rádios livres, uma idéia

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A ideia de rádio livre nasce como um espaço e um tempo destinado a se fazer falar e aparecer aquilo que se encontrava oculto. A ideia de um “direito a comunicação” só é viável quando as experiências e práticas condizem com que determina a lei. Com isso posto, as rádios livres buscam trazer à superfície uma profundidade que não se observa e, no momento em que se produz, torna-se uma dinâmica de sensibilidade e de experiência que faz emergir novas formas de existência, compreendendo aí maneiras de falar, culturas cotidianas, reivindicação de demandas e processos decisórios coletivos. A separação entre emissor e público é uma divisão e ser varrida dos processos de comunicação no interior de uma rádio livre. Só é verdadeiramente ativo e agente dos processos de comunicação aquele que produz e se faz ouvir, sendo a noção de “público” - tal qual estamos acostumados a entender pela ótica da grande mídia - uma simples massa de receptores. Reatar a noção do público pelo rompimento das barreiras entre produzir e consumir, falar e ouvir, mostrar e observar, está no cerne das ações das rádios livres.

Distanciando-se dos modelos correntes, as rádios livres se inspiram essencialmente em um novo paradigma estético. Porém esta estética não é somente aquela contida num olhar sobre uma “obra”, mas engloba linguagem, participação, expressividade e afetos. O universo sonoro e tão ou mais amplo do que o visual, potencializando assim, infindáveis possibilidades de exploração do ambiente auditivo. Desde leituras de textos, radionovelas, narrações, conversas informais, até a recuperação da historia oral, ruídos, áudio-esquizofonia e outras experimentações, as possibilidade de uma radio livre - que são só dela, pois dificilmente outro meio possibilitaria tamanha apropriação de linguagem e estéticas - compreendem um elemento da sensibilidade e da percepção bem particular: a alteração dos padrões de compreensão.

Não há temática fixa nem proposta sedimentada no que se refere a atuação das rádios livres. Elas variam de acordo com sua permanência, localidade, realidade sócio-cultural, demandas coletivas e interesse do seu entorno. São, não obstante, regidas pela liberdade do programador (que se confunde com a de quem porta temporariamente o microfone) que, apesar de manter microfones abertos, é livre para divulgar e transmitir aquilo que achar conveniente desde que nao rompa os limites do não-prozelitismo e de evitar todo e qualquer preconceito.

O padrão da linguagem da comunicação atualmente é, não só imposto por regras que distanciam o emissor do receptor, como também distante, artificial e ininteligível para o cidadão comum. A linguagem dominante reforça uma dominação epistêmica e modos de dominação semióticos que impedem (seja por vergonha, pela ausência ou pela lacuna linguística) uma aproximação com o meio de forma a constituir uma entidade viva, dinâmica e política. A aparente “neutralidade” da linguagem das mídias oficiais esconde um processo de ocultar aquilo que poderia ser expressado e desta maneira, forcam um tipo de compreensão artificial e modelada para sua “audiência”.
Alternativamente, enquanto estética diferenciada, que prefere apresentar do que representar, que prefere se auto-produzir ao invés de se identificar, as rádios livre buscam a distancia dos modelos de comunicação como forma de desobedecer o acordo tácito e dominador entre aqueles que falam e os que ouvem, abrindo uma possibilidade de novas interpretações, gramaticas e articulações que dificilmente estariam presente em outras mídias.

No entanto, sabemos que de acordo com o conceito de radio livre, historicamente, grupos ligados a produção e criação politica de existências múltiplas, são os que mais se identificam com a pratica e a teoria contida na ideia. Isso significa dizer que a cultura, enquanto transformação dos sentidos e significados tem uma responsabilidade politica singular, a de “fazer falar vozes menores”. Com isso em mente, agenciamentos coletivos que procuram nas artes de fazer, produzir e expor ideias, estéticas e opiniões encontram nos projetos de rádios livres um frutífero patamar para expressão e sensibilidade. Diversos projetos bem sucedidos de rádios livres englobam, entre outros, luta anti-manicomial, comunidades universitárias, associações de moradores, movimentos sociais e coletivos de arte. Com isso, o publico, não se resume ao produtor, mas sim ao universo de possibilidades abertos por uma comunicação fora dos padrões comerciais e institucionais, incluindo as diversas camadas sociais que tomam parte do ambiente no qual a radio esta inserida.

A utilizacão da “baixa tecnologia” (aparelhagem analógica e mecânica) que em contato com elementos da tecnologia da informação dão as rádios livres um aspecto especifico de repensar as utilizacões dos objetos técnicos Fugindo do determinismo tecnológico, elas operam uma outra relação com o meio, o que permite uma visão am mesmo tempo critica e ampliada do que significa os processo gerais de agenciamento humano-maquina na esfera da cultura. O meio radio, por ser essencialmente sonoro, chama a uma nova perspectiva de utilizacão do universo sônico, que vai desde o corpo, passando por mediações humanas como a voz, canto e narrativas a chegando a sonoridades industriais e informáticas Com isso, uma analise critica do “meio” ou “suporte” se torna possível por uma nova relação com a pratica, produção e construção dos próprios mecanismos de emissão e suas variantes.

Ademais, por ser um instrumento que chama ao interesse sonoro, as experiencias estéticas com voz, narrações, musica, ruídos e barulhos, constituem igualmente um elemento que permite o questionamento e o inicio do processo de curiosidade e vontade em relação as acoes com radio livre. Contando com a experiencia do grupo proponente em produção musical/sonora e também no uso de mídias digitais, torna-se importante considerar que um chamado ao publico passa pelo processo de “fazer o estranho se tornar familiar”, já que a estética e a aparição do novo, são sempre funções importantes para o despertar da produção politica e cultural.

As rádios livres se baseiam numa proposta de microfones e portas abertas, pautadas pelo não proselitismo, contra as imposições simbólicas, contra o preconceito de qualquer sorte, pelo debate aberto e coletivo e pela distancia das produções culturais e pautas jornalisticas das mídias comerciais. Sua filosofia tem origem nas lutas contra os monopólios da comunicação, pela expressão de minorias e grupos marginalizados e de acordo com um processo de engajamento em particularidades e coletividades.

Suas pautas são colocadas por um processo dinâmico de diálogo, conjuntamente e lado a lado com a comunidade que a constitui. Podendo ser nômade ou fixa, propõe-se a sempre buscar a pluralidade de informações e participar ativamente dos debates que acontecem no seu entorno imediato, como também em relação a objetivos maiores que concernem seu campo de atuação: produção cultural, estética, informação diferenciada, e politicas coletivas.

efeefe

ja que o efeefe é o único que lê esses posts, escrevi um relato do dia que supostamente o conheci; lógico que com  cássio como interlocutor, o que deixa a história mais engraçada….

a primeira vez que vi o ff, foi no sesc pompéia, em sampa. Era um período onde as pessoas estavam conhecendo várias outras pessoas, sabia-se o nome, mas nao reconhecia-se a cara. como um breve outono da anarquia era um período que parecia que tudo estava acontecendo. meus amigos falavam de varias coisas interessantes, a curva era acendente, mas não deixava de ser uma curva.

a gente tinha feito uma semana de trampo no fórum cultural mundial, uma das experiências mais loucas que eu ja tive. terminado o trampo, a gente foi pruma festa no sesc, coisa de artista, entrada franca, gente descolada, tudo aquilo…..

a gente ia inclusive fazer uma performance. a idéia era passar o video que o glauber fez no enterro do di cavalcanti (proibido pela familia dele de ser veiculado) sobrepondo vários audios caóticos em cima. coisa de artista politizado dos primeiros anos do sec xxi. era uma sensação louca, pq até uns 3 anos atras a gente tava só correndo nuns buracos pra dar oficina de radio livre, ralando pela muda e etc. A internet e o FSM mudaram muita coisa (não necessariamente pra melhor, aliás muito pelo contrário).

Daí, cerveja na mão, olhando pra algum performer que se apresentava com um molho de alface na cabeça, recebo um puta tapa nas costas, deixando cair uns golinhos no chão. Olhei pra tras e vi o Cássio, ele abriu aquele sorrisão bobo, mas muito querido, também cerveja na mão, e disso algo do tipo “olha quem tá aqui !!!!”

ele olha pro lado, como se me apresentasse com os olhos aquela figura que eu tinha certeza que nunca tinha visto antes. E tinha certeza que o figura também nunca tinha me visto.

num rompante de polidez, estendi minha mão, ele tambem estendeu, nos comprimentamos com um “prazer, hein” e olhamos, ambos de volta pro Cássio. Ele, entendendo que havia algo errado, voltou-se de novo pra mim e falou, “o éfeéfe !!!, das listas de email !!!” Timidamente eu comentei que nao o conhecia, mas sabia das tais listas de email, devia ser aquele lance do ministério da cultura, que enfiaram um monte de gente e andam dizendo que vai ser ducaralho quando rolar.

Afinal, fiquei pensando depois que ja devia ter visto ele, no galpão daquele shopping, na sub prefeitura de Hermelino matarazzo, ou em outro lugar.

acontecimento, por la salvia

(16:50:35) pajé: vai me escaldar ?
(16:51:03) andre luis la salvia: acontecimento é aquilo que se furta ao fixo
(16:51:29) andre luis la salvia: por isso o exemplo do acontecimento da alice crescendo: maior do que era, menor do que será
(16:51:34) pajé: certo

(16:51:48) pajé: devir, basicamente
(16:51:37) andre luis la salvia: o teu texto trás a idéia
(16:52:41) andre luis la salvia: sim devir, mas ontologicamente significa que deleuze vai até os estóicos porque ele acha que não precisa da proposição ” a folha é verde” mas sim a folha verdeja
(16:53:05) pajé: certo, as ideias sobem a superficie….
(16:53:18) andre luis la salvia: ou seja, em vez do é isso, é aquilo, a potencia de todos os verbos, todos os verbos e não somente o é
(16:53:58) andre luis la salvia: todos os verbos, multiplicidade, e a multiplicidade implica uma superficie sem profundidade
(16:54:13) pajé: o que quero dizer é o lance da subversão da filosofia, do pensamento sobre algo
(16:55:32) pajé: é na verdade uma maneira de alterar uma lógica filosófica, partir do principio da multiplicidade, anonimato; devir ao invés de fixações, nomeações e identificações, certo ?
(16:55:44) andre luis la salvia: certo
(16:56:01) andre luis la salvia: porém, um devir sempre tende a sedentarização

(16:56:37) andre luis la salvia: qual é o dia seguinte da revolução? deleuze se pergunta
(16:56:09) pajé: hummm
(16:56:20) pajé: a não ser que ?
(16:56:51) pajé: levante x revolução
(16:56:57) andre luis la salvia: e o dia seguinte não tem nada haver com o devir revolucionário
(16:57:09) pajé: momento do levante x permanencia da revolução
(16:57:20) andre luis la salvia: aí que vc volta ao intempestivo
(16:57:31) pajé: no efemero, no evanescente….
(16:57:32) andre luis la salvia: estar numa estado de agitação permanente
(16:58:30) andre luis la salvia: não no efemero ! no intempestivo, aquilo que se furta ao fixo, pois ele não necessáriamente precisa ser curto ou rápido
(16:58:48) pajé: saquei
(16:59:19) pajé: saquei
(17:00:08) andre luis la salvia: agora eu é que não to entendendo. porque eu não sei qual é a interpretação corrente da midia que vc identifica como sendo causal, que divide e unifica
(17:00:49) andre luis la salvia: adorno?
(17:00:56) pajé: a midia tratada como essencialmente e logicamente mediação
(17:01:15) andre luis la salvia: porque ela media a comunicação?
(17:01:39) pajé: seria uma aproximação à um novo tipo de análise, uma análise que não enxerga finalidas , mas processos
(17:01:46) pajé: pq ela media tudo
(17:01:48) pajé: quer dizer
(17:02:12) pajé: parte-se do principio que a observação da midia se dá por uma filosofia do objeto
(17:02:27) pajé: do fixo
(17:02:46) andre luis la salvia: ao inves de ela dar a voz ao cidadão, ser seu meio de comunicação, ela também pode ser sua criação
(17:03:04) andre luis la salvia: o cidadão criaria sua expressão através da midia
(17:03:07) andre luis la salvia: e não
(17:03:17) andre luis la salvia: a midia dá a voz
(17:03:18) andre luis la salvia: ?
(17:04:03) pajé: ela deve ser eliminada enquanto função. Há que se entende-la como um processo da linguagem, na qual não há permanencia (se há. é a mediação que cria)
(17:04:12) pajé: **a gente se vê por aqui **
(17:04:43) pajé: to pensando enquanto modos de um logos midiatico, saca ?
(17:05:05) pajé: como ela se encontra enquanto objeto de analise
(17:05:35) pajé: digo que é necessario deslocar a reflexão sobre a midia e trata-la como algo a ser superado
(17:05:41) pajé: como o modelo do fixo
(17:06:11) andre luis la salvia: vc está tentando analisa-la por uma otica que não a encare como um meio de comunicação mas como um estilo de vida?
(17:06:18) pajé: a separação está implicita enquanto postulado dela, é marcuse, unidimensionalidade
(17:06:35) pajé: como um processo da linguagem e dos simbolos
(17:06:47) pajé: isso nao deve ser mediado
(17:07:11) andre luis la salvia: mas a liguagem é mediação entre nossas ideias e a expressão delas
(17:07:44) pajé: sim, mas pensar a midia como agente dessa madiação é que é o problema
(17:08:04) pajé: a midia interfere na “mediação direta”….
(17:08:41) pajé: e realiza uma “operação da profundidade” pra justificar os próprios efeitos
(17:08:46) pajé: é inescapável

a mí­dia

A mídia é totalitária. Não por subordinar as vontades, exercer a hegemonia, fabricar o consenso ou forçar a imobilização. Estas características são somente seus subterfúgios mais visíveis. Ela constitui-se um sistema totalizante pelo qual eliminam, a partir da própria função econômica e através da divisão social, a existência de sua negação. A mídia não só subordina o outro, mas, principalmente, o elimina enquanto categoria *. No papel de mediação que exerce, enquadra de maneira sedutora todas as pontas de seu processo em um esquema abstrato total, funcionando como um corpo único e impenetrável sem partes ativas para além da intermediação. O outro é um número constituinte no cálculo de sua função como meio. Ela eleva o papel de mediação a níveis que permitem sua alteração somente enquanto regulação ou participação (nunca enquanto eliminação ou substituição), mantendo assim um poder seguro que se sobressai quando em relação com a crítica baseada nestes princípios. As questões de identidade e representação são estatísticas funcionalizadas para sua manutenção enquanto mediadora. A necessidade de eliminação da mídia, passa pela reavivação da noção do outro, que ela tratou de eliminar.

*   O slogan da Rede Globo de Televisão, “Globo: a gente se vê por aqui” ilustra muito bem essa questão.

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primeiro dia de Pajeh por Paulo Caruso

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