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MetAprendizado é um coletivo MetaRecicleiro dedicado ao desenvolvimento de inovações em educação.
O objetivo é discutir idéias sobre vários temas, vislumbrando a criação de uma escola.
http://r19.sarava.org/Main/MetAprendizado
A próxima (segunda) reunião do coletivo acontecerá domingo 26/11, às 17h, nos bancos do pátio do Palácio das Artes. Participe!!!

No dia 14 de novembro eu e o Zé distribuimos abraços de graça na escada do bandejão da UFMG. A idéia é questionar a valorização de todos os nossos atos pelo dinheiro, e mostrar que nem tudo precisa ter um objetivo nem um lucro. Ao mesmo tempo buscamos nos aproximar das pessoas oferecendo um contato mais humano, fÃsico e sensitivo, e menos frio, lógico e intelectual.
Inicialmente pensamos em fazer isso permanentemente, na segunda terça feira do mês. O problema é que em dezembro vai ter pouca gente na UFMG, assim como em janeiro e fevereiro, então o movimento só voltará à ativa em março, se nos lembrarmos na época.
Distribua abraços você também, esteja onde estiver e para quem for. E lembre-se: não cobre nada por isso.
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Já fui questionado no meu (curioso?) hábito de obedecer à s normas de trânsito. O “curioso” vem entre parênteses e com interrogação justamente para questionar porque é tão incomum que as pessoas sigam essas regras. E é ainda mais estranho que se esperem de mim, que sou um suposto contestador do sistema imposto AUTORITARIAMENTE SEM ME CONSULTAREM, que seja um infrator.
Primeiro vamos aos motivos que levam as pessoas a desobedecer essas normas: o primeiro e mais comum, talvez não o que tenha mais a ver comigo e conseqüentemente com o escopo do texto, mas que vale citá-lo, tamanha a sua freqüência, é a imposição da imagem de macho alfa dominador sedutor. Passar no sinal fechado a 100km/h é uma coisa muito sensual, mostra toda a coragem e a virilidade do recém adolescente que pegou o carro do pai escondido. Eu sei que para nós que, modéstia a parte, pensamos, é muito difÃcil entender essa lógica. Sem querer de forma alguma parecer prepotente, acho que está bem explÃcito que seres que seguem essa lógica não são normais. É claro que nem sempre é tão evidente assim a incoerência dos fatos, as vezes é só o papai mostrando para a mamãe como ele dirige bem seu carro 0 com marcha automática, ultrapassando caminhões na estrada para a praia.
Outro motivo é a pressa. Sim, eu preciso chegar muito rápido lá na minha aula porque eu quis ficar namorando pela internet até 5 minutos antes da hora. E se acontecer um acidente com quem não tem nada a ver com a história, e possivelmente está no primeiro encontro efetivo com um velho amor platônico, bem, eles terão que deixar o encontro para outro dia. Essa lógica é mais complexa, e até pessoas que pensam são capazes de segui-la. Ela é provavelmente decorrente da cultura competitiva e egoÃsta — não seriam esses termos quase sinônimos — sob a qual fomos criados. Não interessa muito quem está naquele carro prata ali da frente, ou aquele velho naquele carro velho, “que velho feio, hehehe”. O que importa é que não queremos saber quem é o velho feio, nem porque ele é feio ou mesmo velho, queremos chegar a tempo no compromisso que atrasamos. Tudo é menos importante que o conserto do nosso próprio erro.
Mas você não questiona tudo, gosta de ir contra as regras e fazer coisas estranhas, tipo manifestações? Sim e não. Eu questiono as coisas mesmo, mas nem sempre no final dos meus questionamentos eu discordo. Questionar, para mim, tem a ver com não aceitar elas por imposição e sim pensar sobre elas, porque elas existem, e se vale a pena ou não segui-las. Eu pensei sobre as leis do trânsito e cheguei a uma conclusão: não vou louvá-las como regras universais atemporais que todos devemos cegamente respeitar, mas simplesmente as considero como conselhos que foram dados por alguém que estudou determinada via. Isso em alguns casos. Em outros, elas simplesmente te impedem de atrapalhar o próximo, o que eu acho bem lógico para convivermos em comunidade e imagino que quem não respeita essas são realmente egoÃstas. Esse tipo é proibido estacionar, contra-mão. As outras são simplesmente para tornar o trânsito mais seguro, velocidade máxima, semáforos. Nesse caso é compreensÃvel que algumas pessoas em algumas situações não sigam a risca o que foi sugerido, por terem feito uma análise que garantisse a segurança e por algum motivo era necessário que elas agissem de forma diferente. Tudo bem, assim eu compreendo, mas isso não é uma situação corriqueira. Isso é se alguém tiver tido um problema de saúde tão urgente que não tiver dado para eu chamar uma ambulância e eu mesmo tiver que levar a pessoa para um hospital mais próxima, pela contra mão da Amazonas.
Pensar sobre as regras e querer segui-las é tão incomum que acaba soando estranho. E isso é uma coisa que me é bem clara hoje em dia. É muito mais contra-hegemônico, ou, numa análise fonética, homogêneo, seguir pensando do que não seguir sem pensar. Da mesma forma que é muito mais alternativo não fumar maconha do que fumar nos dias de hoje. A moda agora é namorar pelado.
O tÃtulo do documentário já define o tom do filme, ao ser enunciado no primeiro plano: Ninguém assistirá ao formidável enterro da sua última quimera, somente a ingratidão, aquela pantera, foi a tua companheira inseparável , retirado de versos de Augusto dos Anjos. Um filme de engradecimento, que não deixa se abater com a notÃcia da morte, mas que a supera, revivendo as obras e a personalidade de Di Cavalcanti. A energia de Gláuber Rocha, diretor do filme, impossibilita que a tristeza chegue ao espectador sem ser associada à felicidade da vida que passou.
A imagem de Di, em quase todas as vezes que aparece no filme, está com um sorriso no rosto, mesmo quando no caixão. Creio que a única vez que ele aparece com um semblante neutro é na página de fundo do livro que Gláuber folheia em alguns planos. Essa repetição do artista sorridente, associada as histórias contadas pelo diretor e pela poesia de VinÃcius de Morais, Balada do Di Cavalcanti cria uma personalidade brincalhona de Di, reforçada quando a câmera se fixa em uma bola pintada pelo pintor.
A primeira parte do filme, principalmente nos planos em que ouvimos a poesia acompanhada por Lamentos de Pixinguinha com mais uma vez VinÃcius, é mais nostálgica. Ela revive um Di que, de tão jovem, merecia estar vivo. A bela interpretação do poema traz um lirismo embelezado pelo contraponto com as cena do enterro acompanhadas por música fúnebre. Através dessa mistura, a cada vez que somos lembrados da morte a volta à s memórias da vida se tornam mais grandiosas. Assim temos a sensação da morte como complemento da vida, como o que faz a vida valer. A insistência do diretor em evidenciar as dificuldades da produção do filme, como a oposição da famÃlia do pintor, incrementa a força do filme, como se os espectadores também passasem pela mesma dificuldades ao ouvÃ-las sendo retratadas por Gláuber.
A segunda parte já dá outra cara ao filme. As músicas exaltativas, como Umbabarauma de Jorge Ben, refletem muito mais a obra e a vida artÃstica do artista do que sua morte e suas caracterÃsticas pessoais. Nesse momento não é tratado o homem Di, e sim o pintor Di Cavalcanti.
Proibido no Brasil pela famÃlia do pintor, o filme está disponÃvel no endereço http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/personalidades/glauber-rocha/glauber-rocha.asp , onde a questão legal foi contornada por o filme está hospedado em um servidor norte-americano.
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De fato, não há dois pontos de vista mais antitéticos do que o liberalismo clássico e o capitalismo — e é por isso que, quando a Universidade de Chicago publica uma edição bicentenária de Smith, tem que distorcer o texto (o que foi feito): porque, como autêntico liberal clássico, Smith opunha-se fortemente a toda essa idiotice que hoje se diz em seu nome.
Então, se vocês lerem a introdução de George Stigler à edição bicentenária de A Riqueza das Nações — é uma grande edição acadêmica, University of Chicago Press, portanto é meio interessante de se ler –, ela é diametralmente oposta ao texto de Smith, ponto a ponto. 35 Smith é famoso pelo que ele escreveu sobre a divisão de trabalho: supõe-se que ele achava que a divisão do trabalho era uma grande coisa. Pois bem, não achava: ele achava a divisão do trabalho uma coisa terrÃvel — na verdade, ele disse que em qualquer sociedade civilizada o governo teria que intervir para evitar que a divisão do trabalho simplesmente destruÃsse as pessoas. Tudo bem, agora dêem uma espiada no Ãndice da edição da Universidade de Chicago (vocês sabem, um Ãndice detalhado, para estudos acadêmicos) e procurem “divisão do trabalho”: não vai encontrar nenhum verbete para essa expressão — ela simplesmente não está lá. 36
Bem, isso é o que é estudo acadêmico de verdade: elimine os fatos totalmente, apresente-os como o oposto do que são e calcule: “Provavelmente ninguém vai mesmo ler a página 473, porque eu não li”, isto é, perguntem aos caras que editaram esse trabalho se eles algum dia leram a página 473 — resposta: bem, eles provavelmente leram o primeiro parágrafo então meio que lembraram o que lhes havia sido ensinado em algum curso universitário.
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Texto extraÃdo do CapÃtulo 6 do livro Para entender o poder, uma coletânea de textos de Noam Chomsky organizados por Peter R. Mitchell e John Schoeffel.
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Ora, suponham que fizéssemos uma pergunta racional, em vez de perguntar uma insanidade do tipo “como saiu-se a União Soviética, em comparação com a Europa Ocidental?”. Se quisermos avaliar os modos alternativos de desenvolvimento econômico — gostem deles ou não –, o que devÃamos perguntar é como se saÃram sociedades que eram como a União Soviética em 1910, comparadas com ela em 1990? Bem, a História não fornece analogias precisas, mas existem boas escolhas. Então, poderÃamos comparar a Rússia e o Brasil, digamos, ou Bulgária e Guatemala — essas são comparações razoáveis. O Brasil, por exemplo, devia ser um paÃs super-rico: tem recursos naturais inacreditáveis, não tem inimigos, não foi praticamente destruÃdo por invasões só neste século [i. e., a União Soviética sofreu perdas imensas nas duas Guerras Mundiais e na intervenção ocidental de 1918 em sua Guerra Civil.] De fato, o Brasil está muito mais bem equipado para se desenvolver do que a União Soviética jamais esteve. Tudo bem, comparem só, o Brasil e a Rússia — essa é uma comparação razoável.
Bem, há um bom motivo pelo qual ninguém o faz, e só fazemos comparações idiotas — porque, se compararmos o Brasil e a Rússia ou a Guatemala e a Hungria, chegarÃamos a respostas indesejáveis. O Brasil, por exemplo, para talvez 5% ou 10% da sua população, é mesmo como a Europa Ocidental — e para talvez em torno de 80% de sua população é meio como a Ãfrica Central. De fato, para provavelmente 80% da população brasileira, a Rússia soviética teria parecido como um céu. Se um camponês guatemalteco de repente fosse parar na Bulgária, ele provavelmente acharia que tinha ido para o paraÃso ou algo de gênero. Então, não façamos essas comparações, só fazemos comparações malucas, que qualquer um que pensasse por um segundo veria que são absurdas. E todo mundo aqui as faz, mesmo: todos os acadêmicos as fazem, os comentarias do desenvolvimento as fazem, os comentarias dos jornais as fazem. Mas pensem só por um segundo: se quiserem saber quanto sucesso teve o sistema econômico soviético, comparem a Rússia de 1990 com algum lugar que fosse como ela em 1910. Precisa ser brilhante para perceber?
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Texto extraÃdo do CapÃtulo 5 do livro Para entender o poder, uma coletânea de textos de Noam Chomsky organizados por Peter R. Mitchell e John Schoeffel.
Construir uma carreira, ser bem sucedido, gostar do que faz, expressar nossa subjetividade, juntar dinheiro. Muitos são os motivos que nos levam a colocar o trabalho na frente de todas as outras coisas da vida. Desde que começamos a estudar somos levados a pensar em qual ofÃcio vamos passar um terço do resto de nossas vidas, e quase sempre ignoramos os outros dois terços. Se temos algum encontro e precisamos trabalhar, desmarcamos o encontro; mas nunca desmarcamos uma reunião de trabalho porque queremos ficar com os amigos ou com a famÃlia.
Uma importante razão para a super valorização do trabalho é o dinheiro. Precisamos dele para sobreviver, isso é um fato. Mas não é um fato que precisamos de muito. É difÃcil determinar quanto, porque, em nosso sistema atual, tendemos a querer sempre mais. A cada vez que conseguimos suprir uma necessidade financeira aparecem outras, e muitas vezes elas aparecem também antes mesmo de termos suprido as anteriores. Por mais que não pareça, podemos escolher se vamos nos sujeitar a essas aspirações infindas ou se vamos determinar nossas necessidades reais e buscar dinheiro trabalhando em função delas, não deixando que novas surjam em função da possibilidade de ganhar mais. Dessa forma, é uma atitude normal trabalhar um pouco menos e ganhar muito menos, simplesmente porque o ganhar muito mais trabalhando um pouco mais seria desnecessário. E esse pouco mais de tempo que se trabalharia poderia ser usado para outras partes da vida mais importantes.
Em trabalhos artÃsticos ou em que se pode fazer uma carreira, existem outros motivos além do dinheiro que nos levam a trabalhar. A busca da perfeição ou a possibilidade de expressão são justificativas que elevam o trabalho a uma prioridade ainda maior do que no caso de quem trabalha por dinheiro, tornando-o mais importante do que o bem estar do trabalhador e até mesmo do que ele próprio. Isso geralmente é ocasionado pela competição, seja com os outros ou consigo mesmo. A vida vira o trabalho, e todo o resto é esquecido.
Inclusive a famÃlia. Quando se faz a opção de constituir uma famÃlia, principalmente quando se tem filhos, deve-se dedicar um tempo para tal. Se escolhemos trabalhar, nos comprometemos a dedicar uma parte dos nossos dias. O mesmo deveria acontecer quando escolhemos ter um filho, porém é muito comum vermos pais que dedicam pouco tempo aos filhos, enquanto é raro vermos trabalhadores que dedicam pouco tempo ao trabalho. Filhos precisam de atenção e cuidado para crescerem saudáveis e felizes, e a formação de uma pessoa é muito mais fundamental do que qualquer outra ocupação.
Quando nos dispomos a ser mãe ou pai, queremos viver a realização de criarmos uma pessoa que é um reflexo dos pais tendo uma personalidade própria; nos aproximamos da natureza e de nossos instintos. Pensar que tudo procederá da mesma forma deixando a criança com uma babá enquanto vamos trabalhar é ilusão. Sem contar no problema social causado por isso: a babá cria os nossos filhos, quem cria os filhos da babá?
Em Sonata de outono Ingmar Bergman discute a situação de uma filha abandonada pela mãe em prol do trabalho. A mãe, Charlotte Andergast — vivida por Ingrid Bergman, é uma famosa pianista que nunca deu a devida atenção para as filhas por estar sempre em turnê. A personagem de Liv Ullmann é a filha Eva, que nunca perdoou a mãe por esse comportamento, e o filme se dá em torno das discussões das duas personagens, através das quais somos informados de tudo o que se passou na infância de Eva. Charlotte tenta se defender das acusações de Eva, mas fica evidente o descaso dela para com sua filha. Lena Nyman é Helena, a outra fila de Charlotte que, de tão abandonada pela mãe, adquiriu uma doença degenerativa.
Charlotte se sente incomodada com a presença de Helena, anunciada no inÃcio do filme. Isso dá uma indicação de que ela não se sente a vontade com o assunto e, quando não estão próximas, prefere esquecer sua filha. Assim Helena é a concretização da postura de Charlotte frente à criação das filhas. A sensibilidade de Helena fez com que ela fosse o exato reflexo das atitudes de sua mãe, ao contrário de Eva, que resistiu com mais força.
Não é que Charlotte não goste das filhas, ela simplesmente preferiu dedicar-se ao seu talento de pianista do que dar atenção a elas. Decisões como essa vemos o tempo todo acontecer por aÃ. Só geralmente não prestamos atenção nas conseqüências. E é a elas que Ingmar chama nossa atenção. Com Eva temos uma visão mais naturalista do resultado, mais próximo do que costuma acontecer na realidade. Eva sofre com a postura da mãe por toda a vida, e só mesmo quando está embriagada consegue colocar para fora todo esse sofrimento. A partir da visão de seu marido, Viktor, vivido por Halvar Björk, entendemos como as atitudes de sua sogra modelaram as carências de sua esposa, e temos contato com a intimidade de Eva em um nÃvel em que ela dificilmente se exporia. Apesar de ser o ponto de vista de uma outra pessoa, entramos mais em sua subjetividade do que quando ela mesmo se expressa. Seu filho morto, Erik, gera um sentimento maior de culpa em Charlotte por a ter incentivado a abortar quando era nova.
Já Helena é o extremo do erro de Charlotte. Tão triste que a própria Charlotte prefere não se aproximar, querendo deixá-la viver num abrigo. Ela mostra, de forma cinematográfica, tudo aquilo que preferimos também não ver e, quando vemos, esquecer. Helena é o resultado direto das atitudes de sua mãe, tendo bem menos tempo de filme do que Eva. O diretor mostra como verÃamos e como Charlotte vê. Nos faz mal a ver, e faz mal a Charlotte também. Por isso ela aparece pouco. Mas sempre que aparece, nos lembramos que o sofrimento de Eva, em pauta durante quase todo o filme, ainda vai mais longe. Ela é como um aviso: pode ser bem pior.
Charlotte também sofre muito, e isso não é ignorado pelo diretor. Ele mostra a angústia que ela fica após se reencontrar com Helena, e o estado deplorável em que ela se encontra na sua última cena do filme, no trem. Ela sofre talvez mais que todas, por ser a geradora de toda a situação. Porém nunca perdemos de vista que as outras são vÃtimas de um comportamente inconseqüente de sua mãe, que termina abandonando mais uma vez as filhas.
Precisamos trabalhar, claro, mas é importante saber conciliar os desejos. Se queremos filhos, devemos dedicar um tempo para eles. Nada vem sem esforço; filhos também não. Seja qual for o motivo para querermos trabalhar, dinheiro, talento, também tivemos um motivo forte para tomar outras decisões e viver outros lados da vida. Afinal, a vida não é só isso.
No fundo sabemos
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repitiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
Poesia de Martha Medeiros publicada no livro Persona non grata.
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Amigo Di Cavalcanti
A hora é grave e
inconstante.
Tudo aquilo que prezamos
O povo, a arte, a cultura
Vemos sendo desfigurado
Pelos homens do passado
Que por terror ao futuro
Optaram pela tortura.
Poeta Di Cavalcanti
Nossas coisas bem-amadas
Neste mesmo exato instante
Estão sendo desfiguradas.
Hay que luchar, Cavalcanti
Como diria Neruda.
Por isso, pinta, pintor
Pinta, pinta, pinta, pinta
Pinta o ódio e pinta o amor
Com o sangue de tua tinta
Pinta as mulheres de cor
Na sua desgraça distinta
Pinta o fruto e pinta a flor
Pinta tudo que não minta
Pinta o riso e pinta a dor
Pinta sem abstracionismo
Pinta a Vida, pintador
No teu mágico realismo!
Carioca Di Cavalcanti:
Na rua do Riachuelo
Nasceste, a 6 de setembro
Do ano noventa e sete.
Infante, foste criado
No bairro de São Cristóvão
Na chácara do avô materno
Emiliano Rosa de Senna
(Nome de avô de pintor!)
Orgulhoso proprietário
Do antigo morro do Pinto
(Quem sabe não vem de herança
O teu amor às mulatas?)
Logo os bairros se renovam:
Botafogo, Glória (hotel)
Copacabana e Catete
(O Catete de onde nunca
Deverias ter saÃdo
E ao qual agora voltaste
Humilde e reconhecido).
Moraste no hotel Central
E no hotel dos Estrangeiros:
Ambos desaparecidos
E onde à tarde, entre os amigos
Tomavas, e com que gosto
O melhor uÃsque do mundo!
Paquetá, um céu profundo
Que não sabe onde acabar
Viu-te muito passear
Ó genial vagabundo!
- Quantas vezes foste à Europa
Dize-me, grão-vagamundo?
No ano de trinta e oito
Em Paris te descobri
Rimos e bebemos muito
Nos bares de por ali
Lembras-te, Di? Consue-
Lo de Saint-Exupéry
SaÃa sempre conosco
E mais o sargento Thyrso
Que uma noite lá, por pouco
Não sai no braço comigo.
Como foste meu irmão!
Como eu fiquei teu amigo!
E no México, te lembras?
Com Neruda e com Siqueiros
E a linda Maria Asúnsolo
Que tenia blanco el pelo
Bebemos tanta tequilla
Que até dava gosto ver-nos
A comer com gulodice
Um prato de tacos pleno!
Mais de setecentas luas
Ungiram tua cabeça
Que hoje é branca como a Lua
Mas continua travessa…
Que bom existas, pintor
Enamorado das ruas
Que bom vivas, que bom sejas
Que bom lutes e construas:
Poeta o mais carioca
Pintor o mais brasileiro
Entidade a mais dileta
Do meu Rio de Janeiro
- Perdão, meu irmão poeta:
Nosso Rio de Janeiro!
São Paulo, nos 66 anos do pintor mais jovem do Brasil, 06.09.1963
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Poesia de VinÃcius de Moraes publicada no livro Poesia completa e prosa, em Poesias coligidas e enunciada por Gláuber Rocha no filme Ninguém assistirá ao formidável enterro da sua última quimera, somente a ingratidão, aquela pantera, foi a tua companheira inseparável