…cyrano disse,

30.05

De novo.

Filed under: micropolítica, zen — cyrano @ 18:03

Postar a mesma coisa de novo não é, necessariamente, postar a mesma coisa de novo. Estou pronto pra outra, venha, vamos repetir: recomecemos.

Escrever a n, n-1, escrever por intermédio de slogans: Faça rizoma e nunca raiz, nunca plante! Não semeie, pique! Não seja nem uno nem múltiplo, seja multiplicidade! Faça a linha e nunca o ponto! A velocidade transforma o ponto em linha! Seja rápido, mesmo parado! Linha de chance, jogo de cintura, linha de fuga. Nunca suscite um General em você! Nunca idéias justas, justo uma idéia (Godard). Tenha idéias curtas. Faça mapas, nunca fotos nem desenhos. Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo “ser”, mas o rizoma tem como tecido a conjunção “e…e…e…” Há nessa conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. Para onde vai você? De onde você vem? Aonde quer chegar? São questões inúteis. Fazer tabula rasa, partir ou repartir de zero, buscar um começo, ou um fundamento, implicam uma falsa concepção da viagem e do movimento (metódico, pedagógico, iniciático, simbólico…). Algumas pessoas têm outra maneira de viajar e também de se mover, partir do meio, pelo meio, entrar e sair, não começar nem terminar. É que o meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem inicio nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio.

– Mil Platôs, de deleuze e guattari.

28.05

Com que espírito comereis?

Filed under: zen — cyrano @ 14:34

Tokusan, o famoso erudito do Kongo Kyo, ouviu falar, um dia, num mestre que todo o mundo reputava muito grande: mestre Ryutan (literalmente: “O Dragão do Lago”). Julgando-se invencível no conhecimento do Kongo Kyo e, por esse motivo, havendo-se na conta de pessoa de grandíssimo valor, Tokusan experimentou o desejo de encontrar esse homem, mais considerado do que ele, e enfrentá-lo.

Chegando à porta do templo, avistou uma tendazinha servida por uma velha, que ali vendia bolinhos de arroz. Tokusan pediu três. O seu ar fanfarrão despertou a curiosidade da velha:

– Que trazeis ao ombro? — perguntou ela.

– Um texto extremamente precioso e de tamanha profundeza que não posso falar convosco sobre ele. É o Kongo Kyo. Mas isso não significa nada para vós, dai-me os meus bolinhos de arroz!

–Sou ignorante, é verdade, mas também sou curiosa — contraveio a velha. — Vou fazer-vos uma pergunta, e só vos darei os bolinhos de arroz se responderes a ela. Não é nesse texto precioso e profundo que está escrito que o espírito do passado é imperceptível aos sentidos, que é imperceptível aos sentidos o espírito do presente e que é igualmente imperceptível aos sentidos o espírito do futuro? Dizei-me, pois, com que espírito comereis os bolinhos de arroz? Que espírito escolher?… o do passado, o do presente ou o do futuro?

Tokusan quedou-se estupefato… Não conseguiu os bolinhos de arroz, que lhe haviam ficado imperceptíveis aos sentidos. Muito perplexo, imaginou que Ryutan devia ser, de fato, um mestre tão grande que até uma velhinha, simples guardiã do templo, tinha o espírito hábil.

Transpôs a grande porta do templo e foi ver Ryutan, que o acolheu com simplicidade. Feita a sua cama e definida a sua tarefa, foi-lhe solicitado que se retirasse até o dia seguinte.

***

Todos os dias, com aplicação, Tousan varria o pátio, capinava o jardim, limpava as salas do templo e desse modo se lhe escoavam as horas.

– Vim aqui por ter ouvido dizer que Ryutan é o grande dragão do lago; nesse lago, no entanto, não vejo dragão nenhum! — exclamou, um dia, exasperado e lasso.

Mestre Ryutan aceitou o mondo, que se prolongou até uma hora muito avançada da noite. Fatigado, mestre Ryutan o dispensou.

Transposto o limiar, a escuridão era total. Por isso mesmo mestre Ryutan foi buscar uma lanterna. Mas no instante preciso em que a estendeu a Tokusan, soprou-lhe a chama e a escuridão se fez de novo, mais espessa do que nunca.

Nesse instante, Tokusan obeteve o grande satori. Como foi que ele o obteve?

É o koan.

Polir a telha.

Filed under: zen — cyrano @ 14:23

Baso estava em zazen quando o mestre lhe perguntou:

– Que estás fazendo?

– Estou fazendo zazen.

– Que idéia! E por que fazes zazen?

– Quero tornar-me Buda.

O mestre tirou uma telha do telhado e pôs-se a poli-la.

Baso, então, perguntou:

– Mestre, que idéia é essa? Que estais fazendo? Por que polis a telha?

– Quero torná-la um espelho!

– Mas… nunca o conseguireis, mestre!

– E como é possível alguém tornar-se Buda praticando zazen? — retrucou o mestre.

Quente, muito quente.

Filed under: zen — cyrano @ 14:20

Tanzan, celebérrimo mestre zen, dirigia um enterro segundo o ritual. Diante do ataúde, com um tição inflamado, traçou um triângulo no espaço; todos os assistentes esperavam as maravilhosas palavras de costume, mas a boca do mestre permaneceu hermeticamente fechada.

Então, ao passo que os assistentes cravavam os olhos nos raios do sol poente, que, caindo diretamente, abrasavam o crânio raspado do mestre…

– Quente — disse Tanzan –, quente, muito quente!

Fez, então, uma saudação desenvolta diante do caixão e retornou ao seu lugar. Inútil dizer que os assistentes ficaram intrigados por muito tempo depois que o esquife foi colocado debaixo da terra.

Silêncio total.

Filed under: zen — cyrano @ 14:16

Num templozinho perdido na montanha, quatro monges faziam zazen. Tinham decidido realizar uma sesshin no silêncio absoluto.

Na primeira noite, durante o zazen, a vela se extinguiu, mergulhando o dojo na mais profunda escuridão.

O mais moço dos monges disse a meia voz:

– A vela se apagou!

O segundo respondeu:

– Não deves falar. Esta é uma sesshin de silêncio total.

O terceiro acrescentou:

– Por que estais falando? Devemos calar-nos e permanecer em silêncio!

O quarto, responsável pelo sesshin, concluiu:

– Sois todos estúpidos e maus, só eu não falei!

O rosto no barril.

Filed under: zen — cyrano @ 14:13

No Japão antigo, um fabricante de saquê tinha uma mulher muito ciumenta.

Um dia, quando o marido enchia os barris, a mulher foi contemplar a superfície do líquido, polida como um espelho. Podia avistar nela o próprio rosto, mas, arrebatada pelo ciúme, pensou:

“Ora, essa! Meu marido esconde uma mulher no barril!”

E saiu dali correndo para ir dizê-lo ao companheiro.

Inclinando-se por seu turno, o marido divisou, à superfície do líquido, um rosto de homem.

“Ora, essa! Ela também tem um amante escondido!”

E os dois se engalfinharam como dois trapeiros…

Não se podem conseguir os dois extremos, nem isso é tão importante assim para a nossa vida cotidiana.

Não fugir.

Filed under: zen — cyrano @ 14:09

Sariputra, o grande discípulo do Buda, estava sentado em zazen, à beira de um lago. Um sem-número de peixes saltava à tona da água. Sariputra mudou de lugar e instalou-se num sítio mais retirado. Mas o canto dos pássaros estorvava-lhe o zazen. Os pensamentos afluíam, erguiam-se as ilusões… Como os pássaros e os peixes o incomodassem, decidiu matá-los e comê-los. Mas apanhou uma indigestão. Por essa anedota, um caso da mocidade de Sariputra, vê-se que é inútil procurar fugir ao rumor da água ou ao canto dos pássaros. A perturbação provém do nosso espírito.

A cenoura.

Filed under: zen — cyrano @ 14:06

Antigamente, no Japão, na moagem do trigo, os lavradores utilizavam cavalos para fazer girar a mó. Incansáveis,  os cavalos passavam o dia inteiro dando voltas, querendo pegar uma cenoura pendurada diante de seu focinho; entretanto, só ao cair da noite conseguiam eles comer a cenoura.

Essa é exatamente a imagem da nossa civilização!

Água pura, água suja.

Filed under: zen — cyrano @ 14:01

Outra história da China antiga.

Certo imperador pergunta a Kyoyu:

– Sois um grandíssimo homem, e desejo entregar-vos a transmissão do meu império. Vós o aceitais?

Muito descontente, Kyoyu respondeu apenas:

– Essas palavras sujaram minhas orelhas.

E partiu para ir lavar as orelhas no rio mais próximo.

– Hoje — disse ele –, ouvi palavras sujas.

Seu amigo, que conduzia uma vaca, chegou à beira da água.

– Por que estás lavando as orelhas? — perguntou-lhe.

– Hoje estou muito descontente, o imperador quis fazer-me seu sucessor; ofereceu-me o seu império, e essas palavras sujaram minhas orelhas, de modo que preciso lavá-las.

Disse-lhe, então, o amigo:

– Eu queria que minha vaca bebesse dessa água límpida, mas ela está suja!…

Rápido como…

Filed under: zen — cyrano @ 13:57

Um bom homem, nobre e corajoso, foi visitar, um dia, quatro grandes mestres de kyudo (tiro com arco e flecha), que viviam juntos num sítio retirado. Assim falou o homem:

– Sois quatro — disse-lhes. — Caminhe cada um de vós numa das quatro direções. Em seguida, virando-se para mim, dispare cada qual a sua flecha. Deterei as quatro antes que me atinjam.

– Não podemos acreditar! — bradaram eles.

– Como ele deve ser rápido! — tornaram os alunos. — Já é difícil deter uma flecha disparada por um mestre, quanto mais quatro ao mesmo tempo!  Isso já denota poder mágico.

Replicou, então, o Buda Sakyamuni:

– Há coisa ainda mais rápida que esse homem bom e corajoso: o curso do sol, o da lua e o do raio. E há coisa ainda mais rápida que o sol e a lua e o raio…

– Que é?

O mosquito ou o pai.

Filed under: zen — cyrano @ 13:53

Era uma vez um bom homem e seu filho, um pouco simplório.

O filho, muito honesto, dedicadíssimo ao pai, seguia-o sempre a toda parte.

Num belo dia de verão, na montanha, quando os dois dormiam deitados na relva da floresta, um mosquito pousou na cabeça do pai. O filho despertou. Não sabia o que fazer para agradar ao pai. Por isso mesmo, tomando de um porrete, deu uma porretada no mosquito. O mosquito voou, mas o pai estava morto. É um koan.

Odiamos o inimigo. O inimigo foge e o pai morre.

É como nos admirarmos de nós mesmos para acabar com os outros.  Trata-se, na época moderna, de uma atitude muito corriqueira, sobretudo entre os políticos, os homens de Estado. É a crise moderna.

A moral do tao.

Filed under: zen — cyrano @ 13:50

Um famigerado ladrão, chamado Koshi, interessava ao sábio Confúcio; este, com efeito, supunha poder convertê-lo à sua moral.

Dirigiu-se, portanto, à montanha em que o ladrão vivia, retirado, e propôs-se educá-lo.

Koshi, o ladrão, logo se cansou das palavras do importuno:

– És mais pueril que uma criança — exclamou, a súbitas.  — Tua moral é boa para ti, mas não é boa para mim! Ensina-me, portanto, o outro aspecto da moral se quiseres que eu te compreenda! Para falar com franqueza, eu não acreditava que os grandes sábios fossem tão tolamente ingênuos!

Confúcio viu-se obrigado a recuar. Recebera, em matéria de educação, uma grande lição!

Quem é o responsável?

Filed under: zen — cyrano @ 13:47

Um casal, que brigava, chegou às vias de fato. Por isso mesmo foi solicitado um julgamento.

Quem tinha razão, o marido ou a mulher? Qual deles ofendera o outro?

Nenhuma resposta.

O juiz, então, perguntou ao filho:

– Qual dos dois começou a briga? Teu pai ou tua mãe?

O menino respondeu:

– Não posso afirmar se foi somente minha mãe ou se foi somente meu pai.

Agarrar a oportunidade.

Filed under: zen — cyrano @ 13:45

Esta é a história da briga do operário com o judoca.

O judoca aplicou-lhe uma gravata. Por esse waza, num combate oficial, o operário teria sido vencido. Na realidade da vida, porém, o operário agarrou e torceu os testículos do judoca, que urrou de dor. E, no mesmo instante, conquistou a supremacia do combate.

Isso é o que eu chamo de “tática de guerrilha”. :)

27.05

Esvazie a xícara.

Filed under: zen — cyrano @ 12:16

Foi o primeiro conto zen que conheci. Me tocou profundamente, mais ou menos como um tapa na cara.

Um intelectual famoso foi visitar um mestre budista em seu templo. Queria aprender coisas novas sobre filosofia e religião. Quando entrou, foi levado para a sala do chá, onde o mestre já o aguardava.

– Acomode-se, por favor. Aceita chá?

O visitante aceitou e, enquanto se sentava, ficou observando a simplicidade e precisão com que o mestre lhe servia chá na xícara. Quando ela se encheu, o mestre continuou servindo como se nada estivesse acontecendo. Intrigado com a postura serena do mestre, o visitante resolveu intervir:

– Veja, está derramando chá em toda a mesa!

O mestre lhe respondeu:

– Assim como esta xícara, sua cabeça está cheia. Como espera aprender alguma coisa?

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