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Submidialogizando, primeira parte October 18, 2006

Posted by felipefonseca in : Egonet , trackback

Eu ia escrever um relato completão e só mandar depois. Mas primeiro que ia ser grandemais. Segundo, que não consegui e isso tá me incomodando profundamente, então vai o que já escrevi e depois mandomais.

Um aviso: como só fui escrever depois do fim da conferência, devo ter relatado algumas coisas no dia errado. Tomem como relato impreciso.

Chegada

Um vôo um pouco turbulento me levou a Recife na quarta-feira, 11. Encontrei o pessoal no estúdio do Machado, já começando o corre. Fizemos uma foto pra ilustrar a matéria sobre a Submidialogia para um jornal de lá. Alê tirou uma foto minha com os óculos de dinheiro e o nariz de palhaço. Vou pedir pra eles a foto e publicar por aqui depois.

Atualizando: ó a foto aqui.

ff

Pegamos as coisas e fomos pra Olinda no carro de Moabe. Olinda é uma cidade delicinha. Ruas conservadas, aquele jeito de interior, um clima de cultura por todo lado. Administração de “esquerda”, seja lá o que for isso. A conferência aconteceria no centro Luiz Freire, um espaço interessante, com um quintal gostoso e o oceano no horizonte, mandando aquela brisa eterna pra lamber o ar quente de sol. Organizamos alguma coisa aqui e ali, instalamos a internet, começamos a entender o espaço. Chegada

Organizamos alguma coisa aqui e ali, instalamos o wi-fi, comecamos a entender o espaço. Chegada a noite, depois de deixar minhas coisas na casa/sítio onde ficamos gentilmente hospedados, fomos à Noca comer uma macaxeira com carne seca e queijo coalho. Mais tarde, voltamos a Recife, Machado ia tocar num bar chamado Capitão Lima. Depois de um tempo, parou o ônibus trazendo uma galera desde o encontro de Rádios Livres, que tinha rolado na UFPE nos dias anteriores. Bom aquecimento pra Submidialogia, bom ver todo mundo de novo…

12

Quinta-feira, feriado, dia da criança. Chegamos no fim da manhã, começando a preparar o espaço - sinalização, canecas pros participantes, instalar a estação que veio do Rio. O pessoal do GESAC estava fazendo uma oficina no Cais do Parto, só apareceriam no começo da tarde. Algumas propostas de atividades já começaram a aparecer. Glerm começou a incentivar o pessoal a ajudar no Jardin de Volts. Limões fornecendo energia, pessoas fornecendo condutividade.

O ritual inicial da Submidialogia 2 se deu no quintal. Todxs reunidxs pra apresentações do espaço, da programação e primeiras idéias. Mais tarde, o primeiro debate, sobre voto nulo, democracia representativa e a barca não vote, acabou virando uma conversa mais ampla sobre o que é política, micropolítica, estado-nação, dharma e relacionamentos. Pra mim, uma boa discussão. Mais do que isso, a maneira como a conversa começou foi um sucesso e se repetiu nos dias seguintes: em vez de entrar em uma das salas e chamar todo mundo que estava lá fora, ligar um microfone e pedir silêncio, fizemos o oposto: começamos a conversa no quintal, entre duas, três, cinco pessoas, e organicamente uma conversa aberta rolou. Nessa primeira conversa, pouca necessidade de moderação. E toda vez que a conversa travava por algum motivo, Ruiz gingava com comentários desconcertantes.

13

O primeiro debate da sexta-feira 13 contou com apresentações de Henrique Parra, Tipuri e Wanderlynne. Cheguei atrasado, como de praxe. Parra levantou algumas questões importantes sobre como os movimentos de mídia tática e afins muitas vezes acabam se utilizando de uma estética e uma iconografia que refletem algumas concepções que podem ser equivocadas ou até contraditórias. Mais uma vez surge a questão da contra-hegemonia, do identificar-se na negação do sistema, e de na verdade se ver pouca proposta efetiva de transformação. Concordo totalmente com ele no sentido de que a gente deveria se preocupar mais em desenvolver mais propostas do que somente a crítica - que é importante, mas não é tudo. Na verdade, posições maniqueístas me parecem menos crítica do que um vício de algumas pessoas que está até previsto no próprio sistema como força renovadora. Mas comentei também que muitas vezes a MetaReciclagem enfrentava olhares desconfiados, porque tinha uma perspectiva um pouco mais abrangente e se relacionava com diversos setores da sociedade, incluindo empresas e governos. O Henrique demonstrou uma preocupação mais qualitativa com a questão da imagem, da construção de significados e o papel que isso pode ter no contexto mais amplo da mídia de massa. Mostrou algumas imagens da tentativa de reintegração do Prestes Maia, com um Mickey Mouse no meio da cena e outras sacadas interessantes que ajudam até a dificultar a distorção do contexto pela mídia tradicional.

Tipuri continuou o debate com um questionamento bem interessante da iconização da revolução. Mostrou um monte de réplicas e paródias da famosa imagem do Che. Traçou um paralelo interessante entre o Delegado Zero ou Subcomandante Marcos e Luther Blissett, tentando desenvolver uma “teoria conspiratória” sobre influência de Chiapas nos recantos anarquistas da Itália dos anos noventas.

Wanderlynne veio em seguida, contando de suas experiências com populações indígenas, e puxou também uma conversa muito profunda sobre imagem e construção de identidade coletiva dentro das tribos. Fiquei ainda mais convencido daquilo que a gente vem falando, de que a MetaReciclagem não pode se tratar apenas de desmistificar, mas também de construir mitos com outra perspectiva, aberta e colaborativa. Digo, entender o mito como parte fundamental do aprendizado coletivo e da perpetuação de cultura, e agir nesse sentido. O mais impressionante é que durante a Submidialogia 2 a Wanderlynne, que acho que nasceu no Acre, teve seu primeiro contato mais direto com tecnologia, e conversando depois com ela eu saquei que ela entendeu muito bem todas aquelas coisas que a gente costuma defender sobre o uso social da tecnologia, de que o mais importante não é o papo de acesso, mas de relacionamentos e trabalho colaborativo remoto.

Fomos almoçar descendo pra avenida. Arrumadinho, cerveja, e a presença de José Honorato, carroceiro que se empolgou com a câmera e o microfone e depois de uma breve entrevista começou a cantar músicas românticas. Uma delas, “Marinete”, parece ser de autoria dele mesmo.

No jardin, coisas começavam a acontecer. Laptops, Arduinos, sensores, piezos montados dentro de copos plásticos, PD, barulhos programados na mão.

A conversa sobre DesCentro, no fim da tarde, merece um relato em si. Comprovando a metodologia de conversas crescendo organicamente, surgiu de uma conversa de poucxs na escada, lá fora. A idéia inicial era apresentar em público o que queremos que seja o DesCentro. A conversa foi tomando corpo, e em algum tempo a escada parecia uma ágora, uma área de influência mútua. Levantaram-se algumas questões importantes, como representação, legitimidade, autonomia, sustentabilidade, replicação, institucionalização e mais. Essa conversa precisou ser moderada, mais pelo fato de que muita gente tinha bastante a dizer do que qualquer coisa. E a própria moderação era dinâmica: o papel de moderador dançou de um pra outro de acordo com o andar das conversas e do desempenho do próprio moderador. O único problema é que às vezes o moderador tinha que falar mais alto, o que afastou as meninas da moderação. Mas muitas opiniões foram ouvidas. Cp sugeriu que uma organização desse tipo só vai ser possível depois de cinco anos de trabalho. Depois corrigiu pra dez. Drica e Goa colocaram algumas questões críticas. Tomás, ligado ao ENCA e um monte de projetos sociais e afins, sugeriu um modelo de fundação pro DesCentro, tomando o próprio debate como assembléia. Pajé puxou um pouco a conversa para o que a gente já tinha conversado dentro do DesCentro. Mais pro fim, Volker veio me perguntar por que tanta celeuma, se uma organização deveria servir somente para cumprir um papel burocrático. No fim, nenhuma conclusão, mas um lançamento que me parece pertinente de um projeto descentralizado e que se propõe a uma visão crítica não só de empresas e governos, mas do próprio onguebusiness. Muitas novas questões levantadas, muitas opiniões inspiradoras, e mais clareza de que são mesmo necessários vários níveis de participação e uma metodologia bem definida de replicação. Vou armar de continuar essa conversa online nas próximas semanas. Mais tarde, minha opinião era de que o processo todo era menos o de uma assembléia do que um ritual pra despertar possíveis colaboradorxs. O formato assembléia que chegou a se insinuar serviu como chamada à conversa mais profunda que vai invariavelmente rolar entre poucxs (todxs xs que quiserem, obviamente) nos próximos tempos.

DesCentro

(foto de Karla Brunet)

E continuando na linha de rituais coletivos de transformação, alguém (não lembro de Juba, Jeff ou quem) sugeriu que fechássemos um circuito serial entre pessoas pra colocar os dedos na tomada, já transformada em 110v. Claro que a resistência somada de uma dúzia de pessoas não chega nem a dar choque, mas a experiência compartilhada de receio e superação foi significativa.

Mais tarde, me convenceram a subir até a Sé, que oferece uma bela vista da cidade como compensação pela subida da Ladeira da Misericórdia. Banquinhas com comida disputam a calçada. Colada na Sé, a escola de samba Preto Velho fornecia a trilha sonora pras conversas. Depois de uma tapioca de queijo e mais uma cerveja, descemos até o Mercado da Ribeira, pra festa da Submidialogia. À meia-noite, no início da apresentação do Media Sana, o sistema automático que desliga a energia dos equipamentos públicos de Olinda deixou todxs frustradxs.

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