…cyrano disse,

27.03

Notícia morta.

Filed under: denuncia — cyrano @ 11:40

Recebi via lista metarec, mas o linq original pra notícia é este:

Terça-feira, 27 de Março de 2007, 00h01

Cultura bandida & Lei da Vadiagem

Fátima Oliveira

Tem sido assim desde a promulgação da Lei Áurea, quando foi instituída a Lei da Vadiagem.

É uma lei que “pegou” e se entranhou na cultura da polícia.

“Brasil, és terra prometida/ mas é tão triste a tua sorte -/
enquanto no deserto há vida,/ em teu verde cresce a morte./
Tens povo, mas não tens Moisés;/ tens doce maná e terra
farta,/ a esperança a teus pés,/ mas quem te manda só te
mata/ de fúria e dor a cada dia -/ ao invés das flores, o
fuzil;/ divina ou humana ironia -/ Canaã e pátria amarga és,
Brasil.”

São versos proféticos do poeta, cantor e compositor maranhense Geremias Pereira da Silva, o “Gerô”, 46, torturado e executado por dois integrantes da Polícia Militar do Maranhão, em 22.3.2007 , após ter sido preso por policiais militares do 9º. Batalhão, na cabeceira da ponte São Francisco, em São Luís, entre 12h30 e 13h.

Gerô foi acusado de assalto a uma mulher. Versão desmentida e substituída por “um confundido” com assaltante. Para Alzira Rufino, estão sempre nos “confundindo” - o que pode significar a morte para negros, quase sempre. Foi assim com Gerô.

Às 16h30 chegou morto, numa viatura do 1º. Distrito Policial da capital, ao Hospital Djalma Marques, com sinais de tortura, conforme o médico Aquiles José dos Santos. O diretor do Instituto Médico Legal, o legista Vanderley Silva, recebeu o corpo de Gerô por volta das 21h30 para autópsia. Num exame preliminar, constatou: “duas costelas de cada lado fraturadas e hemorragia de um dos rins”.

Ao ser preso, portava seu primeiro CD, “Gerô, uma Voz Diferente”, que seria lançado em abril, com a seguinte dedicatória no encarte: “A Anísio Galvão, pela credibilidade ao meu trabalho. Obrigado pela paciência. Ao doutor Jackson Lago, à doutora Clay Lago, ao doutor Aderson Lago, pelo apoio e incentivo. Obrigado, Deus, por tudo”. Era um fiel pedetista jackista, daqueles de quatro costados… E isso é um signo.

O jornalista Cunha Santos espalha a sua dor dizendo: “Tá doendo muito, meu poeta. Porque te quero aqui, gritando versos contra o mundo, martirizando o terror oficial, ensinando-me a cor da carne das pessoas”. Para o poeta Carlos Alberto Lima Coelho, “o caso Gerô é um desses que nos deixam pra baixo, sem coragem, sem força, sem argumentos”. Mas Flor de Lys é definitiva ao dizer: “Gerô era Gerô e ponto final”.

Ter uma pessoa assassinada pela polícia é comum na vida de famílias negras brasileiras. Por qualquer motivo, e até sem motivos, prendem-se arbitrariamente, torturam-se e executam-se homens negros, que em geral jamais tiveram passagem pela polícia, em todo o país, notadamente nas capitais.

É o que chamamos de negrocídio. Foi assim com Gerô. Tem sido assim desde 14.5.1888, um dia após a promulgação da Lei Áurea (Abolição da Escravatura), quando foi instituída a Lei da Vadiagem, que autorizava prender negros que transitassem depois das 22h na rua.

É uma lei que “pegou” e se entranhou na cultura da polícia. Continua em vigor e mais rigorosa: negro é sempre suspeito, nas 24 horas do dia, e isso permite à polícia revistá-lo, humilhá-lo, tripudiá-lo, prendê-lo e espancá-lo até à morte. Sob o manto da impunidade.

Urge enterrá-la. A versão de que Gerô foi “confundido” é a oficial dos criminosos. Mas, como no Maranhão profundo ainda respira-se ares de capitania hereditária, exige-se uma investigação que ouse outros veios e vôos, conforme insistentemente aventado num debate na Internet: a linha de que Gerô foi executado por policiais criminosos de aluguel visando “matar dois coelhos de uma só cajadada”: um recado ao governador de que seus inimigos estão dispostos a tudo para desalojá-lo do Palácio dos Leões e a exigência da demissão da secretária Eurídice Vidigal, para deleite da misoginia de gente mimada. E birrenta.

Conforme o jornalista Eduardo Júlio, “Gerô deu voz aos desprovidos”, compondo emboladas e repentes para movimentos sociais de direitos humanos e foi autor de pelo menos dois jingles da campanha do governador Jackson Lago, de quem esperamos não apenas agilidade na apuração do crime, incursionando por todas as rotas possíveis; a condenação dos criminosos; mas que faça reparação, instituindo a Lei Gerô: ressarcimento da expectativa de vida de pessoas assassinados sob a guarda do Estado. Não é muito. É apenas justo. E basta vontade política.

Fátima Oliveira é médica.

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