestora pública a realização desta obra. O fundamental é que nós, libertários, possamos trabalhar nossas metas apontando para o nosso projeto maior: uma sociedade em que caibam várias sociedades.
ANA > Além de um transporte público gratuito, ecológico e eficaz, do uso da bicicleta, as pessoas deveriam reaprender a andar, caminhar… Temos que desacelerar o tempo “modernoâ€. Você já ouviu falar do “movimento slowâ€? É um movimento que desafia o culto da velocidade, é interessante…
Philipe < O mundo moderno é insano. Tenta ser veloz e poucos acompanham. Vá num banco no dia de pagamento dos aposentados ou do bolsa-famÃlia e veja que a grande maioria das pessoas de todas as filas não sabem usar o caixa eletrônico e ficam feito baratas tontas nas agências à procura de um funcionário do banco. A tecnologia chegou e as pessoas não conseguem usá-la. Do outro ponto da corda há a frenética busca pela alta tecnologia e os computadores, por exemplo, viram lixo tecnológico em poucos anos – embora continuem funcionando. E são idéias de mesclar o moderno com o “obsoleto†que fazem de projetos como a metareciclagem uma alternativa ao mundo descartável dos eletrônicos.
ANA > O que você acha da idéia de ônibus e trens reservarem um espaço para a bicicleta, caso uma pessoa queira fazer um percurso longo, “casado”?
Philipe < É uma ótima idéia. Algumas pessoas que conheço já fazem isso com suas bicicletas dobráveis, em que o quadro dobra e a bicicleta fica com um volume 50% menor. É uma alternativa, mas custa muito caro. Enquanto aqui se compra uma bicicleta com marcha por menos de duzentos reais, uma bicicleta dessa é, no mÃnimo, setecentos. Ao pensar em polÃticas públicas aà vejo que é viável e um mÃnimo de mobilização popular pode tirar essa sua sugestão do mundo das idéias e colocá-la em prática.
ANA > Há alguns anos atrás era muito comum o “sistema†de caronas em Fortaleza, ver as pessoas acenando com os dedos nas ruas. Isso ainda acontece?
Philipe < Não é do meu tempo não!â€. [risos] Isso é muito comum em quase todas as cidades do Ceará. O transporte público funciona razoavelmente apenas na região metropolitana da capital, no restante do estado existem poucos ônibus e a maioria é capital-interior, não há muitos ônibus “de linha†nas cidades além dos “carros de horário†– paus-de-arara – que saem das localidades mais distantes bem cedinho para a cidade mais próxima e retornam antes do meio dia. Resultado: quem se atrasa pede carona!
continuará…
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borboleta na vidraça
dá cor ao meu dia
(Anibal Beça)