sarau na quebrada
Sérgio Carozzi, professor de artes e cooperiférico
por Joca Reiners Terron
Um episódio vivido pelo escritor Alessandro Buzo, morador do Itaim Paulista, bairro pobre da zona leste, dá idéia do que move os estranhos caminhos da literatura. Em 2001, ele foi convidado a dar entrevista numa rádio comunitária de Suzano. Quem o esperava era Ademiro Alves, o Sacolinha, um cobrador de lotação de 17 anos e seu entrevistador. No caminho até a rádio, Buzo percebeu que andavam em ziguezague, pois o rapaz parava nas casas para recolher e entregar livros. “Uma espécie de bibliotecário delivery”, pensou. Então ouviu de uma moradora: “Fulano não está, mas mandou dizer que adorou o livro”. Sacolinha recolheu o volume e deixou outro no lugar. “Eu levo leitura até os manos”, disse. Sacolinha é um verdadeiro ornitorrinco. Raro.
O lugar ocupado pelo escritor “outsider” na vida contemporânea é mais ou menos parecido com o do ornitorrinco na natureza, um mamÃfero perdido de seu papel na evolução, que tem nadadeiras, choca seus ovos e amamenta os filhotes pelos poros. Esquisitices que o colocam à margem do mundo. Como os ornitorrincos são solitários.
Ao contrário de outros tempos, a literatura não tem mais a relevância social que já teve, e cada vez mais o ato de produzi-la perde sua condição de ofÃcio. Na periferia, o escritor é o ornitorrinco, um “outsider” que escapa aos padrões de seu habitat. De que serve, ali, algo que não é ofÃcio? Como esses escritores são solitários.
Sacolinha e Buzo são ornitorrincos que exercem sua esquisitice na Cooperifa, grupo de escritores da periferia que edita seus próprios livros e promove leituras, criado em 1999 pelo poeta Sérgio Vaz, 42, ex-auxiliar de escritório, no bairro do Pirapozinho, zona sul de São Paulo. “Começamos no pátio de uma fábrica e lá ficamos por um ano, fazendo encontros mensais”, conta. “Mas daà tivemos de desocupar o lugar e pensei: espaço público na periferia é igreja ou boteco. Preferimos o boteco.”
Sérgio então transferiu o sarau para o bar do Zé Batidão, onde o encontro ganhou periodicidade semanal. “Nosso público médio é de 400 pessoas. E todo mundo vai para ouvir, aplauso no final de cada leitura é regra da casa”, diz o mestre de cerimônias. Nascido em Minas Gerais, Sérgio foi criado no espaço hoje ocupado pelo bar. Tem jeito de sábio de balcão, aqueles sujeitos sempre com um bom papo na manga: “Rapaz, conheço todo mundo no bairro faz várias gerações. Até os cachorros me cumprimentam”.
Até cair de amores pela música, ele ajudava a famÃlia no comércio e fazia cursos técnicos. “Com 19 anos montei um grupo. Como não sabia tocar nem cantar, ficava lá batendo coco. Até que alguém falou que eu podia compor as letras. Foi assim que comecei a escrever poesia”, diz. E também começou outro problema. “É que poeta não é muito bem visto na periferia. Meus amigos do dia-a-dia não querem saber se escrevo ou não: pra eles não faz a menor diferença.” Mesmo com quatro livros publicados e o sucesso da Cooperifa, Sérgio? “Bem, hoje em dia o centro atravessa a ponte para ir ao sarau, nós entramos no circuito cultural da cidade. E tem gente lá do bairro que não tinha papel definido na comunidade e agoraé reconhecida pelo que faz.” Sérgio Vaz é outro ornitorrinco, claro, chocando ovos e amamentando pelos poros.
Justiça editorial
Mas quem garante que esses autores são bons escritores, se não há mais mestres dando sopa por a� No caso de atividades como a música e o bordado, o promotor desse consenso é o mestre, aquele que transmite o conhecimento herdado. E no caso da literatura? É essencial que exista algum consenso em relação à qualidade do que se produz.
Na chegada do primeiro ornitorrinco empalhado à Europa, a comunidade cientÃfica classificou o bicho como um embuste. Afinal, quem pode gabaritar um escritor ou um ornitorrinco? Como os escritores são solitários!
Com a deserção da crÃtica (que prefere colocar sob suspeição tudo o que cheire a contemporâneo), o papel de mestre recaiu sobre o editor. Ou seja, quem decide o que presta ou não é o mercado. E nesse processo de seleção nada natural se agiganta uma enorme periferia de excluÃdos que resolveu fazer justiça editorial com as próprias mãos. Cessar com o isolamento através da auto-edição de livros com tiragens de mil exemplares, da criação de bibliotecas comunitárias e da publicação de fanzines, esta é a meta dos escritores. Para não acabar como os ornitorrincos, isolados lá na sua austrália de solidão.
Outro que arranjou encrenca graças à literatura é Alessandro Buzo, 33, morador do Itaim Paulista. “É que estou vivendo de palestras e da venda de livros mão-a-mão. No subúrbio, o cara tem de sair de casa cedinho para trabalhar senão a vizinhança desconfia. Eles perguntam: ‘Que foi, tá de férias?’ Até meu filho pequeno me pergunta se não vou trabalhar mais”, diz ele, rindo.
Autor de quatro livros (”Baseado em Fatos Reais”, “O Trem”, “Suburbano Convicto” e “Guerreira”), Buzo ainda atende restaurantes (trabalha em um atacadista de produtos alimentÃcios), além de ser garoto-propaganda de uma marca de roupas. Parece um rapper, de boné e calças extragrandes. E diz que suas roupas novinhas atraem atenção demais no trem, causando desconfiança: “Acham que sou playboy”.
Filho de uma funcionária pública, ele não terminou o primeiro grau. A mãe não se conformou. “Foi ela quem me incentivou a ler, sempre levando livros pra casa”, fala. O cara paga a editora que publica seus livros com alimentos da empresa onde trabalha -a editora faz uma compra equivalente ao preço da tiragem do livro, cerca de R$ 5.000 por 500 exemplares, e a empresa desconta em parcelas mensais. “Paguei as prestações com arroz e feijão. O pessoal lá da editora diz que essa história vai virar lenda.”
Se vai. Alessandro Buzo faz de seus livros verdadeiros retratos do bairro em que vive, recheando-os com fotos de amigos. “É bacana. As pessoas querem se reconhecer no que eu faço.” Ele também criou a biblioteca Suburbano Convicto, que fica na quadra do Bloco Carnavalesco Unidos de Santa Bárbara, no Itaim Paulista. Livros e Carnaval juntos: quer coisa melhor para acabar com a solidão de um ornitorrinco?
Criar bibliotecas também é a maneira de fazer revolução arranjada por Maria Nilda Mota de Almeida, a Dinha, 27, poeta, formada em Letras pela USP. Em 1999, Dinha e seus amigos conseguiram permissão da prefeitura para ressuscitar o desativado CDHU do Parque Bristol (zona sul) e lá criaram o Maloca Espaço Cultural, com biblioteca e salas onde acontecem cursos de literatura e música, entre outras atividades. “A molecada do bairro adora. Eles vão para lá sozinhos e ficam o dia todo”, diz ela. E complementa: “A biblioteca é mantida pela comunidade do bairro, que se reveza para cuidar de tudo. Tem funcionado”.
Pergunto a Dinha quais são seus poetas de cabeceira. Ela responde que gosta de Drummond e Murilo Mendes, mas que eles não ficam exatamente na sua cabeceira. “É que não tenho livros em casa. Levei tudo para a biblioteca, que é de todos e minha também.”
Figura rara, a Dinha. Assim como Sérgio Vaz, Sacolinha e Alessandro Buzo, eles não estão mais solitários como o ornitorrinco. Não é o tipo de gente convidada para a Flip (Feira Literária Internacional de Parati), o badalado encontro de escritores que acontece a partir do dia 9. Mas criaram outra, à sua imagem e semelhança: a Flap, que em vez da bucólica Parati ocupa o concreto da praça Roosevelt. O verso de Sérgio Vaz resume o enredo: “Enquanto eles capitalizam a realidade / Eu socializo meus sonhos”.