Quantos nomes
Wednesday May 02nd 2007, 12:43
Filed under: Citações, Odisséia, Poesia


Quando a isso tudo provia Telêmaco e a Atena efetuava
um sacrifício na proa, aproxima-se-lhe um estrangeiro,
vindo de longe, que de Argos fugira por causa de um crime.
Era adivinho e nascera do tronco daquele Melampo,
que em Pilo teve morada, região de rebanhos criadora,
um dos mais ricos dos Pílios, que em casa opulenta habitava.
Mas, depois disso, do próprio país se exilou, afastando-se
de sua pátria e do grande Neleu, varão claro entre os homens,
que lhe reteve, por força, durante o período de um ano,
muitos haveres. Melampo, entrementes, na casa de Fílaco
preso com fortes liames se achava, a sofrer muitas dores,
tudo por causa da filha daquele e da grande cegueira,
que dentro da alma a terrível Erínia lhe havia lançado.
Mas ele pôde escapar, conseguindo levar para Pilo
os bois de Fílaco. Pelas ações de Neleu, vergonhosas,
toma vingança, depois, com leva para o irmão a donzela,
para o palácio, entregando-lha. Foi, depois disso, para Argos,
rica de potros, pois era do Fado que ali residisse
e viesse o mando a exercer sobre muitos guerreiros argivos.
Lá tomou esposa e construiu um palácio de teto elevado,
onde se fez pai de dois filhos fortes: um, Mântio; outro, Antífates.
Teve o primeiro um rebent, também, o magnânimo Oicleu;
este a Anfiarau, por sua vez, engendrou, o condutor de guerreiros,
o predileto de Zeus poderoso e de Apolo, que afeto
muito extremado lhe tinham. Contudo, não viu a velhice;
em Tebas veio a morrer, pela dádiva feita à consorte.
Dois filhos com sua esposa Anfiarau teve: Alcmáone e Anfíloco
Mântio dois filhos, também, veio a ter, POlifides e Clito.
Clito roubado se viu pela Aurora, de trono dourado,
tão-só por causa de sua beleza; ficou entre os deus.
A Polifides magnânimo fez Febo Apolo adivinho,
o mais notável de todos, depois de a Anfiarau ter matado.
Para Hiperésia, depois, se mudou, com seu pai desavindo,
onde deixou residência, o futuro aos mortais predizendo.

Filho era deste o que havia chegado, de nome Teoclímeno,
para onde estava Telêmaco. …

HOMERO. Odisséia. tradução de Carlos Alberto Nunes, ilustrações de John Flaxman. Rio de Janeiro: Ediouro. (Universidade). [203--204 p.]



Odisséia machista
Monday April 30th 2007, 16:38
Filed under: Citações, Odisséia, Poesia

… [Agamémnone] me torna as seguintes palavras:
“(…) [Cassandra] Lançou sua infame conduta
sobre ela própria vergonha indelével e em quantas mulheres
em qualquer tempo nasceram, té mesmo as de espírito justo”.

Isso me disse; em resposta lhe torno as seguintes palavras:
“Oh! por sem dúvida Zeus, que vê ao longe, infligiu graves penas
na descendência de Atreu, pelos atos de sua mulheres,
desde o começo. Por causa de Helena bastantes morreram;
de Clitemnestra, em tua ausência, te veio a traição indizível.”

Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras:
“Nunca te mostres benévolo para tua própria consorte,
como, também, não lhe contes os teus pensamentos completos,
mas uma parte revela e outra deixa que oculta lhe seja.
…” …

HOMERO. Odisséia. tradução de Carlos Alberto Nunes, ilustrações de John Flaxman. Rio de Janeiro: Ediouro. (Universidade). [158 p.]



Entrevista muito interessante
Thursday April 26th 2007, 14:20
Filed under: Citações, Filosofia, Parmênides

Publicada na veja:

A empresária paulistana Yara Baumgart, de 56 anos, sai do sério quando alguém a chama de perua. Já levou à Justiça o colunista José Simão, da Folha de S.Paulo, por ter-lhe sapecado esse adjetivo um tantinho substantivado. Yara tem razão de ficar zangada. Depois de anos dedicados exclusivamente à vida em sociedade e à família (seu marido é o empresário Roberto Baumgart, fabricante de produtos químicos e dono de shopping centers), ela resolveu dar um basta na dondoquice. Usou a experiência adquirida como paciente de clínicas estéticas no exterior para abrir a Kyron, a maior clínica desse tipo no Brasil. Há alguns anos, Yara descobriu também que pode haver idéias debaixo da chapinha japonesa. Em julho, formou-se em filosofia. Yara gosta de citar grandes pensadores, diz que é fluente em cinco idiomas e conta que tem 5 000 livros em casa. Fala sempre baixo e num tom monocórdio. Falar assim, explica, “é muito europeu”. Em seu escritório, em São Paulo, ela deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Desde quando a senhora se dedica aos cuidados com a beleza?
Yara – Desde muito pequena. Herdei essa característica de mamãe, que sempre foi vaidosa. Lembro que, quando eu era criança, ela ia a uma esteticista romena que lhe aplicava cremes de lanolina no corpo todo. Em casa, mamãe se sentava em frente a um espelho que tínhamos no banheiro e dava palmadinhas no rosto com uma almofadinha presa num arame, para ativar a circulação. Aos 7 anos, comecei a estudar balé. Mamãe vivia preocupada com as minhas pernas. Por isso, me levava para fazer massagem com terapeutas alemãs. Ela tinha medo de que eu ficasse com pernas de jogador de futebol.

Veja – Foi graças a sua mãe, então, que a senhora ganhou pernas de bailarina…
Yara – Fiz balé clássico até os 19 anos e ioga por mais dezessete. Sempre me preocupei mais com o corpo do que com o espírito. Agora, quero encontrar o caminho da verdade. Comecei a fazer aikidô. Um sensei me dá aula particular. Ele tem uma energia fortíssima. Para você ter uma idéia, o sensei arremessa os alunos faixa preta ao chão com seus golpes. Depois, estende o braço e lhes mostra a palma da mão. Os alunos ficam congelados no lugar onde caíram só pela energia que sai da sua mão. É igual ao filme O Último Samurai. Aprendi coisas incríveis com o aikidô.

Veja – Que coisas?
Yara – A dar cambalhota, por exemplo. É mais ou menos a representação da vida. Nascemos com a possibilidade de fazer uma infinidade de coisas, mas, com o tempo, criamos arestas. O aikidô nos ajuda a aparar essas arestas e ficar mais redondos. Veja bem: redondo no contexto energético. Fisicamente, é o contrário. Aikidô emagrece e afina a cintura.

Veja – O que mais o aikidô lhe ensinou?
Yara – Aguçou meu feeling. Tenho boa intuição, mas só dei atenção a ela depois de uma experiência aterrorizante no aeroporto em Paris. Senti um frio na barriga na hora em que peguei na esteira de bagagem uma maleta Louis Vuitton, que tinha umas bobeirinhas dentro, como meu passaporte – o brasileiro, porque o italiano estava na bolsa –, um reloginho Cartier, uma maquininha digital e uns creminhos. Não dei bola para essa sensação e fui para o carro que me esperava no terminal. Você acredita que roubaram a maleta? O aikidô me fez enxergar minha parte de culpa nisso. Pressenti que iam levar a maleta e não fiz nada.

Veja – A senhora fez faculdade?
Yara – Acabo de me formar em filosofia. Foram quatro anos iluminados de estudos e descobertas. Convivi com os grandes pensadores. Aprendi muito com os meus queridos Aristóteles, Sócrates e Kant.

Veja – E teve formatura?
Yara – Dei uma grande festa. Reproduzi na minha casa o bar da universidade. Todos foram de estudante. Hebe Camargo foi de saia pregueada e meias três-quartos. João Armentano, de boné e colete. Espalhei pôsteres de 3 metros de altura com o rosto e os dizeres de filósofos. A idéia era passar um pouquinho do meu conhecimento para os convidados. Um dos pôsteres era de Parmênides: “O homem é e não pode não ser”. Isso diz muito. É como vermos na rua uma pessoa atropelada ou espancada. Não dá para fazer de conta que não aconteceu.

Veja – A senhora pretende continuar seus estudos filosóficos?
Yara – Vou fazer mestrado em filosofia da estética que, nossa, é um sem-fim. Pretendo estudar (Theodor) Adorno (filósofo alemão). Chego a ter taquicardia quando leio seus livros.

Veja – Por quê?
Yara – Ele fala da estética do homem como um todo, sabe? A pintura, a arquitetura, a poesia, a literatura. A estética trata desses assuntos que acabei de falar.

Veja – A senhora poderia ser mais clara?
Yara – Por exemplo: eu gosto desse quadro chinês aí na parede. Você não gosta? Tudo bem. É uma questão de valores. Isso é que é estética. É mais ou menos por aí.

Veja – O que a senhora modificou na estética do seu corpo?
Yara – Vamos por partes. No cabelo, fiz reflexo e um relaxamento na raiz dos fios. É que, cá entre nós, (cochichando) meu cabelo é pixaim. Fiz uma plástica no nariz, outra no pescoço e coloquei silicone nos seios. Tenho aparelho fixo nos dentes, que empurra os lábios para fora, fazendo com que eles pareçam carnudos. Uso lentes de contato verdes ou azuis. Ponho as azuis quando estou relaxada ou em missões de paz. Comprei as verdes para ficar com a cor dos olhos dos meus netos quando estamos juntos. Agora, quando vou assinar contratos ou dar entrevistas, fico com os olhos castanhos mesmo, que transmitem firmeza.

Veja – E Botox?
Yara – Apliquei na testa e em volta dos olhos. Tem gente que exagera e fica sem expressão. Em mim, ficou natural. É bem verdade que não levanto muito as sobrancelhas. Também não consigo abrir um sorrisão. Mas tudo bem: as coisas estão aí para ser usadas. Não perco tempo passando mil cremes. Não perco tempo com futilidades.

Veja – Então a senhora sai de casa de rosto lavado?
Yara – Nunca! Não gosto de mim sem maquiagem. Detesto me olhar no espelho de manhã.

Veja – Que mulheres a senhora mais admira?
Yara – Uma é a Marilyn Monroe. Ela adorava o glamour. Também me identifico com Diane de Poitiers e Aspásia. Diane viveu no século XVI e ampliou a cultura na França. Sua família tinha títulos de nobreza, como a minha. Aos 60 anos todo mundo lhe dava 30. Além disso, protegia pintores e divulgava encontros culturais. Já Aspásia foi a professora de Sócrates.

Veja – Que homens a senhora considera elegantes?
Yara – Elegância é uma coisa que vem de dentro. (O jornalista) João Dória Júnior e Fernando Collor são exemplos de homens elegantes. Vestem-se de maneira clássica, são tradicionais. O João é capaz de jogar futebol sem tirar um fio de cabelo do lugar. Ah, acho elegantes também todos os homens que jogam pólo.

Veja – A senhora é religiosa?
Yara – Fui católica até os 14 anos. Um dia, quando estava me confessando, o padre me deu uma bronca porque não havia ido à missa. Na hora, tive certeza de que o catolicismo não era o meu caminho. Quem era aquele homem para me criticar? Passei a acreditar na natureza. Creio nas árvores, nos bichos e na água. O canto do passarinho é a representação pura da energia que existe no cosmo. Daí o meu cuidado com o meio ambiente. Só uso spray de cabelo que não prejudica a camada de ozônio. Ando tendo muitas preocupações com o mundo.

Veja – Quais?
Yara – A maior é com a água. Se não economizarmos, vai faltar no próximo século. Também estou apreensiva com o tempo. Li que o dia passou a ter só dezesseis horas, segundo a física quântica. É incrível como não conseguimos mais cumprir com nossos compromissos…

Veja – Como a senhora definiria a física quântica?
Yara – Não sei explicar direito, mas posso dar um exemplo. Quando vou contratar alguém, além de avaliar seu currículo, procuro sentir sua energia. Se é boa, houve um encontro dos nossos campos energéticos, entendeu?

Veja – Mais ou menos. A senhora faz caridade?
Yara – Não dou esmola, mas ajudo carentes em Campos do Jordão. Acho um absurdo essas pessoas que fazem de pedir esmola na rua um comércio. Detesto ver crianças exploradas pelas mães nos semáforos. Uma vez vi um senhor que tinha um quelóide no peito e fazia point nos Jardins (bairro de classe média alta de São Paulo). Um absurdo!

Veja – Quais foram as maiores lições que recebeu de seus pais?
Yara – Mamãe me ensinou a dar festas como ninguém. Aos 9 anos, eu já era capaz de organizar um jantar americano para trinta pessoas. Papai me ensinou a gostar de livros.

Veja – De que tipo de livros a senhora gosta?
Yara – A-do-ro livros. Tenho 5 000 volumes em quatro bibliotecas. Na biblioteca que eu chamo de social, guardo obras raras. Outra é meu cantinho, com livros de psicologia e de filosofia. A terceira, no meu quarto, tem os livros de capa mole, de administração, auto-ajuda e estética. No escritório do meu marido, estão os livros de arte. Colecionar livros é uma das minhas paixões.

Veja – Quais são as outras?
Yara – Música. Adoro Wagner. Toco muito bem piano. Aliás, tenho três: um Challen, um Bechstein e um pianinho de apartamento para tocar jazz. Outra paixão é olhar o mar. Sinto paz, muita paz. Só de falar sobre o mar, já me sinto tranqüila.

Veja – A senhora tem um gosto musical refinado…
Yara – Você acha mesmo?

Veja – É o que parece. A senhora gosta de algo simples?
Yara – Macarrão Miojo e pão com manteiga. Já quanto a creme hidratante, minha filha, não tenho nada de sofisticada. Uso o da latinha azul, sabe?

Veja – Qual é a sua roupa preferida?
Yara – Uma calça Lee, que ganhei aos 12 anos. É a minha medida até hoje. Quando não entro nela, sei que estou gorda.

Veja – Qual é o número dela?
Yara – Trinta e oito, talvez.

Veja – Quantos vestidos de festa a senhora tem?
Yara – Não sei, mas meu acervo está catalogado, assim como minha biblioteca. Digitalizei meus livros. Agora, estou fazendo isso com os vestidos. Fiz uma foto minha usando cada um deles. Junto com a foto, tem uma ficha com informações importantes. Coisas como onde e quando ele foi comprado, em que ocasiões foi usado e quando foi lavado pela última vez etc. O único problema é que as empregadas não sabem mexer no computador. Quando quero uma roupa, tenho de procurar eu mesma.

Veja – Qual foi a sua maior loucura consumista?
Yara – Fiz uma carreira muito bonita de bailarina em Frankfurt e em Londres. Minha professora, para quem sabe um pouquinho de balé, era da companhia da Anna Pavlova. Minha grande loucura foi gastar meu primeiro salário num par de sapatos e num mantô Dior.

Veja – Como eram os sapatos?
Yara – Sou uma pessoa muito sóbria. Eram de verniz preto, clássicos. Compro pouco, mas sempre do melhor. Gosto de qualidade, não de quantidade. Isso é bem europeu. Eu me sinto muito européia.

Veja – O que é se sentir européia?
Yara – Todas as viagens que faço têm de ter uma paradinha em Paris. É o ponto de partida da minha vida. Meus avós são italianos. Minha educação, portanto, foi européia. Aprendi as coisas da vida através da arte, da música, da literatura. Por causa dessa tradição, abri uma galeria de arte. Arte, arte, arte, arte, eu respiro arte desde muito pequena. Dizem até que eu sou uma mecenas.

Veja – A senhora não gosta de ser brasileira?
Yara – Tenho orgulho do Brasil. Fico feliz quando as pessoas se maravilham com a nossa cirurgia plástica. Não admito que falem mal do Brasil. Uma vez tive uma discussão horrorosa com um alemão. Ele criticou Jorge Amado. Como falo bem alemão, mostrei minhas garras.

Veja – Como a senhora se descreveria?
Yara – Sou uma bandeirante desbravante. Desvendo novos caminhos. Sou o próprio Mito da Caverna de Platão buscando conhecimento. Estudo nos fins de semana. O primeiro livro de gente grande que li foi a biografia de Leonardo da Vinci. O poder criativo dele me fez perceber que eu poderia realizar tudo aquilo que quisesse. Essa esperança do vir-a-ser é muito bonita.

Veja – Mais alguma coisa?
Yara – Anote aí (lendo um papel): eu respeito a pluralidade racial. Meu querido Kant tinha essa luta. Ele queria a paz entre os iguais. Ah, por favor, não me deixe parecer fútil nesta entrevista, sim?



Classe média (Max Gonzaga)
Tuesday March 06th 2007, 13:29
Filed under: Citações, Poesia, Política

Sou classe média
papagaio de qualquer tele-jornal
eu acredito na imparcialidade da revista semanal
sou classe média
compro roupa e gasolina no cartão
odeio coletivos e vou de carro que comprei a prestação
só pago impostos
estou sempre no limite do meu cheque especial
eu viajo pouco
no máximo um pacote CVC tri-anual
mas eu não tô nem aí
se o traficante é quem manda na favela
eu não tô nem aqui
se morre gente ou tem enchente em Itaquera
eu quero é que se exploda
a periferia toda
mas fico indgnado com o Estado
quando sou incomodado
pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
o parabrisa ensaboado
é camelô, bijú com bala
e as peripécias do artista malabarista do farol
mas se o assalto é em Moema
o assassinato é no Jardins
e a filha do executivo é estuprada até o fim
aí a mídia manifesta
a sua opinião regressa
de implantar pena de morte
ou reduzir a idade penal
e eu que sou “bem informado”
concordo e faço passeata
enquanto aumento a audiência
e a tiragem do Jornal
toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida
Sou Classe Média



Tenha um programa de rádio!
Thursday November 23rd 2006, 09:17
Filed under: Citações, Política

radiola.jpg



Abraço de graça
Saturday November 18th 2006, 11:03
Filed under: Citações, Política

Foto abraço de graça

No dia 14 de novembro eu e o Zé distribuimos abraços de graça na escada do bandejão da UFMG. A idéia é questionar a valorização de todos os nossos atos pelo dinheiro, e mostrar que nem tudo precisa ter um objetivo nem um lucro. Ao mesmo tempo buscamos nos aproximar das pessoas oferecendo um contato mais humano, físico e sensitivo, e menos frio, lógico e intelectual.

Inicialmente pensamos em fazer isso permanentemente, na segunda terça feira do mês. O problema é que em dezembro vai ter pouca gente na UFMG, assim como em janeiro e fevereiro, então o movimento só voltará à ativa em março, se nos lembrarmos na época.

Distribua abraços você também, esteja onde estiver e para quem for. E lembre-se: não cobre nada por isso.



Chomsky: Adam Smith
Sunday November 12th 2006, 19:40
Filed under: Chomsky, Citações, Política

De fato, não há dois pontos de vista mais antitéticos do que o liberalismo clássico e o capitalismo — e é por isso que, quando a Universidade de Chicago publica uma edição bicentenária de Smith, tem que distorcer o texto (o que foi feito): porque, como autêntico liberal clássico, Smith opunha-se fortemente a toda essa idiotice que hoje se diz em seu nome.

Então, se vocês lerem a introdução de George Stigler à edição bicentenária de A Riqueza das Nações — é uma grande edição acadêmica, University of Chicago Press, portanto é meio interessante de se ler –, ela é diametralmente oposta ao texto de Smith, ponto a ponto. 35 Smith é famoso pelo que ele escreveu sobre a divisão de trabalho: supõe-se que ele achava que a divisão do trabalho era uma grande coisa. Pois bem, não achava: ele achava a divisão do trabalho uma coisa terrível — na verdade, ele disse que em qualquer sociedade civilizada o governo teria que intervir para evitar que a divisão do trabalho simplesmente destruísse as pessoas. Tudo bem, agora dêem uma espiada no índice da edição da Universidade de Chicago (vocês sabem, um índice detalhado, para estudos acadêmicos) e procurem “divisão do trabalho”: não vai encontrar nenhum verbete para essa expressão — ela simplesmente não está lá. 36

Bem, isso é o que é estudo acadêmico de verdade: elimine os fatos totalmente, apresente-os como o oposto do que são e calcule: “Provavelmente ninguém vai mesmo ler a página 473, porque eu não li”, isto é, perguntem aos caras que editaram esse trabalho se eles algum dia leram a página 473 — resposta: bem, eles provavelmente leram o primeiro parágrafo então meio que lembraram o que lhes havia sido ensinado em algum curso universitário.

Texto extraído do Capítulo 6 do livro Para entender o poder, uma coletânea de textos de Noam Chomsky organizados por Peter R. Mitchell e John Schoeffel.



Chomsky: URSS e Brasil
Sunday November 12th 2006, 19:39
Filed under: Chomsky, Citações, Política

Ora, suponham que fizéssemos uma pergunta racional, em vez de perguntar uma insanidade do tipo “como saiu-se a União Soviética, em comparação com a Europa Ocidental?”. Se quisermos avaliar os modos alternativos de desenvolvimento econômico — gostem deles ou não –, o que devíamos perguntar é como se saíram sociedades que eram como a União Soviética em 1910, comparadas com ela em 1990? Bem, a História não fornece analogias precisas, mas existem boas escolhas. Então, poderíamos comparar a Rússia e o Brasil, digamos, ou Bulgária e Guatemala — essas são comparações razoáveis. O Brasil, por exemplo, devia ser um país super-rico: tem recursos naturais inacreditáveis, não tem inimigos, não foi praticamente destruído por invasões só neste século [i. e., a União Soviética sofreu perdas imensas nas duas Guerras Mundiais e na intervenção ocidental de 1918 em sua Guerra Civil.] De fato, o Brasil está muito mais bem equipado para se desenvolver do que a União Soviética jamais esteve. Tudo bem, comparem só, o Brasil e a Rússia — essa é uma comparação razoável.

Bem, há um bom motivo pelo qual ninguém o faz, e só fazemos comparações idiotas — porque, se compararmos o Brasil e a Rússia ou a Guatemala e a Hungria, chegaríamos a respostas indesejáveis. O Brasil, por exemplo, para talvez 5% ou 10% da sua população, é mesmo como a Europa Ocidental — e para talvez em torno de 80% de sua população é meio como a África Central. De fato, para provavelmente 80% da população brasileira, a Rússia soviética teria parecido como um céu. Se um camponês guatemalteco de repente fosse parar na Bulgária, ele provavelmente acharia que tinha ido para o paraíso ou algo de gênero. Então, não façamos essas comparações, só fazemos comparações malucas, que qualquer um que pensasse por um segundo veria que são absurdas. E todo mundo aqui as faz, mesmo: todos os acadêmicos as fazem, os comentarias do desenvolvimento as fazem, os comentarias dos jornais as fazem. Mas pensem só por um segundo: se quiserem saber quanto sucesso teve o sistema econômico soviético, comparem a Rússia de 1990 com algum lugar que fosse como ela em 1910. Precisa ser brilhante para perceber?

Texto extraído do Capítulo 5 do livro Para entender o poder, uma coletânea de textos de Noam Chomsky organizados por Peter R. Mitchell e John Schoeffel.



Martha Medeiros
Sunday November 12th 2006, 19:31
Filed under: Citações, Poesia

No fundo sabemos
que somos todos loucos

ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma

sem saber afinal
para onde iremos

ninguém repitiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas

medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura

ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado

entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima

quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?

Poesia de Martha Medeiros publicada no livro Persona non grata.



Balada do Di Cavalcanti
Sunday November 12th 2006, 19:26
Filed under: Citações, Di Cavalcanti, Poesia, Vinícius de Moares

Amigo Di Cavalcanti
A hora é grave e
inconstante.
Tudo aquilo que prezamos
O povo, a arte, a cultura
Vemos sendo desfigurado
Pelos homens do passado
Que por terror ao futuro
Optaram pela tortura.
Poeta Di Cavalcanti
Nossas coisas bem-amadas
Neste mesmo exato instante
Estão sendo desfiguradas.
Hay que luchar, Cavalcanti
Como diria Neruda.
Por isso, pinta, pintor
Pinta, pinta, pinta, pinta
Pinta o ódio e pinta o amor
Com o sangue de tua tinta
Pinta as mulheres de cor
Na sua desgraça distinta
Pinta o fruto e pinta a flor
Pinta tudo que não minta
Pinta o riso e pinta a dor
Pinta sem abstracionismo
Pinta a Vida, pintador
No teu mágico realismo!

Carioca Di Cavalcanti:
Na rua do Riachuelo
Nasceste, a 6 de setembro
Do ano noventa e sete.
Infante, foste criado
No bairro de São Cristóvão
Na chácara do avô materno
Emiliano Rosa de Senna
(Nome de avô de pintor!)
Orgulhoso proprietário
Do antigo morro do Pinto
(Quem sabe não vem de herança
O teu amor às mulatas?)
Logo os bairros se renovam:
Botafogo, Glória (hotel)
Copacabana e Catete
(O Catete de onde nunca
Deverias ter saído
E ao qual agora voltaste
Humilde e reconhecido).
Moraste no hotel Central
E no hotel dos Estrangeiros:
Ambos desaparecidos
E onde à tarde, entre os amigos
Tomavas, e com que gosto
O melhor uísque do mundo!
Paquetá, um céu profundo
Que não sabe onde acabar
Viu-te muito passear
Ó genial vagabundo!
- Quantas vezes foste à Europa
Dize-me, grão-vagamundo?

No ano de trinta e oito
Em Paris te descobri
Rimos e bebemos muito
Nos bares de por ali
Lembras-te, Di? Consue-
Lo de Saint-Exupéry
Saía sempre conosco
E mais o sargento Thyrso
Que uma noite lá, por pouco
Não sai no braço comigo.
Como foste meu irmão!
Como eu fiquei teu amigo!
E no México, te lembras?
Com Neruda e com Siqueiros
E a linda Maria Asúnsolo
Que tenia blanco el pelo
Bebemos tanta tequilla
Que até dava gosto ver-nos
A comer com gulodice
Um prato de tacos pleno!
Mais de setecentas luas
Ungiram tua cabeça
Que hoje é branca como a Lua
Mas continua travessa…
Que bom existas, pintor
Enamorado das ruas
Que bom vivas, que bom sejas
Que bom lutes e construas:
Poeta o mais carioca
Pintor o mais brasileiro
Entidade a mais dileta
Do meu Rio de Janeiro
- Perdão, meu irmão poeta:
Nosso Rio de Janeiro!

São Paulo, nos 66 anos do pintor mais jovem do Brasil, 06.09.1963

Poesia de Vinícius de Moraes publicada no livro Poesia completa e prosa, em Poesias coligidas e enunciada por Gláuber Rocha no filme Ninguém assistirá ao formidável enterro da sua última quimera, somente a ingratidão, aquela pantera, foi a tua companheira inseparável