Salada Rebelde

September 12, 2006

Ao verem o manguezal ser destruído, sempre irão reagir

Filed under: Artigo, Notícias — philipe @ 1:07 pm

Entrevista - Parte II

A seguir a segunda parte da entrevista com o eco-libertário Philipe Ribeiro, de Fortaleza, Ceará.

Agência de Notícias Anarquistas > Uma coisa positiva que notei em Fortaleza é a grande quantidade de árvores na cidade, e muitas frutíferas. Aliás, essa cidade tem “muitas” árvores plantadas no meio das ruas e avenidas! [risos]

Philipe Ribeiro < Como diria Drummond, “Uma flor nasceu na rua! [...] Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” – no meio de tantas agressões socioambientais ainda há resistência. Devíamos ter mais árvores nas ruas, mas vez ou outra se corta uma sem muito sentido. Hoje está melhor, as pessoas estão minimamente sensibilizadas. Antigamente não se desviava um milímetro para poupar uma árvore num projeto arquitetônico, atualmente parece ser “chique” não cortá-las… melhor pra gente, pro mundo…

ANA > Realmente, mais árvores, mais beleza, mais saúde… Mas tem outra coisa interessante, digamos “anárquica”, que se passa em Fortaleza, são as mangas que se desprendem das mangueiras e caem sobre os carros, causando prejuízos aos seus donos. [risos]

Philipe < Em Fortaleza acontece isso em alguns bairros, mas vi muito mais com os coqueiros da Praia de Lagoinha, um paraíso que conheci há mais de dez anos e que hoje foi invadida pela especulação imobiliária. Tem uma antiga pousada lá que é margeada pela rua principal e a cada cinco metros tem um coqueiro imenso. Eu ia pra lá na infância e um dos meus passatempos preferidos era contar quantos vidros eram quebrados por dia. E sempre quebrava pelo menos um ou dois – geralmente na parte da tarde – era muito divertido!

ANA > Durante seu primeiro comício em Fortaleza, dia 13 de agosto, Lula e sua “turma” garantiram a transposição das águas do Rio São Francisco, a Transnordestina, a Siderúrgica do Ceará, e a instalação da Refinaria da Petrobrás em Pernambuco. No Ceará há dissidência organizada contra esses projetos megalomaníacos?

Philipe < O que vejo de contraponto são algumas ONG’s e setores de esquerda, como os fóruns, que tem posição contrária à transposição do Rio São Francisco. Contra os outros projetos não há mobilizações. Neste ponto a universidade está um pouco apática, não vejo articulações em cursos com o de Geografia da Universidade Federal para puxar um comitê de luta ou algo do gênero, ainda estão nas disputas de centros acadêmicos e diretórios centrais no sentido de servir de trampolim na hierarquia partidária – que é uma leitura política já superada há alguns anos e reforçada com o levante zapatista  de 1994 e os movimentos antiglobalização que sucederam, atualmente presentes em grupos e comunidades agroecológicas, de produção independente de mídia, de reciclagem de tecnologia através da metareciclagem e o uso de softwares livres, enfim, grupos e indivíduos que se organizam de forma solidária e horizontal.

ANA > Você sabia que no governo Lula caiu o número de denúncias de crimes ambientais? Aparelhamento das ONG’s? [risos]

Philipe < Não sei se o termo correto seria aparelhar. Vejamos o caso de Fortaleza: estamos num governo petista municipal e o órgão que executa as políticas ambientais do município é formado, na sua maioria, por militantes do movimento ambiental e urbano. Muitos trabalhavam em ONG’s. Falo dos terceirizados e cargos de confiança. O que aconteceu? A maioria das pessoas que tinham trabalhos importantes nas comunidades ficaram encantadas com o poder. Resultado: saíram das ONG’s, distanciaram-se das lutas populares e assumiram cargos na prefeitura. Isso gerou uma desestruturação de muitas ONG’s e movimentos urbanos, já que não havia gente capacitada para assumir tais responsabilidades, tornando estas organizações praticamente inertes, ou sem interferência no cenário político local. Há de se analisar que muitas entidades se estruturam de forma vertical e, ao sair alguns membros da diretoria, quase que realizam o enterro. Outro fato relevante é que algumas não tem um compromisso político com as lutas socioambientais, servindo muitas vezes de cabide de emprego ou fazendo educação ambiental por fazer, um fim em si mesmo, ao achar que é necessário – sem analisar a conjuntura, o próximo passo. Ah, tinha esquecido de falar do “rabo preso”… mas isso acontece nas melhores famílias, nas melhores ONG’s… e nas piores também. [risos]

ANA > Um tempinho atrás você tinha me contado uma história “interessante” sobre o Greenpeace, quando eles atracaram um de seus barcos por aí, quando iam para a Amazônia. Poderia contar novamente? [risos]

Philipe < Em maio um dos barcos de “trabalho” do Greenpeace atracou em Fortaleza, em direção à Amazônia. Fui lá ver o barco e tirar umas conclusões. Ao sair, de supetão, um camarada do Greenpeace veio pedir para que eu contribuísse financeiramente com o projeto, via cartão de crédito. Falei que podia ajudar com trabalho, pois sou da área ambiental. O cara nem quis pegar meu e-mail, já meu dinheiro ele queria sim. Falei das lutas que temos aqui contra a destruição do manguezal, contra as fazendas de camarão e insisti pra que ele pegasse meu e-mail. Ele não quis e falou que eu podia dar meu contato pra uma garota que estava numa mesa com artigos do Greenpeace. Quando fui lá, ela me entregou um folder que no fim tinha “deseja receber nossas notícias” e pus meu e-mail, enfim, ali não era lugar pra por um contato de articulação do movimento ambiental, e sim, um espaço para receber notícias. Um monte de gente fez fila para preencher o tal formulário e embarquei na onda. Desconfio que era porque, ao colocar o e-mail, ganhava um cartãozinho. [risos] Quando alguém procura os movimentos sociais urbanos e rurais dos quais já fiz/faço parte, nós temos o maior prazer em receber as pessoas já que sabemos da dificuldade que é articular contatos. E não foi isso que vi naquela organização. Notei que eles não estão muito interessados em militantes pra engrossar o caldo da luta, ativamente. Em Fortaleza, o que deu pra perceber que eles preferem um pequeno financiador passivo, e ausente, a um ativista que pode contribuir nas discussões, no trabalho interno e nas ações diretas. Confesso que já sabia disso, a Sea Shepherd é a prova viva do “monstro verde” que se tornou o Greenpeace e ninguém melhor que um dos seus fundadores, Paul Watson, para subscrever o que digo.

ANA > Com certeza eles não querem militantes ativos, o que querem é sócios contribuintes, pessoas de bom coração. [risos] Você já viu alguma reunião aberta desta ONG? Lá tudo segue um poder piramidal, duma elite intelectual, “branca”, com gestão profissional, departamentos de captação de fundos, projetos, marketing… Uma vez perguntei para um deles: “se vocês têm milhares de filiados, principalmente em São Paulo, porque não mobilizam este pessoal para irem para às ruas sobre determinada luta ecológica?” Não respondeu nada. Cara, uma vez visitei um dos barcos do Greenpeace que estava atracado no Porto de Santos, é sério, os caras pareciam mais comerciantes, lembro que até modelos eles contrataram para “vender seu peixe”. Ao meu ver temos que refletir muito bem sobre o papel das ONG’s, eu desconfio de muitas delas. [risos]

Philipe < Nunca participei de uma reunião deles e acredito que você não exagerou ao falar que as reuniões seguem um poder muito hierarquizado. A forma que eles me trataram em Fortaleza só reforça o descaso pela luta e a busca pelo lucro. Por outro lado, temos que analisar a passividade inerte das pessoas que contribuem com ONG’s e grupos “politicamente e estrategicamente antenados” com o Greenpeace: são pessoas que não tomam para si o controle de suas vidas e entregam ao primeiro “salvador da pátria” - neste caso, do meio ambiente. Uma ONG tão “morna” como o Greenpeace deveria ter pelo menos um trabalho de educação ambiental, mas não tem. Perguntei isso pra eles e me falaram que só acontece uma ou outra palestrinha quando uma “tia da escola” chama-os no dia da árvore, na semana do meio ambiente – coisas assim. Acredito que um movimento ambiental, forte, necessita mesclar a ação direta com a educação ambiental. No Ceará há um trabalho de reflexão com as comunidades sobre a conjuntura política que gera as problemáticas socioambientais no litoral. As próprias comunidades fazem uma conscientização boca-a-boca e, ao se esgotar toda a passividade que engoliram há anos, partem para as ações diretas. Em Curral Velho, município de Acaraú, a comunidade se reuniu durante o dia, arrancou e queimou uma grande extensão de cercas que privatizavam áreas da União. Nunca mais o proprietário das fazendas de camarão teve coragem de apropriar-se de terras públicas. Na Caponga, município de Cascavel, a pesca predatória com o uso do compressor não tinha fim. A comunidade se organizou e queimou uma jangada “pirata”. Nunca mais se pescou com compressor na Caponga. Quando os povos do mar se unem, realizam suas ações durante o dia e não tem empresário, prefeito ou polícia que impeça – afinal – qual a delegacia do interior que comporta mais de cinqüenta, oitenta presos? Às vezes tem repressão, como já houve feridos a bala em Curral Velho, mas nem por isso a luta vai parar. Vejo que o trabalho político de base, horizontal, deve ser permanente – entretanto – ao se esgotarem todas as perspectivas de reivindicação pela via institucional… não há outra forma a não ser a ação direta. E isso não sou eu quem fala, é a história, são os acontecimentos. Os pescadores e pescadoras ao verem o manguezal ser destruído, sempre irão reagir, e é muito justo, o ecossistema manguezal é a principal fonte de proteína para a manutenção da segurança alimentar de dezenas de comunidades.

ANA > Recentemente você esteve rodando o Ceará com o movimento ambientalista, ONG’s… o que você destacaria nesta viagem, o que te chamou atenção?

Philipe < Em julho estive em Tatajuba, uma comunidade do litoral oeste próximo ao estado do Piauí, onde aconteceu a II Assembléia dos Movimentos Sociais da Zona Costeira do Ceará. No fim da assembléia fomos para a cidade de Camocim realizar mais um Desate, que é uma manifestação dos povos do mar em que se afirma a vida na Zona Costeira com o fortalecimento da resistência das comunidades pesqueiras. Escrevi um artigo sobre a assembléia e o link está disponível no fim da entrevista. No início de agosto fui para a praia de Águas Belas, no município de Cascavel [litoral leste], onde ministrei a oficina de rádio no Curso de Desenvolvimento Institucional - uma das oficinas do módulo de comunicação, o último do curso. O Fórum de Defesa da Zona Costeira do Ceará foi quem promoveu, mas tiveram vários sujeitos envolvidos como o Instituto Terramar, o Conselho Pastoral dos Pescadores e o Fórum dos Pescadores e Pescadoras do Litoral Cearense. No final de agosto participei do seminário “Manguezais e Vida Comunitária - Impactos Socioambientais da Carcinicultura”, em Fortaleza, que tinha por objetivo mobilizar as comunidades do litoral brasileiro frente à ameaça das fazendas de camarão. No início do seminário fizemos uma visita às comunidades do Porto do Céu e Cumbe que sofrem diretamente com a degradação promovida pelos viveiros de camarão, que culminou com uma manifestação puxada por cerca de duzentos[as] pescadores[as] de 15 estados do Brasil na cidade de Aracati [litoral leste], no sentido de alertar os problemas socioambientais da carcinicultura e fortalecer a luta pela manutenção das atividades tradicionais de subsistência e qualidade ambiental da Zona Costeira. Os movimentos sociais que se articulam no litoral cearense tem se destacado por uma mobilização popular que trabalha de forma horizontal em fóruns de discussão, assembléias e cursos de capacitação política, conforme visto neste pequeno relato das minhas andanças com os povos do mar. É muito importante esta organização popular autogestionária, longe do modelo ultrapassado de se fazer política por meio do voto. Há um descrédito aos políticos burgueses, no entendimento que eles só beneficiam os projetos das grandes empresas e das elites locais. Os povos do mar tem criado espaços de intercâmbio cultural nas comunidades e há uma rede, mesmo que informal, de economia solidária – na qual circulam o artesanato de vários pontos do litoral. Algumas articulações têm contribuído na consolidação da produção midiática do movimento, de forma solidária e colaborativa, através dos núcleos de comunicação da Rede de Educação Ambiental do Litoral Cearense, do jornal impresso “Tecendo Resistência”, do boletim eletrônico e de iniciativas de rádio livre.

ANA > Quer acrescentar algo pra finalizar? Obrigado!

Philipe < As condições objetivas foram postas pelos poderosos, como a especulação imobiliária e a carcinicultura. Os movimentos sociais, se quiserem avançar na luta, precisam fortalecer as condições subjetivas, que podem ser agrupadas no que chamamos de organização. E essa organização necessita ser coletivizada, desde os pescadores e pescadoras, ambientalistas, simpatizantes e apoiadores em geral, no caso dos povos do mar. O zapatismo se fortaleceu nas montanhas da Selva Lacandona caminhando com os passos dos mais lentos, mas juntos, sem intermediários. Assim, acredito, que iremos agir ao invés de reagir!

> Philipe Ribeiro
philipe@riseup.net

> Projeto Ciclovida
www.ciclovida.cjb.net

> Movimentos Sociais da Zona Costeira dão aula de democracia
www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=23589

agência de notícias anarquistas - ana

Arbusto de hibisco
suavemente balança
filhote de pássaro.
(Regina Andrade)

One Response to “Ao verem o manguezal ser destruído, sempre irão reagir”

  1. menina puladora de cerca Says:

    Ah, tinha esquecido de comentar. Adorei sua entrevista. Tenho orgulho de vc! Bjs

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