…cyrano disse,

31.07

Ai, meu saco.

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 23:09

Mais executivuzinhos de merda se metendo a “comunistas liberais”. No caso, um publicitário (o maior, ao que parece) brasileiro, dizendo que…

Acreditamos em gente, tanto isso é verdade que a empresa tem 700 funcionários e 20 sócios. E vai ter mais. As pessoas têm de ser sócias. Elas não vieram ao mundo para me servir.

Ah meu filho, vsf! Larga o marquetíngue e vem pro mercado olho-no-olho, dente-por-dente, cultura livre, yscambau. Larga o osso, mané!

p.s.: ser “o maior” “publicitário” de “um país” significa alguma coisa?

Ouça o que eu digo, não ouça ninguém.

Filed under: ativismo, denuncia — cyrano @ 22:33

Com a palavra, CartaCapital de 2 de agosto de 2006.

Melhor do que isso, só se fosse verdade (a história de uma pesquisa que nunca foi feita)

A opinião pública sempre perde quando o jornalismo se confunde com torcida. Basta ver o episódio da divulgação da última sondagem do Ibope sobre a sucessão presidencial. Na manhã de terça-feira 25, enquanto os técnicos do instituto ainda compilavam os últimos dados da pesquisa, uma versão com resultados extremamente favoráveis ao candidato tucano Geraldo Alckmin começou a circular. Os números apareceram primeiro no blog do jornalista Ricardo Noblat, e, de lá, alcançaram sites na internet e viraram notícias em diversas rádios. Analistas políticos foram convocados para destrinchar os porcentuais. Segundo os indicadores então disponíveis, Lula estava com 41%, Alckmin, com 30%, e Heloísa Helena, com 10%. A soma dos demais candidatos superava as intenções de voto no petista e indicavam a possibilidade de segundo turno em outubro.

O resultado, ao que tudo indica vazado por assessores de Alckmin, estava incorreto.À noite, o Jornal Nacional, que tem a primazia de divulgar a pesquisa, já que o trabalho foi encomendado pela Rede Globo, anunciou os verdadeiros dados. Lula tinha 44%, Alckmin, 27%, e Heloísa Helena, 8%. A eleição, se fosse hoje, estaria, segundo o levantamento do instituto, encerrada no primeiro turno. Mesmo após virem a público as informações corretas, comentaristas de outros canais de tevê preferiram ignorar a realidade e tecer análises a partir dos indicadores falsos que haviam circulado durante o dia. Haja esperança.

Neste caso, uma frase atribuída a Geraldo Alckmin traduz o sentimento que tomou conta de certas redações: “Melhor do que isso, só se fosse verdade”.

Fui no blogue do babaca, que escreve pro jornal estado de sumpaulo, só pra conferir se tinha alguma nota, ao menos um pedido de desculpas pelo engano, uma errata no rodapé. Nada, obviamente.

Mais Ítalo Calvino.

Filed under: academialivre, aliados, cidadesinvisíveis — cyrano @ 15:48

Um belíssimo catado de posts do Bicarato, no seu Alfarrábio.

Boa, Bica! :)

30.07

Irreprimível.

Filed under: aliados, ativismo, denuncia — cyrano @ 16:06

Já viu por aí na blogosfera um quadradim verde com coisas, muitas vezes, em línguas incompreensíveis e/ou escritas com letras alienígenas?

Na verdade é só um projeto muito interessante do pessoal da Anistia Internacional, cuja idéia é espalhar pela internet informações censuradas em seus países de origem. São blogues, jornais, qualquer conteúdo que alguém desejaria que fosse proibido…

Ou seja, a idéia é basicamente botar ventilador na farofa alheia. :D

Mais aqui, em espanhol. Se preferir em outra língua é só mudar lá no alto da página deles.

29.07

Bis! Bis! Bis!

Filed under: cidadesinvisíveis — cyrano @ 14:59

As cidades e os símbolos 2.

Da cidade de Zirma, os viajantes retornam com memórias bastante diferentes: um negro cego que grita na multidão, um louco debruçado na cornija de um arranha-céu, uma moça que passeia com um puma na coleira. Na realidade, muitos dos cegos que batem as bengalas nas calçadas de Zirma são negros, em cada arranha-céu há alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas nas cornijas, não há puma que não seja criado pelo capricho de uma moça. A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente.

Também retorno de Zirma: minha memória contém dirigíveis que voam em todas as direções à altura das janelas, ruas de lojas em que se desenham tatuagens na pele dos marinheiros, trens subterrâneos apinhados de mulheres obesas entregues ao mormaço. Meus companheiros de viagem, por sua vez, juram ter visto somente um dirigível flutuar entre os pináculos da cidade, somente um tatuador dispor agulhas e tintas e desenhos perfurados sobre a sua mesa, somente uma mulher-canhão ventilar-se sobre a plataforma de um vagão. A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir.

– Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis.

Ítalo Calvino, recente macaco a saltitar nos meus galhos.

Filed under: cidadesinvisíveis — cyrano @ 13:59

As cidades e o desejo 2.

A três dias de distância, caminhando em direção ao sul, encontra-se Anastácia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por pipas. Eu deveria enumerar as mercadorias que aqui se compram a preços vantajosos: ágata ônix crisópraso e outras variedades de calcedônia; deveria louvar a carne do faisão dourado que aqui se cozinha na lenha seca da cerejeira e se salpica com muito orégano; falar das mulheres que vi tomar banho no tanque de um jardim e que às vezes convidam — diz-se — o viajante a despir-se com elas e persegui-las dentro da água. Mas com essas notícias não falaria da verdadeira essência da cidade: porque, enquanto a descrição de Anastácia desperta uma série de desejos que deverão ser reprimidos, quem se encontra uma manhã no centro de Anastácia será circundado por desejos que despertam simultaneamente. A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer. Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo.

Advirto que isso aqui, como as boas guloseimas, deve ser comido e engolido vagarosamente, um de cada vez e com suficiente espaços de intervalo, pro sabor tomar paisagem.

Dito isso, As cidades e os símbolos 1.

Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável — árvores e pedras são apenas aquilo que são.

Finalmente, a viagem conduz à cidade de Tamara. Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: o torquês indica a casa do tira-dentes; o jarro, a taberna; as alabardas, o corpo de guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos reproduzem imagens de leões delfins torres estrelas: símbolo de que alguma coisa — sabe-se lá o quê — tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo que é proibido em algum lugar — entrar na viela com carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com vara na ponte — e aquilo que é permitido — dar de beber às zebras, jogar bocha, incinerar o cadáver dos parentes. Na porta dos templos, vêem-se as estátuas dos deuses, cada qual representado com seus atributos: a cornucópia, a ampulheta, a medusa, pelos quais os fiéis podem reconhecê-los e dirigir-lhes a oração adequada. Se um edifício não contém uma insígnia ou figura, a sua forma e o lugar que ocupa na organização da cidade bastam para indicar a sua função: o palácio real, a prisão, a casa da moeda, a escola pitagórica, o bordel. Mesmo as mercadorias que os vendedores expõem em suas bancas valem não por si próprias mas como símbolos de outras coisas: a tira bordada para a testa significa elegância; a liteira dourada, poder; os volumes de Averróis, sabedoria; a pulseira para o tornozelo, voluptuosidade. O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas; a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando Tamara, não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes.

Como é realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende-se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão às nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante…

As cidades e o desejo 3.

Há duas maneiras de se alcançar Espina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.

O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, o sobressaltos das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina um navio; sabe que é uma cidade, mas a imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas, ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro, e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam nos cais, as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça umas das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.

Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma da corcunda de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas a imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.

Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro vêem Despina, cidade de confim entre dois desertos.

Depois coloco mais. Ítalo Calvino, em As cidades Invisíveis.

Tchau, Camus.

Filed under: academialivre, humor, micropolítica — cyrano @ 13:56

O assunto deste ensaio é precisamente essa relação entre o absurdo e o suicídio, a medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo. Pode-se tomar por princípio que, para um homem que não trapaceia, o que ele acredita verdadeiro deve lhe pautar a ação. A crença na absurdidade da existência deve, pois, lhe dirigir o comportamento. é uma curiosidade legítima se indagar claramente, e sem falso pateticismo, se uma conclusão de tal ordem exige que se abandone o mais que depressa uma condição incompreensível. Refiro-me aqui, é claro, a homens dispostos a estarem de acordo consigo mesmos.

O Mito de Sísifo, de Albert Camus, no preciso momento (página 26) onde lhe digo: tchau, camus! e desligo o livro.

:)

24.07

Ninguém precisa ser o vilão. (tradução livre)

Filed under: academialivre, ativismo, denuncia — cyrano @ 18:30

Escrito por um tal de Slavoj Zizek, num site de revisão de livros em Londres, aqui.

Desde 2001, Davos e Porto Alegre têm sido as cidades-gêmeas da globalização: Davos, o exclusivo hotel suíço onde a elite global de executivos, chefes-de-estado e celebridades se encontram: no Fórum Econômico Mundial, sob intensa proteção policial, para tentar convencer-nos (e a si mesmos) de que a globalização é a melhor cura para si mesma; Porto Alegre, a cidade subtropical brasileira onde a anti-elite do movimento anti-globalização se encontra para tentar convencer-nos (e a si mesmos) de que a globalização capitalista não é o nosso destino inevitável – que, como diz seu slogan oficial, “um outro mundo é possível”. Parece, contudo, que as reuniões de Porto Alegre perderam, de alguma maneira, sua motivação – temos ouvido cada vez menos a respeito deles no passar dos últimos dois anos. Onde as estrelas brilhantes de Porto Alegre foram parar?

Algumas delas, ao menos, mudaram para Davos. O tom das reuniões é agora predominantemente pautado pelo grupo de empreendedores que ironicamente referem-se a si mesmos como “comunistas liberais”, e que não mais aceitam a oposição entre Davos e Porto Alegre: sua ladainha é a de que nós podemos ter o bolo capitalista global (crescer como empreendedores) e comê-lo (fortalecer as causas anti-capitalistas de responsabilidade social, preocupação ecológica, etc.). Não há necessidade de uma Porto Alegre: ao invés disso, Davos pode se tornar Porto Davos.

Então, quem são esses comunistas liberais? Os suspeitos tradicionais: Bill Gates e George Soros, os executivos do Google, IBM, Intel, eBay, assim como filósofos-de-corte como Thomas Friedman (colunista do New York Times). Os verdadeiros conservadores de hoje, dizem, não são apenas os da velha direita, com sua ridícula crença na autoridade, na ordem e no patriotismo paroquial, mas também a velha esquerda, com sua guerra contra o capitalismo: ambos lutam suas batalhas de teatro de sombras em detrimento das novas realidades. O termo significante dessa nova realidade na nova gíria liberal comunista é “smart”. Ser smart significa ser dinâmico e nômade, ser contra a burocracia centralizadora; acreditar no diálogo e na cooperação ao invés da autoridade central; em flexibilidade ao invés de rotina; em cultura e conhecimento ao invés de produção industrial; em interação espontânea e em autopoiese ao invés da hierarquia fixa.

Bill Gates é o ícone do que Friedman chama de “capitalismo sem fricção”, de sociedade pós-industrial e de o “fim do trabalho”. O software está vencendo o hardware e o jovem nerd vence o velho administrador em seu terno preto. Nas sedes da nova empresa, existe pouca disciplina externa; hackers crescidos dominam a cena, trabalhando por longas horas, curtindo drinques grátis em ambientes esverdejados. A idéia que fica nas entrelinhas é a de Gates como um vândalo marginal e subversivo que tomou o poder e se disfarçou de executivo respeitável.

Comunistas liberais são altos executivos revivendo o espírito da contestação ou, em outras palavras, geeks da contra-cultura que tomaram posse de grandes corporações. Seu dogma é uma nova, posmodernizada versão da mão invisível de Adam Smith: o mercado e a responsabilidade social não são opostos, podem ser reunidos para benefício mútuo. Como Friedman diz, ninguém precisa ser o vilão para fazer negócios hoje em dia: colaboração com empregados, diálogo com consumidores, respeito pelo meio ambiente, transparência nas negociações — essas são as chaves do sucesso. Olivier Malnuit rascunhou recentemente os dez mandamentos do comunista liberal na revista francesa Technikart:

1. Tu deverás distribuir tudo gratuitamente (acesso livre, sem direitos autorais); cobre apenas pelos serviços adicionais, que te farão rico.

2. Tu deverás mudar o mundo, e não apenas vender coisas.

3. Tu serás generoso, consciente da responsabilidade social.

4. Deverás ser criativo: foque no design, novas tecnologias e ciência.

5. Tu contarás tudo: não terás segredos, defenderás e praticarás o culto da transparência e do livre fluxo de informações; toda a humanidade deve colaborar e interagir.

6. Não trabalharás: não terás um emprego fixo das 9 às 5, mas te engajarás em comunicação inteligente, dinâmica e flexível.

7. Retornarás à escola: engaja-te na educação permanente.

8. Tu deverás agir como uma enzima: trabalha não apenas para o mercado, mas engatilha novas formas de colaboração social.

9. Morrerás pobre: retorna tua fortuna para os que dela necessitam, pois tu tens mais do que jamais poderás gastar.

10. Torna-te o Estado: corporações deverão trabalhar em parceria com o Estado.

Comunistas liberais são pragmáticos: eles odeiam uma entonação doutrinária. Não existe hoje uma classe proletária explorada, apenas problemas concretos a serem resolvidos: fome na África, o futuro das mulheres muçulmanas, violência de religiões fundamentalistas. Quando há uma crise humanitária na África (comunistas liberais amam uma crise humanitária; ela traz à tona o que há de melhor neles), ao invés de nos engajarmos em uma retórica anti-imperialista, deveríamos nos unir e buscar a melhor maneira de solucionar o problema, mobilizando pessoas, governos e empresas numa ação conjunta, começar a mover as coisas ao invés de depender da ajuda centralizada no Estado, encarar a crise de uma maneira criativa e não-convencional.

Comunistas liberais gostam de apontar que a decisão de algumas mega-corporações internacionais em ignorar as regras do apartheid em suas empresas foi tão importante quanto a luta política direta contra o apartheid na África do Sul. Abolindo a segregação dentro da empresa, pagando a negros e brancos o mesmo saláio para o mesmo emprego, etc.: isso foi um perfeito caso de meio-termo entre a luta por liberdade política e o interesse econômico, já que as mesmas empresas podem agora crescer na África do Sul pós-apartheid.

Comunistas liberais amam maio de 1968. Que explosão de energia e criatividade juvenis! Como sacudiu a ordem burocrata! Quanta forç deu à vida econômica e social depois que as ilusões políticas caíram fora! Aqueles que tinham idade suficiente suficiente estavam, eles mesmos, protestando e lutando nas ruas: agora eles mudaram para poder mudar o mundo, para revolucionar nossas vidas de verdade. Marx não disse que todas as turbulências políticas são insignificantes se comparadas à invenção da máquina a vapor? E não teria Marx dito hoje: o que são todos os protestos contra o capitalismo global em comparação à internet?

E, acima de tudo, comunistas liberais são verdadeiros cidadãos do mundo — pessoas boas que se preocupam. Eles se preocupam com o populismo fundamentalista e com corporações capitalistas gananciosas e irresponsáveis. Eles vêem as “profundas causas” dos problemas de hoje: miséria em massa e uma desesperançosa proliferação do terror fundamentalista. Sua meta nã é ganhar dinheiro, mas mudar o mundo (e, como um subproduto, fazer ainda mais dinheiro). Bill Gates já é, sozinho, o maior benfeitor da história da humanidade, demonstrando seu amor ao próximo através de doações de milhões de dólares para a educação, a luta contra a fome e a malária, etc. O problema é que, antes que você possa dar tudo isso, você precisa tomá-lo (ou, como diriam os comunistas liberais, criá-lo). Então para poder ajudar as pessoas, segue a justificativa, você precisa possuir os meios para isso, e a experiência — isto é, o reconhecimento do deprimente fracasso de todas as centralizadoras tentativas estadistas e coletivistas — nos ensina que a iniciativa privada é, de longe, o caminho mais eficiente. Regulando seus negócios, taxando-os excessivamente, o Estado está comprometendo o objetivo oficial de sua própria atividade (que é melhorar a vida da maioria, e ajudar aqueles que passam necessidade).

Comunistas liberais não querem ser meras máquinas-de-lucro: eles desejam que suas vidas tenham um significado mais profundo. Eles são contra religiões à moda antiga e a favor da espiritualidade, a favor da meditação não-convencional (todo mundo sabe que o Budismo indica o futuro da ciência da mente, que o poder da meditação pode ser medido cientificamente). Sua força-motriz é a responsabilidade social e gratidão: são os primeiros a admitir que a sociedade tem sido incrivelmente boa para eles, permitindo que desenvolvam seus talentos e acumulem riquezas, para que possam sentir que é sua obrigação dar algo em troca para as pessoas e a sociedade. Essa benfeitoria é que faz o sucesso nos negócios valer a pena.

Isso não é um fenômeno inteiramente novo. Lembram-se de Andrew Carnegie, que contratou um exército privado para suprimir o trabalho organizado em suas usinas e depois distribuiu grandes fatias de sua fortuna para causas educacionais, culturais e humanitárias, provando que embora fosse um mão-de-ferro, tinha um coração de ouro? Do mesmo jeito, os comunistas liberais de hoje dão com uma mão o que tomaram com a outra.

Existe um laxativo sabor chocolate nas prateleiras de lojas norteamericanas que é divulgado com o paradoxal motivo: Você tem prisão de ventre? Coma mais deste chocolate! — ou seja, coma mais de algo que, em si, causa prisão de ventre. A estrutura do chocolate laxante pode ser reconhecida ao longo da paisagem ideológica atual; é o que faz uma figura como Soros tão questionável. Ele representa a exploração financeira sem lei combinada com seu anticorpo, a preocupação humanitária em relação às consequências sociais catastróficas da economia de mercado sem controle. A rotina diária de Soros é uma mentira encarnada: metade do seu tempo de trabalho é devotado à especulação financeira, a outra metade a atividades “humanitárias” (financiando atividades culturais e democráticas em países pós-comunistas, escrevendo colunas e livros) que atuam contra os efeitos de suas próprias especulações. A dupla-face de Bill Gates é exatamente como a de Soros: por um lado, um cruel homem de negócios, destruindo ou comprando seus concorrentes, mirando num monopólio virtual; por outro lado, um grande filantropo que toma o cuidado de dizer publicamente: “De que adianta ter computadores se as pessoas não tem o suficiente para comer?”

De acordo com a ética comunista liberal, a busca desenfreada pelo lucro écontra-atacada pela caridade: caridade é parte do jogo, uma máscara humanitária escondendo a implícita exploração econômica. Países desenvolvidos estão constantemente “ajudando” os subdesenvolvidos (com recursos, crédito, etc.), e assim evitando a questão-chave: sua cumplicidade e responsabilidade pela miserável situação do terceiro mundo. Assim como na oposição entre smart e não-smart, terceirização é o lema. Você exporta o (necessário) lado escuro da produção — trabalho hierárquico e disciplinado, poluição ecológica — para locais não-smart do terceiro mundo (ou locais invisíveis no primeiro mundo). O maior sonho comunista liberal é exportar toda a classe trabalhadora para sweatshops* do terceiro mundo.

Nós não devemos ter ilusões: comunistas liberais são os inimigos de toda luta verdadeira atualmente. Todos os outros inimigos — religiosos fundamentalistas, burocracias de Estado corruptas e ineficientes — dependem de circunstâncias locais contingentes. Precisamente porque querem solucionar todas essas falhas secundárias do sistema global, os comunistas liberais são a materialização direta do que há de errado no sistema. Talvez seja necessário entrar em alianças táticas com comunistas liberais para combater o racismo, o sexismo e o obscurantismo religioso, mas é importante se lembrar do que eles são exatamente capazes.

Etienne Balibar, em La Crainte des masses (1997), distingue os dois opostos, porém complementares, modos de violência excessiva no capitalismo atual: a violência objetiva (estrutural), que é inerente às condições sociais do capitalismo global (a criação automática de indivíduos excluídos e dispensáveis, dos sem-teto aos desempregados), e a violência subjetiva de fundamentalismos étnicos e/ou religiosos (em poucas palavras: racistas) emergentes. Eles podem até combater a violência subjetiva, mas comunistas liberais são os agentes da violência estrutural que cria as condições para a explosão da violência subjetiva. O mesmo Soros que dá milhões para fundos da educação arruinou a vida de milhares graças às suas especulações e ao fazer isso criou as condições para a emergência da intolerância que denuncia.

*sweatshops são fábricas onde as condições de trabalho violam os direitos humanos.

Conversa…

Filed under: aliados, ativismo, metareciclagem, micropolítica — cyrano @ 10:45

Tão raro ter alguém retornando nossas idéias perdidas aqui na rede. Mas a kiki me mandou um salve, falando do metacafé:

Cyrano,

A sua idéia de metacafé me fez lembrar da experiência deste tipo que ajuda a construir melhor a proposta.

Idéia parecida foi colocada em prática num lugar que trabalhei, o Aprendiz, uma ONG de SP onde, apesar de uma série de críticas e pontos que me incomodavam no trabalho, conheci muita gente comprometida de verdade com a necessidade de transformar o mundo e pude experimentar e conhecer um monte de coisas. Mas a análise que eu proponho a vc independe um pouco disso.

Apesar de parecer para quem estava de fora que o Aprendiz conseguia muita grana e tal, havia sim lá dentro uma discussão neste sentido do “que saco, a gente quer ter liberdade para fazer os projetos do jeito que A GENTE acha que tem que ser, e não agradar financiador”. Daí surgiu a idéia de montar um café. Que seria diferenciado, porque seria um “café pedagógico”, em que tudo seria voltado e integrado aos programas educativos do Aprendiz, e esse seria digamos o “diferencial de mercado” para os frequentadores.

Bom, aí montaram o tal do café, não sei se vc é de SP ou se conhece lá, mas o Café Aprendiz fica no meio da Vila Madalena, gente pra caramba circula na região. Primeiro, montar um café com o CNPJ de uma ONG foi um problemão, teve que abrir outro CNPJ, que previsse operação comercial. E aí montar o negócio mesmo era totalmente diferente de tudo o que as pessoas que estavam ali sabiam fazer. Principalmente durante o primeiro ano de funcionamento, o café mal se pagava, e nem de longe servia para bancar as atividades pedagógicas. Com o tempo, foram descobrindo “serviços adicionais” para ajudar o café a se pagar, e aí agregaram aluguel do espaço para eventos, bazares, exposição de produtos artesanais, artísticos, cobrando um percentual sobre as vendas. Aí o espaço passou a se pagar, mas continuou não servindo para seu propósito original, que era financiar as atividades da ONG e diminuir a dependência externa.

Enfim, o que ficou disso pra mim foi essa questão do “business” mesmo. Um bando de gente anti-mercado de repente ter que lidar com isso, sem nenhuma experiência anterior, e com uma certa dificuldade de pensar como um capitalista na operação do café, sabe?

É meio que nem o povo que quer largar tudo na vida e montar uma pousada numa praia distante: vira o maior estress cuidar do negócio.

Não estou de forma alguma querendo dizer que vc não deve levar adiante a idéia do metacafé. Só colocando algumas considerações pra ajudar a pensar.

Abs
Kiki

E eu respondi:

oi kiki, brigado pelo seu retorno! É sempre bom ver gente se interessando.

bom, sou de bh mas já fui em sampa e conheci o aprendiz. tenho algumas ressalvas em relação aos trabalhos, ou melhor, ao estardalhaço que o nome dimenstein dava à coisa toda. Nunca gostei do cara e sempre desconfiei que uma figurona dessas pintano de bacana tinha que, de alguma forma, limitar e atrapalhar os outros que querem colaborar na fazedura dos projetos… só o ego dele já entupia aquele espaço todo, foi essa minha impressão das palestras que vi dele e da visita que fiz. os projetos, em si, achei super legais; mesmo.

Quanto ao café, eu tenho um pouco de experiência em administrês. fiz curso técnico, trabalhei de garçom (fuçando e perguntando coisa pra cozinheiro, gerente, etc.), e tenho uma mínima noção pra tomar coragem e entrar nessa. O metacafé já foi um projeto que pretendia gerar grana pra outros projetos, mas hoje ele só pretende se sustentar. O fornecimento será barato, não é verdade que produtos orgânicos precisem ser mais caros; a agricultura urbana é 100% sem agrotóxicos mas nâo teve marqueteiro bolando marca, nome e uscambau pra por em supermercado, então tem uma galera chupando dedo e com capacidade foda de produção sem ter pra quem vender. orgânico é caro porque a galera elitizou o esquema. além disso, tamos pesquisando muito cozinha vegetariana e tendo contato com pessoas que pesquisam segurança alimentar, geralmente nutricionistas que queriam cunho social em sua área. Sâo pesquisas pra alimentação saudável, barata e consciente em relação às consequências de produção e tals. Ou seja, totalmente em sintonia conosco. E o foco dos caras é trabalhar com gente pobre, que não tem grana nem costume, em geral, de ter alimentação saudável. Muita gente não conhece soja, por exemplo. E por aí vai…

Bom, mas eu tô só informando nosso contexto aqui. Teremos muito pra apanhar, mas nossa (oxalá!) futura localização vai ser no hipercentro da cidade, em um prédio famoso como antigo cenário de boemia e ativismos, o maleta (q aliás, como muitas outras coisas, perdeu bastante a prática e anda enferrujado, mas tamos agitando pra mudar isso). Pretendemos montar um cardápio de custo muito baixo pra nós, saboroso e diferente, já que lá no centro só tem prato-feito onde até a alface é gordurosa. :)

Gostaria que você falasse mais do café no aprendiz, se souber. Eles também pensaram articulação com outros movimentos? Pesquisaram fornecedores, tinham uma estratégia definida em relação a isso? Pagavam aluguel caro, essas coisas? Em que época foi, porque não conseguiram usar o cnpj da ong? Me parece que hoje não tem tanto problema… Pelo que sei o vila madalena é um bairro onde muita gente de classe média frequenta, gente com mais grana, é isso mesmo?

vou enviar essa conversa pra nossa lista do metacafé, tá bem?

Abraço!
Cyrano.

19.07

Esses europeus são loucos!

Filed under: aliados, metareciclagem — cyrano @ 16:31


Eu já postei esses caras antes.

Mas isso aqui já é demais. :)

17.07

O olho-dínamo.

Filed under: academialivre, aliados, denuncia, humor — cyrano @ 22:08

O olho do Marden, no blogue o olho-dínamo:

Os cachorros do Vale

Todos os frequentadores do campus do Vale conhecem os cachorros de lá. Não sei ao certo quantos são, e nem sei se alguém sabe. São numerosos, normalmente dispersos em pequenos bandos, à cata de comida, de lugares apropriados para fornicar (não costumam ser, nesse quesito, muito exigentes) e de rodas de carros em movimento.

E todos conhecem, ou pensam conhecer, os indivíduos que compõem a discência e a docência do Vale, ou ao menos parte deles. Descrevê-los como grupo, em todo caso, não será tão instrutivo para a narrativa a seguir quanto compará-los com os indivíduos que compõem o quadro de serventes do Vale. Não farei, no entanto, nem um, nem outro. Apenas conto:

Certa vez, esperava, sentado no topo de uma escadaria, o início das aulas da tarde. Lá adiante, dois grupos se aproximavam: o das faxineiras e o dos cães. O primeiro se movia constante e placidamente, ainda digerindo o almoço. Logo retomariam o expediente de trabalho; o segundo se movia hesitante e tenso. A maioria dos cachorros rosnava para um vira-latas mirrado, e se podia prever sem dificuldades o que sairia dali. De pronto, a coisa se produzia: os outros cachorros escorraçaram o membro indesejado, a latidos ferozes e curtas carreiras. Aquele vira-latas disparava escadaria acima –vencendo a marcha despreocupada das moças da limpeza. Ainda olhara uma vez, desasado e sentido, para o bando hostil lá embaixo. Como se esquecesse de fugir, um daqueles cachorros resolvera subir em seu encalço, rosnando perigosamente. Nâo precisou persegui-lo; dali a segundos, o vira-latas desaparecia numa esquina. As faxineiras, que viram o mesmo que eu, comentaram entre si: “Aqui no Vale, até os cachorros são esnobes”. Achei graça. A despeito de já estarem distantes para que pudessem ver, sorri, concordando.

16.07

esqueci.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 15:48

E achei, depois de muito tempo, meu Stand Up, do Jethro Tull. Muito bão, saudades. Aí ponho uma música que me deu nostalgia de quando ouvia o cd há sei lá quantos anos atrás.

Look Into The Sun

Took a sad song of one sweet evening
I smiled and quickly turned away.
It’s not easy singing sad songs
but still the easiest way I have to say.
So when you look into the sun
and see the things we haven’t done –
oh was it better then to run
than to spend the summer crying.
Now summer cannot come anyway.

I had waited for time to change her.
The only change that came was over me.
She pretended not to want love –
I hope she was only fooling me.
So when you look into the sun
look for the pleasures nearly won.
Or was it better then to run
than to spend the summer singing.
And summer could have come in a day.

So if you hear my sad song singing
remember who and what you nearly had.
It’s not easy singing sad songs
when you can sing the song to make me glad.
So when you look into the sun
and see the words you could have sung:
It’s not too late, only begun,
we can still make summer.
Yes, summer always comes anyway.

So when you look into the sun
and see the words you could have sung:
It’s not too late, only begun.
Look into the sun.

Tava devendo essa.

Filed under: academialivre, aliados — cyrano @ 15:30

Sabe o livro Mil Platôs? Não?

Pois bem, não é um livro. É um bando de asneiras ditas por dois franceses afetados e loucos, que foram praticamente expulsos de suas universidades — e por isso gosto deles. :)

Deleuze e Guattari, em textos malucos e (às vezes) admiráveis. Pode começar a ir catando suas pérolas.

O linq pro post original é esse, valeu Catatau.

E o linq direto pros cinco volumes: um, dois, três, quatro, cinco.
Sinceramente, não faz a menor diferença ler na ordem, muito embora eu tenha gostado muito do primeiro volume.

15.07

Novo projeto.

Filed under: ativismo, metareciclagem, micropolítica — cyrano @ 19:38

MetaCafé colando em
estilingue.sarava.org

É; chama “estilingue”.

E quem tiver ouvidos, que ouça. ;)

14.07

Duas notícias.

Filed under: denuncia, micropolítica — cyrano @ 0:47

Do Portal Cidadania na internet.

A primeira:

A Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio de Janeiro) se manifesta pela realização de um censo dos jornalistas brasileiros, no intuito de saber como está a realidade dos jornalistas negros no mercado de trabalho. A entidade quer respostas para dúvidas como: onde estão os negros no telejornalismo? Qual a porcentagem de jornalistas negros nas redações ou nas assessorias de comunicação se comparados com os não-negros? Que mecanismos são desenvolvidos para a acessibilidade, mobilidade e permanência de jornalistas afro-descendentes em um mercado tão competitivo como o de produção de informação e de formação de opinião?

Adivinha, se for capaz…

E a segunda, reverberando uma minoria:

A Relatoria Nacional para os Direitos Humanos, Água e Terra Rural, da Plataforma DHESCA Brasil, divulgou hoje o relatório da missão que investigou as denúncias de violações dos direitos humanos do povo guarani-kaiowé que vive no Mato Grosso do Sul. Entre os dias 16 e18 de maio, a missão visitou aldeias e acampamentos nos municípios de Dourados e Antonio João.

A situação dos povos indígenas em Mato Grosso do Sul é gravíssima. Dados do Cimi apontam isso com nitidez:

- dos 43 assassinatos de indígenas registrados em 2005 no Brasil, 29 foram registrados no Mato Grosso do Sul;
- de 31 suicídios de indígenas no Brasil em 2005, 28 ocorreram no Mato Grosso Sul;
- de 43 mortes de crianças indígenas por desnutrição no Brasil (janeiro a julho de 2005), 31 foram no Mato Grosso do Sul.

Dentre as outras situações investigadas pela Relatoria estão a existência de 15 acampamentos em beira de estradas e as denúncias de impunidade de pessoas que cometeram agressões contra os povos.

E em breve notícia boa, o Estilingue será criado no Maleta. Quando eu conseguir entender o projeto, explico aqui! :)

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