(sirene) Radiofonia! Radiofonia! Que porra é essa? Ouça o que eu digo, minha cara, meu caro pequeno ouvinte, não ouça ninguém! Ligue o rádio, mas não ouça ninguém! Tendeu? Não? Ah, então deixa eu começar pelo começo…
(toca R.A.M., Yuka e Rappa)
Entendeu agora? Em? Nunca te disseram que você ouve de mais, e fala de menos? Não, né? A gente repete muito é que “não se sabe ouvir os outros”. Mentira. Nós sabemos ouvir até demais, mas a gente gasta o ouvido só com o patrão, com a tv, com o rádio, com o telejornal… E aà não sobra nada pras pessoas próximas da gente. Pô, aà não ouvimos é nada mesmo, mas porque já estamos surdos de tanto ouvir merda! Repete aà a ladainha, ó: liga o som e desliga os olhos. Porque é isso que a gente se acostuma a fazer: vai trabalhar, desliga os olhos. Vai ver tv? Desliga os olhos. Vai ler um jornal? Desliga os olhos! Sorte minha, essa, de ter a mão perto do controle de volume: censura é ter mão perto do volume, sabia? Você já fez isso, já teve esse poder? Ahn? Já falou sozinho em um microfone, de frente pra uma mesa de som, sabendo que sua voz tá sendo transmitida por quilômetros?? Já berrou pro ar espalhar seu grito e rebater em sabe-lá-deus quantas cabeças? Já usou a tecnologia a seu favor, PRA você, pra fazer o que quer? Pois vem, eu recomendo. É pra isso que a Radiola Livre existe. Olá Várzea, Muda, Ralacoco, Tomate, olá a todas as nossas aliadas na prática da voz livre! Salve salve nossos aliados, que a gente tá na luta e tá no caminho. Num bom caminho.
(rola abacateiro, do Gil)
Audiência! Público! Ibope! Quer saber? Você não passa é de um braço de poltrona. Um braço de uma empresa, pé de uma famÃlia, orelha de polÃcia, nariz de uma escola. Você é submisso. Pedaço submisso de um corpo maior. Você não é Ninguém, não é inviÅ›ivel, você não é um órgão! Você é alguém!, não me pergunte quem você é, não pergunta pra você mesmo, pra que ficar se perguntando o que já sabe?! Pare de se convencer que é burro. Fala sério, você acha que eu estudei pra ficar aqui falando asneira? Você acha que esse monte de rádio comercial de bosta faz rádio bem? É? Se isso fosse verdade eu não estava aqui, pô. E você não estava aà me ouvindo! Te peguei! Ei, Receptor, anteninha ligada no telelornal de verdades, você mesmo, ouvinte. Receptor! Você não acha chato ouvir calado? E pensar que a gente nasce morre e cresce calado, e acha que só Deus nos ouve. Se você orasse aqui na Radiola, e não na sua cama de noite, calado, te garanto que mais gente ia te ouvir, mané! Tagarelando pra deus ouvir… Uma ova, musquita! O único defeito do rádio, da tv, do jornal, é que ninguém interrompe a fala deles. Quem tá me ouvindo agora não pode me interromper. Pode ter 30 mil pessoas gritando juntas — e na verdade é silêncio puro, se comparado ao que diz um único imbecil no jornal nacional. Me interrompe, mané! Vai fazer rádio livre, vai se expressar, vai tomar o poder, vai te catar, vai trabalhar!
(até quando, do gabriel pensador)
Rádio zapote, pulga, ralacôco, na várzea e no morro, radiola e tróia muda… muda! Que quando a gente muda o mundo muda com a gente, a gente muda o mundo na mudança da mente, e quando a gente muda o mundo muda com a gente, e quando a gente manda ninguém manda na gente… Mas então, que queres que eu te faça? Que vá ver um patrono em voga, um protetor, e — como hera servil que em busca de um tutor lambe a casca do tronco em roda ao qual se torça — eu cresça por manha, em vez de me elevar por força? Não!, obrigado. Nosso objetivo é outro. É grama, matinho se espalhando. Quem diz que é rádio livre, é e pronto. Aqui só fala quem ouve. Ninguém manda, ninguém obedece. Ninguém sabe nada, aqui. E todo mundo faz como quer. Somos tão frágeis como um formigueiro (rerere… vai lá, tente destruir um formigueiro). Rizoma é isso. Promessa?, Nada de promessa, já é, rádio livre livre de marré marré. Montamos, transmitimos. E você também pode. Estou aqui pra provar que qualquer um pode estar aqui, no meu lugar. Comigo, conversando, inclusive! Bobeou levou, entra pra roda que o samba não pode parar. Nós somos outros, outros de outros ainda, e todo mundo tenta mas ninguém entende rádio livre, sabe porque? Porque não se entende, aqui se participa, não me segue que não sou novela! Não é pra entender, é pra fazer! Fazer! Mas então estamos aqui e aÃ, eu falando no seu ouvido e você, ah, e você ainda só ouvindo… Não entendeu nada. Nada! E já não disse que é pra fazer, caramba, não se preocupe em entender! Odeia a mÃdia? Pois odeie! Tem que odiar mesmo! Seja a mÃdia, porra!
(Haiti, caetano e gil)
“Ah, calma, vamos, não seja indelicado, não, não se desvie, nós não precisamos optar por outra sociedade…” Eu não estou optando por outra sociedade, imbecil. Eu a estou fazendo! Por conta própria! “Pssh, fale mais baixo, pare de querer ser esquisito, pára de querer ser diferente.” Ah, é? E porque eu não deveria ser diferente? Só posso ser igual? “Seu aparecido! Aparecido! Admita, isso é pura vaidade, carência, um trauma que você carrega desdeainfância, desdeainfância! Confessa, confessa pecador, criança, louco, marginal: confessa!” Rá! Podemos avacalhar por aqui mesmo! Rá! Rádio livre no ataque! Nós não estamos aqui pra fazer bem feito, não estamos aqui pra fazer pior! Nós vamos fazer muito pior, muito pior, ouviram! Não cheguem a conclusões, que a única conclusão é morrer! Se querem concluir, MORRAM! E deixem as rádios livres vivendo em paz. Rádio livre não é crime! E agora uma boa notÃcia: nossas inscrições estão abertas. Na verdade nossas inscrições SÃO abertas, e isso tá na constituição da república federativa do brasil! Livre expressão aqui é lei, aqui só fala quem ouve, e só ouve quem fala, então aprenda a ouvir e de repente já vai ser outro o seu jeito de falar. Ouvindo e falando a gente enobrece a vida a vida a vida. Viva a conversa! Venha participar, a radiola é sua também, você que me ouve é meu cúmplice, você já é também um criminoso, criminoso! Você tá pensando? Pensando livremente? Criminoso! Sua ficha tá suja, então venha cá transmitir seus pensamentos livres, não custa nada! Seu desviante, anormal, minoria, você é um mosquito, um sapo ou uma rã. Você não é apenas um ser humano! Enlouqueça, antes que seja tarde demais. Enlouqueça, pelo amor de Deus! Aleluia, aleluiai, salvem-se do jornal que mente, da revista Veja que mente, da Globo que ensina a mentir, chega de intermediários, venha mentir você também, você é livre pra isso!, mentira por mentira eu prefiro com a minha! Não gostou? Então venha fazer a sua!, a Radiola é pra isso, voz humana no ataque! Participe, antes que a polÃcia chegue em botinas ilegais pra defender o cidadão de bem! Centenas de rádios são fechadas todo ano, rádios comunitárias, rádios livres, e dizem que é pra defender o cidadão de bem. Eu tenho medo do cidadão de bem, e você?
(toca classe média)
Nós não somos público ou usuários finais ou consumidores. Nós somos seres humanos — e nosso alcance vai muito além da sua compreensão. Encare isso!
(palmas) Obrigado! Obrigado! Obrigado!… Porém
Cantar, sonhar, passar, ter liberdade e fibra,
Ter a vista segura, e ter a voz que vibra,
Pôr o meu feltro à banda, e — espanto dos perversos –
Por um sim por um não bater-me, ou fazer versos;
Trabalhar, sem ter fito em lucros e honrarias.
Numa excursão à lua e noutras fantasias!
Nada escrever jamais que eu mesmo não produza,
E, modesto, dizer à minha altiva musa:
“Seja do teu pomar — teu próprio — o que tu colhas
Embora fruto, flor ou simplesmente folhas”.
Depois, se acaso a glória entrar pela janela,
A César não dever a mÃnima parcela,
Guardar para mim mesmo a gratidão mais pura;
Enfim, sem ser a hera — a parasita obscura –
Nem o carvalho e o til — gigantes do caminho –
Subir, não muito, sim, porém subir sozinho.
(Instinto Coletivo, Marcelo Yuka)