…cyrano disse,

21.08

Nada a ver.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 11:01

Mas alguém tem cd do windows 98 aí? tentei muito mas não consegui fazer o maldito modem funfar nessa porra desse debian. Então, um grande foda-se. Vai de ruindous mesmo.

E se alguém estiver querendo um computador meio velho, MUITO barato, e com tudo funfano direitim (+ configuração preparada pra melhorar os equipos), me liga.

Notícias, porfa?

Filed under: micropolítica — cyrano @ 10:58

Ouvi dizer, por um amigo, que a Asmare (associação de catadores de papel em belo horizonte) sofreu um incêndio criminoso numa madrugada pouco tempo atrás. A prefeitura interviu não só com bombeiros, mas com tropa de choque, que impediu os associados de entrar no galpão e ainda prendeu alguns.

Alguém tem notícias a respeito? Procurei no CMI, mas a busca não funfa.

Tecnomagia.

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 9:38

MBraz na lista Metareciclagem.

Já que rolou um papo de tecnomagia, academes procêis. Jacques Ellul lhes diz:

… Nossa moderna (mbraz: para ele) adoração da técnica é um derivado dessa ancestral adoração do homem em face do caráter misterioso e maravilhoso da obra de suas mãos. Mas, não se salientou bastante que as técnicas se desenvolviam segundo dois caminhos muito diferentes. Há o caminho, concreto, do homo faber; esse ao qual estamos acostumados, que nos apresenta questões e que temos o hábito de estudar, e em seguida, há a técnica, de ordem mais ou menos espiritual, chamada magia. Isso pode parecer muito duvidoso; todavia, a magia é rigorosamente uma técnica. Essa idéia, alias, é abundantemente demonstrada por Mauss. A magia desenvolve-se simultaneamente com as outras técnicas e se apresenta como uma vontade do homem em obter certos resultados de ordem espiritual suficientemente precisos. Para alcançar este objetivo utiliza-se todo um conjunto de ritos, de fórmulas, de processos, com a característica de que, fixados de uma vez por todas, não mais variam. O formalismo é um dos aspectos da magia: formalismo, ritualismo, máscaras sempre as mesmas, idênticas técnicas de adoração, ingredientes de drogas místicas, receitas de adivinhação … tudo isso se fixa e se transmite, pois o menor erro, uma palavra, um gesto, ameaça comprometer o equilíbrio mágico.

Há uma relação certa entre a fórmula feita e acabada e um resultado preciso…. Ora, cada meio mágico é, aos olhos de quem o emprega, o mais eficaz.

Não vou nem comentar nada a respeito. Mas que dá vontade, dá. :)

*** tava relendo isso, e o comentário é que toda vez que leio, principalmente na parte do formalismo, me lembro das defesas de tese que assisti na faculdade e das apresentações de trabalho nos encontros de ciências sociais (af…) que fui.

a diferença é que, dentre todas as técnicas mágicas, as desenvolvidas pelos intelectuais são, justamente, as menos interssantes. Eita.

15.08

Teoria(?).

Filed under: academialivre — cyrano @ 12:45

Exatamente. Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante… É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas. É curioso que seja um autor que é considerado puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate. A teoria não totaliza; a teoria se multiplica e multiplica. É o poder que por natureza opera totalizações e você diz exatamente que a teoria por natureza é contra o poder. Desde que uma teoria penetra em determinado ponto, ela se choca com a impossibilidade de ter a menor consequência prática sem que produza uma explosão, se necessário em um ponto totalmente diferente. Por este motivo a noção de reforma é tão estúpida e hipócrita. Ou a reforma é elaborada por pessoas que se pretendem representativas e que têm como ocupação falar pelos outros, em nome dos outros, e é uma reorganização do poder, uma distribuição de poder que se acompanha de uma repressão crescente. Ou é uma reforma reivindicada, exigida por aqueles a quem ela diz respeito, e aí deixa de ser uma reforma, é uma ação revolucionária que por seu caráter parcial está decidida a colocar em questão a totalidade do poder e de sua hierarquia. (…) Se as crianças conseguissem que seus protestos, ou simplesmente suas questões, fossem ouvidos em uma escola maternal, isso seria o bastante para explodir o conjunto do sistema de ensino. Na verdade, esse sistema em que vivemos nada pode suportar: daí sua fragilidade radical em cada ponto, ao mesmo tempo que sua força global de repressão. A meu ver, você foi o primeiro a nos ensinar — tanto em seus livros quanto no domínio da prática — algo de fundamental: a indignidade de falar pelos outros. Quero dizer que se ridicularizava a representação, dizia-se que ela tinha acabado, mas não se tirava a consequência desta conversão “teórica”, isto é, que a teoria exigia que as pessoas a quem ela concerne falassem por elas próprias.

– Deleuze conversando com Foucault, em Microfísica do Poder.

12.08

Um curto exercício de agilidade.

Filed under: academialivre — cyrano @ 21:21

Seria um erro acreditar, segundo o esquema tradicional, que a guerra geral, se esgotando em suas próprias contradições, acaba por renunciar à violência e aceita sua própria supressão nas leis da paz civil. A regra é o prazer calculado da obstinação, é o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da dominação; ela põe em cena uma violência meticulosamente repetida. O desejo da paz, a doçura do compromisso, a aceitação tácita da lei, longe de serem a grande conversão moral, ou o útil calculado que deram nascimento à regra, são apenas seu resultado e propriamente falando sua perversão: “Falta, consciência, dever têm sua emergência no direito de obrigação; e em seus começos, como tudo o que é grande sobre a terra, foi banhado de sangue”. A humanidade não progride lentamente, de combate em combate, até uma reciprocidade universal, em que as regras substituiriam para sempre a guerra; ela instala cada uma de suas violências em um sistema de regras, e prossegue assim de dominação em dominação.

É justamente a regra que permite que seja feita violência à violência e que uma outra dominação possa dobrar aqueles que dominam. Em si mesmas as regras são vazias, violentas, não finalizadas; elas são feitas para servir a isto ou àquilo; elas podem ser burladas ao sabor da vontade de uns ou de outros. O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras, de quem tomar o lugar daqueles que as utilizam, de quem se disfarçar para pervertê-las, utilizá-las ao inverso e voltá-las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no aparelho complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão dominados por suas próprias regras. As diferentes emergências que se podem demarcar não são figuras sucessivas de uma mesma significação; são efeitos de substituição, reposição e deslocamento, conquistas disfarçadas, inversões sistemáticas. Se interpretar era colocar lentamente em foco uma significação oculta na origem, apenas a metafísica poderia interpretar o devir da humanidade. Mas se interpretar é se apoderar por violência ou sub-repção, de um sistema de regras que não tem em si significação essencial, e lhe impor uma direção, dobrá-lo a uma nova vontade, fazê-lo entrar em um outro jogo ou submetê-lo a novas regras, então o devir da humanidade é uma série de interpretações.

- Michel Foucault, Microfísica do Poder.

Ética? Sim, há aí uma ética. Nãodita.

Filed under: ativismo, denuncia — cyrano @ 19:01

Lembrando o John Peers… “a informação que precisamos não está disponível”.

Google, Microsoft e Yahoo! bloqueiam imprensa estrangeira na China

da Efe, em Pequim

Os serviços de busca chineses do Google, Microsoft (MSN) e Yahoo! não permitem o acesso no país a sites da imprensa estrangeira, como a rede BBC, a revista “Time” e o jornal “The New York Times”, segundo um relatório da organização não-governamental de direitos humanos Human Rights Watch, recebido hoje pela Efe.

O resto da notícia está aqui.

8.08

Cousas couriosas.

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 13:51

Agora, nos campos de batalha do norte da França, os sons que envolviam Maurice eram a descarga da artilharia e das metradalhoras e os gritos aflitos dos feridos. No calor de uma batalha, viu um soldado alemçao desabar no chão, incapaz de se mover após levar um tiro. Com os soldados alemães amedrontados demais para se aventurar na tempestade de balas para buscar seu companheiro, Maurice ordenou a seus homens que parassem de atirar enquanto erguia uma bandeira branca. Depois, num alemão impecável, gritou para os alemães: “Venham buscar seu homem. Vamos interromper nosso tiroteio até que vocês o levem”. Os alemães trataram de salvar rapidamente o camarada abatido. Antes de voltar para trás das linhas, no entanto, fizeram uma parada bem em frente a Maurice e bateram continência.

Para muitos, parecia que a lenda dos camponeses sobre guerra e vinho estava se tornando realidade. Para anunciar a chegada da guerra, o Senhor manda uma má safra de vinho, diziam os camponeses. Enquanto a guerra perdura, manda safras medíocres. Para marcar seu fim, concede uma safra ótima, festiva.

Em 1939, quando a guerra assomava no horizonte, os vinicultores enfrentaram uma colheita que praticamente todos acabariam por qualificar de a pior do século.

Do livro Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup. O livro é ruim e os escritores, péssimos, mas por ter relatos históricos acaba saindo essas coisas aí…

7.08

Sobre o tempo.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 20:54

Entre as múltiplas virtudes de Chuang-Tsé estava a habilidade para desenhar. O rei pediu-lhe que desenhasse um caranguejo. Chuang-Tsé disse que para fazê-lo precisaria de cinco anos e uma casa com doze empregados. Passados cinco anos, não havi sequer começado o desenho. “Preciso de outros cinco anos”, disse Chuang-Tsé. O rei concordou. Ao completar-se o décimo ano, Chuang-Tsé pegou o pincel e num instante, com um único gesto, desenhou um caranguejo, o mais perfeito caranguejo que jamais se viu.

- Ítalo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio (2. rapidez)

As cidades e o nome 3.

Filed under: cidadesinvisíveis — cyrano @ 14:09

Por longo tempo, Pirra foi para mim uma cidade encastelada nas encostas de um golfo, com amplas janelas e torres, fechada como uma taça, com uma praça em seu centro. Nunca a tinha visto. Era uma das tantas cidades que nunca visitara, que imaginava somente a partir do nome: Eufrásia, Odila, Margara, Getúlia. Pirra era uma delas, diferente de todas as outras, assim como cada uma delas era inconfundível para os olhos da minha mente.

Chegou o dia em que as minhas viagens me conduziram a Pirra. Logo que coloquei os pés na cidade, tudo o que imaginava foi esquecido; Pirra tornara-se aquilo que é Pirra; e imaginei que sempre soubera que a cidade não tinha vista para o mar, escondido atrás de uma duna baixa e ondulada; que as suas ruas correm em linha reta; que as casas são reagrupadas em intervalos, não altas, e são separadas por descampados de depósitos de madeira e serrarias; que o vento move os cataventos das bombas hidráulicas. Daquele momento em diante, o nome Pirra evoca essa vista, essa luz, esse zumbido, esse ar no qual paira uma poeira amarelada: é evidente que significa isto e que não podia significar mais nada.

A minha mente continua a conter um grande número de cidades que não vi e não verei, nomes que trazem consigo uma figura ou fragmento ou ofuscação de figura imaginada: Getúlia, Olida, Eufrásia, Margara. A cidade sobre o golfo também está sempre lá, com a praça fechada em torno do poço, mas não posso mais chamá-la com um nome, nem recordar como pude dar-lhe um nome que significa algo totalmente diferente.

Ítalo Calvino, As cidades invisíveis.

3.08

Teologia para leigos (graças a deus).

Filed under: cidadesinvisíveis — cyrano @ 23:11

O atlas do Grande Khan também contém os mapas de terras prometidas visitadas na imaginação mas ainda não descobertas ou fundadas: a Nova Atlântida, Utopia, a Cidade do Sol, Oceana, Tamoé, Harmonia, New-Lanark, Icária.

Kublai perguntou para Marco:

- Você, que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em direção a qual desses futuros nos levam os ventos propícios?

- Por esses portos eu não saberia traçar a rota nos mapas nem fixar a data da atracação. Às vezes, basta-me uma partícula que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes na neblina, o diálogo de dois passantes que se encontram no vaivém, para pensar que partindo dali construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, de sinais que alguém envia e não sabe quem capta. Se digo que a cidade para a qual tende a minha viagem é descontínua no espaço e no tempo, ora mais rala, ora mais densa, você não deve crer que pode parar de procurá-la. Pode ser que enquanto falamos ela esteja aflorando dispersa dentro dos confins do seu imperio; É possível encontrá-la, mas da maneira que eu disse.

O Grande Khan já estava folheando em seu atlas os mapas das ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Brave New World.

Disse:

- É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vértice cada vez mais estreito.

E Polo:

- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

Ítalo Calvino, As cidades invisíveis. Fim.

As cidades ocultas 5.

Filed under: cidadesinvisíveis — cyrano @ 22:22

Em vez de falar de Berenice, cidade injusta, que coroa com tríglifos ábacos mítopes as engrenagens de suas máquinas de triturar carne (os funcionários responsáveis pela limpeza, quando levantam a cabeça acima dos balaústres e contemplam os átrios, as escadarias, os pronaus, sentem-se ainda mais enclausurados e baixos de estatura), eu deveria falar da Berenice oculta, a cidade dos justos, atarefados com materiais de fortuna à sombra de almoxarifados e vãos de escada, atando uma rede de fios e tubos e roldanas e bielas e contrapesos, que se infiltra como uma trepadeira entre as grandes rodas dentadas (quando estas se entravarem, um surdo tique-taque anunciará que um novo mecanismo preciso governa a cidade); em vez de representar as piscinas perfumadas das termas em cujas bordas se estendem os injustos de Berenice enquanto tecem as suas intrigas com redonda eloquência e observam com olhar dominador as carnes redondas das odaliscas que se banham, deveria falar de como os justos, sempre prudentes em evitar as delações dos sicofantas e as armadilhas dos janízaros, reconhecem-se pelo modo de falar, especialmente pela pronúncia das vírgulas e dos parênteses; dos costumes que parecem austeros e inocentes eludindo os estados de ânimo complicados e sombrios; da cozinha sóbria mas saborosa que reevoca uma antiga idade de ouro: sopa de arroz e aipo, favas cozidas, flores de abobrinha fritas.

A partir destes dados é possível inferir uma imagem da futura Berenice, que estará mais próxima do conhecimento da verdade do que qualquer notícia sobre o atual estado da cidade. Contanto que se tenha em mente o que estou para dizer: na origem da cidade dos justos que está oculta, por sua vez, uma semente maligna; a certeza e o orgulho de serem justos — e de sê-lo mais do que tantos outros que dizem ser mais justos do que os justos –, fermentando rancores, rivalidades, teimosias, e o natural desejo de represália contra os injustos se contamina pelo anseio de estar em seu lugar e fazer o mesmo que eles. Uma outra cidade injusta, portanto, apesar de diferente da anterior, está cavando o seu espaço dentro do dulplo invólucro das Berenices justa e injusta.

Dito isto, se não desejo que o seu olhar colha uma imagem deformada, devo atrair a sua atenção para uma qualidade intrínseca dessa cidade injusta que germina em segredo na secreta cidade justa: trata-se do possível despertar — como um violento abrir de janelas — de um amor latente pela justiça, ainda não submetido a regras, capaz de compor uma cidade ainda mais justa do que era antes de se tornar recipiente de injustiça. Mas, se se perscruta ulteriormente no interior deste novo germe de justiça, descobre-se uma manchinha que se dilata na forma de crescente inclinação a impor o justo por meio do injusto, e talvez seja o germe de uma imensa metrópole…

Pelo meu discurso, pode-se tirar a conclusão de que a verdadeira Berenice é uma sucessão no tempo de cidades diferentes, alternadamente justas e injustas. Mas o que eu queria observar é outra coisa: que todas as futuras Berenices já estão presentes neste instante, contidas uma dentro da outra, apertadas espremidas inseparáveis.

- Ítalo Calvino, As cidades invisíveis.

As cidades e os olhos 3.

Filed under: cidadesinvisíveis — cyrano @ 20:40

Depois de marchar por sete dias através das matas, quem vai a Bauci não percebe que já chegou. As finas andas que se elevam do solo a grande distância uma da outra e que se perdem acima das nuvens sustentam a cidade. Sobe-se por escadas. Os habitantes raramente são vistos em terra: têm todo o necessário lá em cima e preferem não descer. Nenhuma parte da cidade toca o solo exceto as longas pernas de flamingo nas quais ela se apóia, e, nos dias luminosos, uma sombra diáfana e angulosa que se reflete na folhagem.

Há três hipóteses a respeito dos habitantes de Bauci: que odeiam a terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contato; que a amam da forma que era antes de existirem e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de examiná-la, folha por folha, pedra por pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a própria ausência.

Engraçado que essa outra parte só encontrei folheando o livro pra trás…:

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.

- Mas qual é a a pedra que sustenta a ponte? — pergunta Kublai Khan.

- A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra — responde Marco –, mas pela curva do arco que estas formam.

Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:

- Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.

Polo responde:

- Sem pedras o arco não existe.

Eureka! Achei a solução!

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 19:55

Depois de ler eminentes masturbadores públicos, exímios filósofos-de-buteco (todos são), e mais um quanto de comentadores entrando na onda do “vamos discutir políticas públicas para milhões e milhões de pessoas” (e infelizmente me cansando em, no máximo, cinco minutos) eis que cheguei a uma idéia própria minha individual (aproveitem, nem vou patentear!) para resolver de vez essa discussão imbecil (não porque o tema o seja, mas porque assim o tornam) a respeito de cotas em universidades:

bloquear a classe média de entrar nelas.

Rapaz, ISSO SIM seria uma explosão! Tô até vendo aquele bando (nem tão grande, mas enfim) de pessoas que pensam que pensam sendo obrigadas, por falta de opção, a descer do banquinho para colocá-lo, virado, em cima da mesa — e varrer o chão.

Podem aplaudir, sim, eu sei, eu mereço.

PS.: sim, faço universidade. E, obviamente, sou da classe média. O que você esperava de um sujeito que tem um blogue, computador, internet, e fica escrevendo besteiras em plena quinta-feira??

Aliados que queremos…

Filed under: aliados, metareciclagem — cyrano @ 16:35

Saiu da lista metarec, publicado em um jornalzão corporativo a�…

sarau na quebrada
Sérgio Carozzi, professor de artes e cooperiférico

por Joca Reiners Terron

Um episódio vivido pelo escritor Alessandro Buzo, morador do Itaim Paulista, bairro pobre da zona leste, dá idéia do que move os estranhos caminhos da literatura. Em 2001, ele foi convidado a dar entrevista numa rádio comunitária de Suzano. Quem o esperava era Ademiro Alves, o Sacolinha, um cobrador de lotação de 17 anos e seu entrevistador. No caminho até a rádio, Buzo percebeu que andavam em ziguezague, pois o rapaz parava nas casas para recolher e entregar livros. “Uma espécie de bibliotecário delivery”, pensou. Então ouviu de uma moradora: “Fulano não está, mas mandou dizer que adorou o livro”. Sacolinha recolheu o volume e deixou outro no lugar. “Eu levo leitura até os manos”, disse. Sacolinha é um verdadeiro ornitorrinco. Raro.

O lugar ocupado pelo escritor “outsider” na vida contemporânea é mais ou menos parecido com o do ornitorrinco na natureza, um mamífero perdido de seu papel na evolução, que tem nadadeiras, choca seus ovos e amamenta os filhotes pelos poros. Esquisitices que o colocam à margem do mundo. Como os ornitorrincos são solitários.

Ao contrário de outros tempos, a literatura não tem mais a relevância social que já teve, e cada vez mais o ato de produzi-la perde sua condição de ofício. Na periferia, o escritor é o ornitorrinco, um “outsider” que escapa aos padrões de seu habitat. De que serve, ali, algo que não é ofício? Como esses escritores são solitários.

Sacolinha e Buzo são ornitorrincos que exercem sua esquisitice na Cooperifa, grupo de escritores da periferia que edita seus próprios livros e promove leituras, criado em 1999 pelo poeta Sérgio Vaz, 42, ex-auxiliar de escritório, no bairro do Pirapozinho, zona sul de São Paulo. “Começamos no pátio de uma fábrica e lá ficamos por um ano, fazendo encontros mensais”, conta. “Mas daí tivemos de desocupar o lugar e pensei: espaço público na periferia é igreja ou boteco. Preferimos o boteco.”

Sérgio então transferiu o sarau para o bar do Zé Batidão, onde o encontro ganhou periodicidade semanal. “Nosso público médio é de 400 pessoas. E todo mundo vai para ouvir, aplauso no final de cada leitura é regra da casa”, diz o mestre de cerimônias. Nascido em Minas Gerais, Sérgio foi criado no espaço hoje ocupado pelo bar. Tem jeito de sábio de balcão, aqueles sujeitos sempre com um bom papo na manga: “Rapaz, conheço todo mundo no bairro faz várias gerações. Até os cachorros me cumprimentam”.

Até cair de amores pela música, ele ajudava a família no comércio e fazia cursos técnicos. “Com 19 anos montei um grupo. Como não sabia tocar nem cantar, ficava lá batendo coco. Até que alguém falou que eu podia compor as letras. Foi assim que comecei a escrever poesia”, diz. E também começou outro problema. “É que poeta não é muito bem visto na periferia. Meus amigos do dia-a-dia não querem saber se escrevo ou não: pra eles não faz a menor diferença.” Mesmo com quatro livros publicados e o sucesso da Cooperifa, Sérgio? “Bem, hoje em dia o centro atravessa a ponte para ir ao sarau, nós entramos no circuito cultural da cidade. E tem gente lá do bairro que não tinha papel definido na comunidade e agoraé reconhecida pelo que faz.” Sérgio Vaz é outro ornitorrinco, claro, chocando ovos e amamentando pelos poros.

Justiça editorial
Mas quem garante que esses autores são bons escritores, se não há mais mestres dando sopa por aí? No caso de atividades como a música e o bordado, o promotor desse consenso é o mestre, aquele que transmite o conhecimento herdado. E no caso da literatura? É essencial que exista algum consenso em relação à qualidade do que se produz.

Na chegada do primeiro ornitorrinco empalhado à Europa, a comunidade científica classificou o bicho como um embuste. Afinal, quem pode gabaritar um escritor ou um ornitorrinco? Como os escritores são solitários!

Com a deserção da crítica (que prefere colocar sob suspeição tudo o que cheire a contemporâneo), o papel de mestre recaiu sobre o editor. Ou seja, quem decide o que presta ou não é o mercado. E nesse processo de seleção nada natural se agiganta uma enorme periferia de excluídos que resolveu fazer justiça editorial com as próprias mãos. Cessar com o isolamento através da auto-edição de livros com tiragens de mil exemplares, da criação de bibliotecas comunitárias e da publicação de fanzines, esta é a meta dos escritores. Para não acabar como os ornitorrincos, isolados lá na sua austrália de solidão.

Outro que arranjou encrenca graças à literatura é Alessandro Buzo, 33, morador do Itaim Paulista. “É que estou vivendo de palestras e da venda de livros mão-a-mão. No subúrbio, o cara tem de sair de casa cedinho para trabalhar senão a vizinhança desconfia. Eles perguntam: ‘Que foi, tá de férias?’ Até meu filho pequeno me pergunta se não vou trabalhar mais”, diz ele, rindo.

Autor de quatro livros (”Baseado em Fatos Reais”, “O Trem”, “Suburbano Convicto” e “Guerreira”), Buzo ainda atende restaurantes (trabalha em um atacadista de produtos alimentícios), além de ser garoto-propaganda de uma marca de roupas. Parece um rapper, de boné e calças extragrandes. E diz que suas roupas novinhas atraem atenção demais no trem, causando desconfiança: “Acham que sou playboy”.

Filho de uma funcionária pública, ele não terminou o primeiro grau. A mãe não se conformou. “Foi ela quem me incentivou a ler, sempre levando livros pra casa”, fala. O cara paga a editora que publica seus livros com alimentos da empresa onde trabalha -a editora faz uma compra equivalente ao preço da tiragem do livro, cerca de R$ 5.000 por 500 exemplares, e a empresa desconta em parcelas mensais. “Paguei as prestações com arroz e feijão. O pessoal lá da editora diz que essa história vai virar lenda.”

Se vai. Alessandro Buzo faz de seus livros verdadeiros retratos do bairro em que vive, recheando-os com fotos de amigos. “É bacana. As pessoas querem se reconhecer no que eu faço.” Ele também criou a biblioteca Suburbano Convicto, que fica na quadra do Bloco Carnavalesco Unidos de Santa Bárbara, no Itaim Paulista. Livros e Carnaval juntos: quer coisa melhor para acabar com a solidão de um ornitorrinco?

Criar bibliotecas também é a maneira de fazer revolução arranjada por Maria Nilda Mota de Almeida, a Dinha, 27, poeta, formada em Letras pela USP. Em 1999, Dinha e seus amigos conseguiram permissão da prefeitura para ressuscitar o desativado CDHU do Parque Bristol (zona sul) e lá criaram o Maloca Espaço Cultural, com biblioteca e salas onde acontecem cursos de literatura e música, entre outras atividades. “A molecada do bairro adora. Eles vão para lá sozinhos e ficam o dia todo”, diz ela. E complementa: “A biblioteca é mantida pela comunidade do bairro, que se reveza para cuidar de tudo. Tem funcionado”.

Pergunto a Dinha quais são seus poetas de cabeceira. Ela responde que gosta de Drummond e Murilo Mendes, mas que eles não ficam exatamente na sua cabeceira. “É que não tenho livros em casa. Levei tudo para a biblioteca, que é de todos e minha também.”

Figura rara, a Dinha. Assim como Sérgio Vaz, Sacolinha e Alessandro Buzo, eles não estão mais solitários como o ornitorrinco. Não é o tipo de gente convidada para a Flip (Feira Literária Internacional de Parati), o badalado encontro de escritores que acontece a partir do dia 9. Mas criaram outra, à sua imagem e semelhança: a Flap, que em vez da bucólica Parati ocupa o concreto da praça Roosevelt. O verso de Sérgio Vaz resume o enredo: “Enquanto eles capitalizam a realidade / Eu socializo meus sonhos”.

1.08

Porque mudei meu curso.

Filed under: academialivre, cidadesinvisíveis — cyrano @ 12:13

Se você não sabe o que é um max weber (ou qualquer outro imperador, frustrado ou bem-sucedido), não está perdendo nada. Se sabe, mude seu método.

- De agora em diante, começarei a descrever as cidades — dissera Khan. — Nas suas viagens, você verificará se elas existem.

Mas as cidades visitadas por Marco Polo eram sempre diferentes das imaginadas pelo imperador.

- Entretanto, construí na minha mente um modelo de cidade do qual extrair todas as cidades possíveis — disse Kublai. — Ele contém tudo o que vai de acordo com as normas. Uma vez que as cidades que existem se afastam da norma em diferentes graus, basta prever as exceções à regra e calcular as combinações mais prováveis.

- Eu também imaginei um modelo de cidade do qual extraio todas as outras — respondeu Marco. — É uma cidade feita só de exceções, impedimentos, contradições, incongruências, contra-sensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número dos elementos anormais aumenta a probabilidade de que a cidade realmente exista. Portanto, basta subtrair as exceções ao meu modelo e em qualquer direção que eu vá sempre me encontrarei diante de uma cidade que, apesar de sempre por causa das exceções, existe. Mas não posso conduzir a minha operação além de um certo limite: obteria cidades verossímeis demais para serem verdadeiras.

- Calvino, As Cidades Invisíveis.

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