…cyrano disse,

31.03

Filed under: aforismos, micropolítica — cyrano @ 17:51

Aos que perguntam frequentemente. — Sinto repetidamente a vontade de responder, com o rosto ou com o silêncio, “não tenho opinião formada sobre isto”. É que a opinião, quando toma forma, já não me serve para absolutamente nada.

30.03

Pra fins de registro.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 22:45

O Guattari respondeu a um entrevistador, uma vez (e com algum incômodo), que não tinha nada a ver com essa história de “libertação do desejo pelo desejo”… Parece que o João Bosco concorda.

A Nível De (João Bosco & Aldir Blanc)

Vanderley e Odilon
são muito unidos
e vão pro Maracanã
todo domingo
criticando o casamento
e o papo mostra
que o casamento anda uma bosta…
Yolanda e Adelina
são muito unidas
e fazem companhia
todo domingo
que os maridos vão pro jogo.
Yolanda aposta
que assim a nível de Proposta
o casamento anda uma bosta
e a Adelina não discorda.
Estruturou-se um troca-troca
e os quatro: hum-hum… oqué… tá bom… é…
Só que Odilon, não pegando bem a coisa,
agarrou o Vanderley e a Yolanda ó na Adelina.
Vanderley e Odilon
bem mais unidos
empataram capital
e estão montando
restaurante natural
cuja proposta
é cada um come o eu gosta.
Yolanda e Adelina
bem mais unidas
acham viver um barato
e pra provar
tão fazendo artesanato
e pela amostra
Yolanda aposta na resposta.
E Adelina não discorda
que pinta e borda com o que gosta.
É positiva essa proposta
de quatro: hum-hum… oquéi… tá bom… é…
Só que Odilon
ensopapa o Vanderley com ciúme
e Adelina dá na cara de Yoyô…
Vanderley e Odilon
Yolanda e Adelina
cada um faz o que gosta
e o relacionamento… continua a mesma bosta!

27.03

O Burguês.

Filed under: ativismo, metareciclagem, verbetes — cyrano @ 12:51

Relendo.

O burguês é, pois, segundo sua natureza, uma criatura de impulsos vitais muito débeis e angustiosos, temerosa de qualquer entrega de si mesma, fácil de governar. Por isso colocou em lugar do poder a maioria, em lugar da autoridade a lei, em lugar da responsabilidade as eleições.

– Herman Hesse, O Lobo da Estepe.

Uma lição simples que química.

Filed under: metacafe, metareciclagem, micropolítica — cyrano @ 12:40

Relendo coisas antigas concordei comigo mesmo e hoje posso dizer melhor uma coisa que nunca pensei, mas digo que pensei assim mesmo.

Estou me referindo, estou me referindo… Digamos…, sei lá, a Tabela Periódica. Temos lá, Tungstênio. Ele é um átomo e não é divizível (a menos que você queira gerar uma explosão atômica, e como você é uma pessoa civilizada você não vai querer fazer isso). Pois bem. Temos também o, sei lá, Mamãolênio, outro átomo indivizível. Os dois podem combinar-se, fazer mil e uma coisas. Mas estão ali na tabela, são indivizíveis. E são, com eles, os outros vários elementos elementares e indivizíveis do nosso mundo, que são capazes de gerar tudo que conhecemos. Muita coisa, não? N possibilidades, talvez?

Pois bem. Imaginem elemento elementar algum. Mamãolênio não existe, as “coisas” que o compõem muito bem mudam, viram outras coisas, combinam-se ainda com mais outras coisas, e podem inclusive tornar-se e desmanchar-se em algo que não sabemos que nome dar e que então resolvemos chamar de… coisa. Pra mudarem no instante seguinte. Uma tabela caótica e instável de átomos, formando ligações caóticas que formam tudo que conhecemos e imaginamos. Uma tabela periódica que deixa de existir a todo momento, se parte, se mistura, se desrecompõe o tempo todo. O que seria isso? Certamente não poderia dizer, apenas, n possibilidades…

Pois é isso. Somos essa tabela. E o mundo somos nós. Somos tabela alguma (e podemos nos transformar em qualquer uma, a qualquer momento).

Criatividade não precisa de limites, precisa é de alimento.

Notícia morta.

Filed under: denuncia — cyrano @ 11:40

Recebi via lista metarec, mas o linq original pra notícia é este:

Terça-feira, 27 de Março de 2007, 00h01

Cultura bandida & Lei da Vadiagem

Fátima Oliveira

Tem sido assim desde a promulgação da Lei Áurea, quando foi instituída a Lei da Vadiagem.

É uma lei que “pegou” e se entranhou na cultura da polícia.

“Brasil, és terra prometida/ mas é tão triste a tua sorte -/
enquanto no deserto há vida,/ em teu verde cresce a morte./
Tens povo, mas não tens Moisés;/ tens doce maná e terra
farta,/ a esperança a teus pés,/ mas quem te manda só te
mata/ de fúria e dor a cada dia -/ ao invés das flores, o
fuzil;/ divina ou humana ironia -/ Canaã e pátria amarga és,
Brasil.”

São versos proféticos do poeta, cantor e compositor maranhense Geremias Pereira da Silva, o “Gerô”, 46, torturado e executado por dois integrantes da Polícia Militar do Maranhão, em 22.3.2007 , após ter sido preso por policiais militares do 9º. Batalhão, na cabeceira da ponte São Francisco, em São Luís, entre 12h30 e 13h.

Gerô foi acusado de assalto a uma mulher. Versão desmentida e substituída por “um confundido” com assaltante. Para Alzira Rufino, estão sempre nos “confundindo” - o que pode significar a morte para negros, quase sempre. Foi assim com Gerô.

Às 16h30 chegou morto, numa viatura do 1º. Distrito Policial da capital, ao Hospital Djalma Marques, com sinais de tortura, conforme o médico Aquiles José dos Santos. O diretor do Instituto Médico Legal, o legista Vanderley Silva, recebeu o corpo de Gerô por volta das 21h30 para autópsia. Num exame preliminar, constatou: “duas costelas de cada lado fraturadas e hemorragia de um dos rins”.

Ao ser preso, portava seu primeiro CD, “Gerô, uma Voz Diferente”, que seria lançado em abril, com a seguinte dedicatória no encarte: “A Anísio Galvão, pela credibilidade ao meu trabalho. Obrigado pela paciência. Ao doutor Jackson Lago, à doutora Clay Lago, ao doutor Aderson Lago, pelo apoio e incentivo. Obrigado, Deus, por tudo”. Era um fiel pedetista jackista, daqueles de quatro costados… E isso é um signo.

O jornalista Cunha Santos espalha a sua dor dizendo: “Tá doendo muito, meu poeta. Porque te quero aqui, gritando versos contra o mundo, martirizando o terror oficial, ensinando-me a cor da carne das pessoas”. Para o poeta Carlos Alberto Lima Coelho, “o caso Gerô é um desses que nos deixam pra baixo, sem coragem, sem força, sem argumentos”. Mas Flor de Lys é definitiva ao dizer: “Gerô era Gerô e ponto final”.

Ter uma pessoa assassinada pela polícia é comum na vida de famílias negras brasileiras. Por qualquer motivo, e até sem motivos, prendem-se arbitrariamente, torturam-se e executam-se homens negros, que em geral jamais tiveram passagem pela polícia, em todo o país, notadamente nas capitais.

É o que chamamos de negrocídio. Foi assim com Gerô. Tem sido assim desde 14.5.1888, um dia após a promulgação da Lei Áurea (Abolição da Escravatura), quando foi instituída a Lei da Vadiagem, que autorizava prender negros que transitassem depois das 22h na rua.

É uma lei que “pegou” e se entranhou na cultura da polícia. Continua em vigor e mais rigorosa: negro é sempre suspeito, nas 24 horas do dia, e isso permite à polícia revistá-lo, humilhá-lo, tripudiá-lo, prendê-lo e espancá-lo até à morte. Sob o manto da impunidade.

Urge enterrá-la. A versão de que Gerô foi “confundido” é a oficial dos criminosos. Mas, como no Maranhão profundo ainda respira-se ares de capitania hereditária, exige-se uma investigação que ouse outros veios e vôos, conforme insistentemente aventado num debate na Internet: a linha de que Gerô foi executado por policiais criminosos de aluguel visando “matar dois coelhos de uma só cajadada”: um recado ao governador de que seus inimigos estão dispostos a tudo para desalojá-lo do Palácio dos Leões e a exigência da demissão da secretária Eurídice Vidigal, para deleite da misoginia de gente mimada. E birrenta.

Conforme o jornalista Eduardo Júlio, “Gerô deu voz aos desprovidos”, compondo emboladas e repentes para movimentos sociais de direitos humanos e foi autor de pelo menos dois jingles da campanha do governador Jackson Lago, de quem esperamos não apenas agilidade na apuração do crime, incursionando por todas as rotas possíveis; a condenação dos criminosos; mas que faça reparação, instituindo a Lei Gerô: ressarcimento da expectativa de vida de pessoas assassinados sob a guarda do Estado. Não é muito. É apenas justo. E basta vontade política.

Fátima Oliveira é médica.

25.03

Denúncia: a respeito dos “produtos orgânicos”.

Filed under: denuncia, micropolítica — cyrano @ 21:22

Bom, tava eu conversando com um produtor no encontro da Rede Terra Viva, e ele me contou como foi sua experiência com uma empresa que certifica produtores de orgânicos, chamada Minas Orgânica.

Seguinte: te cobram 300 reais pra fazerem uma visita no seu lugar de produção, fazerem testes no solo, etcetcetc.

Aí, te aprovando como um produtor de orgânicos, passam a te cobrar 750 reais por ano para manter o certificado.

Sinceramente? Vai tomar no *&.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 17:14

Quando nos perdemos. — O problema não é perder-se (por exemplo, a si mesmo), mas perder-se no lugar errado.

Tô vendendo!

Filed under: micropolítica — cyrano @ 17:02

foto ilustrativa.

Câmera Digital Camedia D-540 3.2 megapixels. Toda conservada (porque sou muito cuidadoso), caixa e cabo usb e manual, tudo original. Tem zoom óptico de 3x, fora o digital. As fotos dela são muito boas. Tô vendendo porque ela tem mais recursos que eu preciso.

E eu sei que isso pra maioria das pessoas não faz sentido, então deixa eu dizer claramente: sou baixatecnologia por opção. :)

Ah, o preço! R$330,00. A câmera tá como nova, é uma pechincha!

22.03

Filed under: aforismos, micropolítica — cyrano @ 11:40

Avise antes que doa. — Nada do que digo, penso, faço — é verdade. Se estás a buscá-la, vai-te para outro lugar.

Filed under: aforismos, micropolítica — cyrano @ 11:39

Perguntar não ofende. — Com todo o respeito aos pesquisadores, às vezes penso se já não teríamos, de conhecimento — o suficiente?

Uma cena.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 11:38

Um túnel. Um brilho de luz ofuscante e branca branca no fim. Ouvi dizerem que é boa, e que é sempre bom ir ao seu encontro, e também que ali há um paraíso a minha espera, um lar, talvez um amor, no fundo é tudo a mesma coisa, e a essa altura você certamente já pegou minha idéia. A direção é para lá, me dizem e vou, vá!. E fui. E o túnel, comprido como nos filmes e desenhos que tinham túneis com luzes no fim (e sempre tinham, mesmo quando eram trens-bala), caminhei pelo túnel, dizia, olhando a luz, para ver o que havia atrás dela. Até que me aproximei o suficiente e meus olhos se comprimiram ao seu máximo, e pude então ver melhor e mais longe. E a paisagem que vi, para a qual enfim caminhara e o sabia, era bonita. E diferente do que imaginara. Maior, sobretudo, e mais cheia de coisas. Imaginei que por ali viviam pessoas felizes. Parecidas com aquelas que compram usando cartão. Mas, mesmo assim, não me agradou. E já que estava andando continuei, afinal túneis são para chegar a seu fim. Pois então?, cheguei no fim e olhei em volta, e como já tinha olhado a paisagem o suficiente para enjoar dela — que, mesmo bonita, não me agradava — larguei no muro a mochila, olhei em torno, e comecei a andar.

Para outro lugar.

Filed under: aforismos, micropolítica — cyrano @ 11:32

Um bom conselho. — Há quem esforce belíssimas fases de sua vida em tarefas simplesmente porque prometeram-lhe ser, mais adiante, capaz de pensar não só corretamente como também — livremente. Pois quem tiver ouvidos que ouça: salve-se enquanto há tempo!

Filed under: aforismos, micropolítica — cyrano @ 11:30

Supérflua. — A verdade é uma mentira que já dura tempo demais.

Biografia.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 11:29

Nasceu. Não-sabia não-olhar, não-pensar, não-chorar. A primeira coisa que desaprendeu, num tapa, foi o silêncio. Depois ia desaprendendo aos poucos a ser cego e surdo. Ah, isso é importante: desaprendeu a não-falar. E passou curtos e longos, estreitos e largos espaços de tempo que lhe desaprendiam, por acúmulo, tudo do seu não-saber. Passou a vida forçando esquecimentos, incluindo o de não-viver. E, em algum momento, uma nuvem passava num céu qualquer e águas escorriam num rio que ele nunca verá. E ele, envelhecia. Seu corpo então lembrou-se de tudo num único átomo de tempo que passara, por acaso, correndo por ali. E usando sua recém-reaprendida paciência, repetiu ao velho todas as lições, uma por uma, até a última no último fim da sua morte. E esse tempo não foi nem longo nem curto. Foi, como dizem, uma eternidade.

21.03

é vero.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 15:12

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.

– Paulo Leminski.

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