…cyrano disse,

29.05

Entrevista+história sobre rádios livres.

Filed under: aliados, radiolivre — cyrano @ 0:13

Entrevista de Félix Guattari pro curso de jornalismo da PUC-SP, em 26 de agosto de 1982.

Publicaram aqui.

Alguns trechos:

No início era apenas uma minoria: o pessoal das rádios livres era um bando de loucos, um pouco como Dom Quixote atacando o grande monopólio. Era espantoso. É como se as pessoas aqui resolvessem agora ir atacar um quartel. Rapidamente, o fenômeno ganhou uma força incrível, produzindo um impacto sobre a grande mídia, como se esse ato de ilegalidade tivesse criado uma rachadura no edifício do monopólio. Parece que, de repente, implantou-se um dúvida sobre a legitimidade desse monopólio. É como se uma vidraça, já trincada, se partisse totalmente sob o impacto de um simples pedregulho.

Esquematicamente, as etapas foram as seguintes: esse pequeno grupo de camaradas, diretamente inspirados pelos italianos (mais que inspirados, pois os materiais italianos eram, basicamente, o que mais se utilizava), viu sua iniciativa estender-se rapidamente por toda a França. Muitas vezes, duas ou três pessoas colocavam os equipamentos em uma cozinha e começavam a emitir. Entre os grupos que se formavam, alguns eram folclóricos e insignificantes. Outros, pelo contrário, eram muito importantes desde o início. Por exemplo, o grupo Fessenheim, na Alsácia, equipou-se com material móvel e começou a emitir em três línguas: o francês, o alemão e a língua local. A repressão nunca conseguiu capturá-los: provavelmente, passavam de uma montanha para outra… Em seguida, apareceram os grupos militantes, não profissionais. Em primeiro lugar vieram os ecologistas e fanáticos do rádio. Depois vieram os militantes de bairros, como os de Saint Denis (subúrbio de Paris), que inventaram um modelo de rádio que imediatamente se tornou muito significativo. Eles estavam ligados a tudo o que se passava no bairo — onde, aliás, havia muitos trabalhadores imigrantes. As pessoas então vinham pessoalmente na rádio contar o que se passava, denunciar nominalmente seu Fulano ou Dona Sicrana. Eles emitiam dia e noite — principalmente à noite, porque nesse momento não há concorrência, e a mídia menor se torna maior. Isso desencadeou uma repressão e, ao mesmo tempo, uma reação contra a repressão, uma intensa mobilização por parte de juristas e intelectuais.

Houve então um fenômeno de “bola de neve”: quanto mais se reprimia as rádios livres, mais elas se desenvolviam. Enquanto os sindicatos operários eram inteiramente fiéis ao princípio do monopólio, os grupos de seções sindicais começaram a se utilizar das rádios livres, o que provocou desequilíbrios e gerou uma série de conflitos dentro dos sindicatos. Os partidos de oposição ficaram solidários às rádios livres, dizendo: “nós somos favoráveis ao monopólio, mas não queremos repressão sobre as rádios livres”. Então nós pedíamos que viessem dizer isso nas nossas rádios livres. Eles vinham, a polícia vinha atrás e os processava. Até Mitterrand teve uns encontrões com a polícia… e todo mundo sabe que Mitterrand é o homem da legalidade! No próprio seio da maioria giscardiana, as contradições se acirravam, porque interesses financeiros consideráveis, assim como interesses políticos locais, também começaram a questionar o monopólio.

Meu deus, como os Estados são criativos…:

(…)Durante anos, fomos objeto de uma campanha de denegrimento nessa questão técnica. É preciso conhecer bem o aspecto técnico da coisa porque, se um dia acontecer um movimento de rádios livres no Brasil, esse problema certamente vai surgir. Os técnicos nos diziam: “o que vocês fazem. É perigoso. Vocês são uns irresponsáveis. Vocês podem entrar na frequência da rota de aviões, de ambulâncias ou da polícia. Vocês podem desencadear uma catástrofe urbana”. Na realidade, nada disso aconteceu. O medo que eles tinham era que se pudesse instaurar um bagunça no plano social, e que esse tipo de rádio tivesse a mesma função que teve na Itália: servir de caixa de ressonância a movimentos políticos muito fortes.

– Félix Guattari em Cartografias do Desejo.

28.05

Guattari, aliado:

Filed under: academialivre, aliados, micropolítica — cyrano @ 20:07

Sim, veja: eu não sou levado à nostalgia das épocas anteriores, ao retorno à natureza, ao convívio que existiu até um determinado período histórico. E digo isso para lembrar que houve na História períodos de enorme difusão da produção mítica, cultural, sem indústria de comunicação de massa, inclusive na América pré-colombiana. Tivemos culturas, textos, etc., que passavam por um sistema de produção e difusão que eram multicentrados. Portanto, afirmar a necessidade de que grupos sociais diversos se reapropriem de um meio de expressão não quer dizer, necessariamente, particularizar a cultura e impedir a formação de uma teia de produções culturais. Quando uma idéia é válida, quando uma obra de arte corresponde a uma mutação verdadeira, não é preciso artigos na imprensa ou na tV para explicá-la. Transmite-se diretamente, tão depressa quanto o vírus da gripe japonesa. Essa idéia de um grand écran mundial como referente geral da mediação de massa para as coisas da cultura me parece profundamente perversa…

– cartografias do desejo.

25.05

Metacafeciclagem.

Filed under: aliados, ativismo, metareciclagem — cyrano @ 14:47

Incluído na apresentação do MetaCafé, ecoando a conversa sobre o novo site do metarec:

UMA IDÉIA… QUASE UM JEITO DE FAZER
Surgida na rede, a idéia da metareciclagem é criar e recriar coisas (sejam “novas” ou “velhas”), remexendo e fuçando em tudo (de computadores a sentimentos, passando pelos preconceitos), compartilhando novas idéias e permitindo, assim, que qualquer pessoa possa criar e colaborar em ações, produções e experiências (para preservá-las e para transformá-las), a uma só ou a várias mãos.

VOCÊ É QUEM CRIA AS POSSIBILIDADES
Imagine um mundo onde as fórmulas são compartilhadas e livres para serem adaptadas. Imagine que tudo seja matéria-prima para a criatividade humana. O que você faria com isso? O que você mudaria com isso? Venha contar pra gente!

COLABORANDO A GENTE PIMBA
Metareciclagem é uma idéia em aberto no coração de pessoas de grupos e ações diversas, juntas num movimento descentralizado, que vai do Brasil a países como Portugal e Índia.

Você pode já ser metarecicleiro e ainda não notou! :)

24.05

putz grila.

Filed under: aliados, denuncia — cyrano @ 14:03

FERRÉZ – Todos os dias de manhã, eu vou a um bar tomar café. O bar fica em frente a uma pequena loja de camisetas que eu tenho lá na rua. Todos os dias eu via esses meninos lá. Um deles vendia flor, o outro, produtos de limpeza. Estão sempre lá tomando café também antes de irem trabalhar. Na segunda-feira, cheguei no bar e estava um movimento estranho. E aí me falaram que os caras tinham atirado nos meninos no domingo a noite. Eles estavam tomando cerveja numa barraca de lanches. Isso foi numa rua próxima, onde todo mundo sempre vai. Um lugar conhecido no bairro. Chegou um carro preto — alguns moradores disseram que viram uma viatura também é, desceram cinco homens de toca ninja e atiraram nas pessoas na barraca. Até o dono foi alvejado. Quatro morreram e três estão no hospital ainda. Um se chamava Maurício e o outro, Brigadeiro. Mas a polícia não divulgou ainda o nome dos mortos. O mais velho tinha 27 anos e nenhum estava envolvido com o crime. Dos três que estão hospitalizados, nenhum tinha passagem pela polícia. No Parque Ipê, que é uma favela, colocaram fogo na moto de um menino que entregava pizza. Ele também morreu. Invadiram as casas das pessoas, uma por uma. Invadiram as casas no meio da madrugada.

– Em entrevista à Carta Maior, o escritor Ferréz denuncia onda de matança na periferia: “Estão escondendo os corpos porque é tudo execução, com tiro na cabeça. Hoje os policiais estão desfilando aqui na rua com toca ninja e camisa Le Coq, que é um grupo de extermínio da polícia”.

22.05

Que confusão….

Filed under: academialivre, aliados, metareciclagem — cyrano @ 15:58

Fiquei meio sem saber se gosto ou não da mulher. Li um cara falando sobre ela e fiquei emocionado. Depois li uma pequena introdução escrita por ela para um projeto, e me frustrei. Bom, deu onda. Então vou linqar:

Convencida de que para trabalhar a lógica da rede virtual de comunicação não é indispensável ter acesso à tecnologia, Maria Terêsa incorporou ao seu currículo holístico os conceitos de hipertexto, e-mail, links, home page e outros. Cada aluno ganhou um endereço eletrônico imaginário, por meio do qual enviam e recebem mensagens entre eles e até mesmo com quem está distante e não conhecem (quando, por exemplo, Maria Terêsa leva suas mensagens aos eventos que frequenta e traz de volta as respostas). Depois de estudarem, durante o ano, a questão da identidade (pessoal/planetária), o mapa do entorno da escola, a guerra entre Estados Unidos e Iraque, e a questão da água no planeta, as alunos foram desafiados a criar um site pessoal abordando esses temas. Usando cartolina, papel e caneta no lugar de chips e bytes, os alunos fizeram suas home pages, com direito a “leques” (”Quem não tem link, tem leque!”) e envelopes para os e-mails. Para ajudar na compreensão dos termos estrangeiros, entrou em cena o professor de Língua Inglesa. E assim, segundo Maria Terêsa, seus alunos de Catiri hoje sabem mais do que muita criança endinheirada que recebeu toda essa tecnologia de bandeja, sem aprender seus significados comunicacionais, sociais e geográficos. Fazendo piada, seus alunos chamam esses incluídos digitais de “pilotos de computador”.

– coisas duma professora de Geografia chamada Maria Terêsa da Silva Abreu. O resto taquí.

detalhe: a Maria Teresa diz que na internet o tempo não existe. A matéria foi ‘descoberta’ por um aliado na lista metareciclagem e é de 3 de dezembro de 2003…

20.05

verbete: Profissão.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 15:02

…são como todos os outros e como todos os outros escolhem ofícios específicos aos quais se entregam com cegueira suficiente pra chegar à morte antes que à loucura.

19.05

Se apropriando do consumismo.

Filed under: ativismo, denuncia — cyrano @ 12:43

Consumo não é consumismo. Principalmente se você devolve a esse ato tudo que pode haver de carga política nele. Adbusters mandano bala, há tempos, pessoal foda:

“Você está correndo porque quer aquele aumento, para ser tudo o que pode ser. Mas não é fácil quando você tem que trabalhar 60 horas semanais fazendo tênis numa indústria na Indonésia e seus amigos somem quando pedem um aumento. Então pense globalmente antes de decidir que é tão bacana de usar.”

Nota mental.

Filed under: aliados, micropolítica — cyrano @ 12:21

Ler esse livro aqui, Onde está o dinheiro?.

Nota do André Miani:

O livro “Onde está o dinheiro?” É muito show e trata de uma maneira bem didatica a problematica do juros no sistema monetario que conforma a chamada “Economia Big Brother - A economia que a cada semana exclui mais um (joaquim - banco palmas)”.

Primeira tentativa.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 0:04

Se sois justos, opinem por favor. Preciso disso bem feito pra conseguir meu pedido de exílio político. :)

Você não se atreverá a falar em seu nome enquanto não tiver lido isto e aquilo, e aquilo sobre isto e isto sobre aquilo. (deleuze)

Me incomodam particularmente duas coisas: que eu não saiba muito bem para quem escrevo, e que meu leitor não venha a saber muito bem quem sou. Bem, imagino que uma justificativa deva ser razoavelmente curta e objetiva, mas como ser curto e objetivo é algo que raramente me agrada prefiro proceder como geralmente o faço: sem saber muito bem de onde venho, e nem muito ao certo para onde vou.

O curso de Ciências Sociais me interessou por imaginar nele possíveis (e frequentemente megalomaníacas) aplicações. Bem cedo, desde antes do início, pesquisava diversos ativismos que mais ou menos me interessavam e, quanto mais prosseguia nos estudos acadêmicos, mais confuso ficava o tabuleiro de xadrez sobre o qual eu sentia que precisava definir que peça ser e qual posição tomar. Enquanto isso fui tendo contato com ongueiros, políticos, líderes de grandes fundações altruístas, militantes sociais profissionais, recicladores dos mais variados objetos, e pessoas de idéias e comportamentos mais ou menos anárquicos…

O fato é que muito cedo comecei a desanimar com a produção acadêmica com o qual fui posto obrigatoriamente em contato. Minhas leituras de Nietzsche, Foucault, o manifesto cluetrain ou as conversas com amigos que fiz pessoalmente ou na internet me influenciam e dialogam muito mais com meus pensamentos que a maioria dos textos que as bibliografias do curso me esfregaram na cara. As grandes teorias, as pequenas, as mídias, me irritam. Contextos e dinâmicas imprevisíveis (um olhar que dá a cada coisa o que é seu) me atraem muito mais que um bando de idéias que nunca consegui imaginar como colocar em prática sem, inevitavelmente, ter de subir em um banquinho. Tenho alguns projetos e trabalhos em mente (e nas mentes de meus amigos): todos diluem teoria e prática dentro de si mesmos, uma teorização indisciplinada, uma prática sentida e pensada. Zonas Autônomas Temporárias, para usar um conceito bastardo. Foi com tais interesses práticos que fui-me a fazer o curso, e justamente nisso ele se mostrou bastante sem sal.

Pra ser mais claro, adiei muitas matérias obrigatórias do meu curso que simplesmente não consigo ver sentido em estudar agora, embora também não tenha chegado a ver muito sentido em estudá-las anteriormente. Conversei com algumas pessoas do curso de História que me confirmaram que ele é mais belo, não sofre (ou ao menos não está tão disposto a se sacrificar) em pensar se é ou não é ciência, te permite mais liberdade e possui uma variedade de pesquisas que me seduziu. Nunca consegui me imaginar produzindo ciência, mas pesquisar o teatro ou iniciativas anarquistas ou comunidades piratas pode vir a ser, para mim e para meus projetos, uma experiência fértil de filhos bastardos. Pois, se ainda não saí da universidade nem desisti de ter um curso superior adjetivando meu nome, é porque ainda gosto de algo do que se diz e lê por aqui, e ainda que isso não seja tanto uma vontade de participar da conversa quanto de cegar-lhes, pilar-lhes os corpos e aproveitar-me, de alguma forma, desse grande campo de mortos e de vivos a cuidar deles.

O melodrama é, sim, para impressionar e tentar convencer de que, apesar de meu histórico acadêmico, não sou simplesmente um burro incompetente, e que apesar de toda essa confusão sei muito bem o que quero. E é por isso mesmo que exijo o respeito de não me obrigarem a definí-lo. “Não somos audiência nem usuários finais nem consumidores. Somos seres humanos — e nosso alcance está além da sua compreensão. Encare isso.” (manifesto cluetrain)

14.05

Porque não leio jornal?

Filed under: ativismo, denuncia — cyrano @ 20:08

Ei!, pessoal da Folha, porquê, vocês, não…:

prezado ombudsman,

na reportagem assinada por Fábio Victor, publica na folha de domingo, 7 de maio, há uma naturalização da utilização das palavras de ordem ‘extremistas’ e ‘ecoterroristas’ que, apresentadas sem o mínimo debate - afinal, a outra parte não foi escutada - despolitiza totalmente, mais uma vez, uma importante discussão.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0705200609.htm

O jornalista dedica-se a um tema que já foi tratado por filósofos como Peter Singer, Tom Reagan, Shiv Visvanathan, mas a questão é colocada através da perspectiva de um garoto de 16 anos. Mas, até aí, não haveria problema algum. Entretanto, a utilização do termo ‘ecoterrorista’ (num primeiro momento entre aspas, depois, não) acaba por filiar a discussão da anti-vivesecção a outros ‘terrorismos’ que contrariam a lógica e os dogmas do monoteísmo cultural ocidental. Ora, sabemos muito bem que a classificação sob o termo ‘terrorista’ é o suficiente para justificar invasões e ocupações militares e genocídio de civis. Atualmente, classificar como ‘terrorista’ destitúi o interlocutor de qualquer argumentação: a resposta ao terrorismo é sumária, afinal, vivemos uma ‘guerra sem limites’.

Aproveito para colocar uma questão: quem é extremista? aquele que protesta pelo direitos dos animais ou por debate quanto aos rumos da tecnociência ou os que utilizam milhões de vidas animais para testes laboratoriais que são discutíveis? (Uma das campeãs dos testes com animais vivos é a indústria de cosméticos que, é preciso destacar?, não salva a vida de ninguém.)

É preciso lembrar um outro agravante quanto ao tom da reportagem: acabamos de sair da semana mundial de combate a vivissecção. Então, a folha, assim… coindidentemente… abre espaço para divulgar um projeto minúsculo e não fala nada sobre a semana mundial de combate a vivisecção. Um estratégia baixa essa a de ocultar um dos lados da questão — pior ainda quando estes são acusados de várias coisas — e abrir espaço para apenas um dos lados da discussão.

Apesar dos cientistas defenderem total autonomia para as pesquisas científicas é preciso observar que já faz mais de século que as ‘conquistas’ dos laboratórios afetam toda a sociedade, portanto, é preciso sim politizar o debate do desenvolvimento tecnocientífico. O jornal Folha de São Paulo perdeu uma excelente oportunidade para fortalecer o debate público e informar seus leitores sobre importantes e decisivos temas da contemporaneidade.

atenciosamente,
chico caminati

Isso aí, Chico. Morde eles!

Hmm…

Filed under: micropolítica — cyrano @ 19:53

Tigresa (Caetano Veloso)

Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem é cruel

Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no frenetic Dancin’ Days
Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor

Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz
Vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão

As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse, não
E eu corri pro violão, num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento

13.05

Um ôlho-dínamo.

Filed under: academialivre, aliados, ativismo — cyrano @ 11:20

Andava xingando a blogosfera a dias atrás, né. Só pra me contrariar ela jogou esse Marden em cima de mim. :)

Blogue interessante, vai uma canja pra vocês irem lá dar uma olhada:

Aguiar se refere à repressão militar ordenada pelo ex-presidente tucano contra os funcionários grevistas da Petrobrás, em maio de 1995. Oh, sim, Fernando Henrique já atirou milicos e tanques contra trabalhadores, violou direitos de sindicatos, etc. e tudo isso pouco depois de ser empossado para seu primeiro mandato. Junto a isso, na mesma época, encarregou-se de quebrar o monopólio da Petrobrás.

O oposto simétrico do recente ato nacionalizador de Morales, ainda que o presidente boliviano, segundo Flávio Aguiar, tenha causado estardalhaço além do necessário –e por isso se encontre em posição de receber censuras pela estratégia “pé na porta”, de acionar o exército primeiro e comunicar os interessados depois.
(…)
- Em que medida algo que aparece como um fenômeno político que –aos olhos da opinião dominante– tende ao reacionarismo não consiste, ao contrário, em reação dirigida a esse empreendimento historicamente imoral, que segue gerando e acentuando periferias pelo globo? Ou: o que é esse nacionalismo que observamos agora (re?)emergir na América Latina?

(E admito formular a questão em termos de “em que medida” por pelo menos esta razão: porque nada na natureza das reações contra o injusto, o cruel e o imoral garante que elas mesmas não se exprimam em formas idênticas às daquilo que se propõem a combater. O que não quer dizer que são essas as formas que necessariamente assumirão)

mais um, ó, mais um:

Esta democracia tão perfeita fabrica seu inconcebível inimigo, o terrorismo. De fato, ela prefere ser julgada a partir de seus inimigos e não a partir de seus resultados. A história do terrorismo foi escrita pelo Estado; logo, ela é educativa. As populações espectadoras não podem saber tudo a respeito do terrorismo, mas podem saber o suficiente para ficar convencidas de que, em relação a esse terrorismo, tudo mais deve lhes parecer aceitável, ou, no mínimo, mais racional e mais democrático.Guy Debord, nos Comentários sobre a sociedade do espetáculo (1988) (in: DEBORD, G. A Sociedade do Espetáculo; tradução de Estela dos Santos Abreu - Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, pág 185).

Me lembrou o jeito do João. Ô disgrama, visita ele lá.

11.05

“Vocês não precisam optar por outra sociedade”…

Filed under: ativismo, denuncia — cyrano @ 14:01

Na íntegra, notícia tirada do Cidadania na Internet:

Aracruz, Cargill e Souza Cruz no banco dos réus em Viena

Fonte: Agência Notícias do Planalto

Trinta empresas multinacionais européias serão julgadas em um tribunal em Viena, na Áustria, organizado por entidades e movimentos sociais. Trata-se do Tribunal dos Povos, a principal atividade do segundo encontro Conectando Alternativas, paralelo à Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América Latina e Caribe e da União Européia.

O objetivo do tribunal é avaliar o comportamento dessas empresas, denunciar as estratégias de controle e de expansão, propondo alternativas de resistência. Diversas dessas multinacionais têm fábricas no Brasil e já sofreram denúncias de movimentos sociais brasileiros. É o caso da Cargill, acusada pelo Greenpeace de desmatar a Amazônia; e da Aracruz Celulose, acusada de expulsar milhares de índios no Espírito Santo e de promover o “deserto verde”, com as extensas plantações de eucaliptos. É o que explica Marcelo Calazans, coordenador da organização não-governamental Fase.

“A cadeia produtiva da celulose passa pelo terceiro mundo, passa pelo Brasil, mas ela nasce na Europa, nos Estados Unidos e no Japão e também termina lá. Porque a Aracruz compra grandes máquinas de celulose, paga consultores para pensar o desenho dos plantios homogêneos e os ciclos cada vez mais curtos da produção do eucalipto”.

Darci Frigo, integrante da ONG Terra de Direitos, analisa o caso da Souza Cruz, maior empresa transnacional do setor de produção e comercialização de fumo no Brasil e que também será julgada em Viena. De acordo com informações da empresa, a atuação da Souza Cruz envolve cerca de 250 mil agricultores em todo o mundo. Somente no Brasil, são mais de 100 mil.

“Na cadeia produtiva do fumo, os agricultores sofrem uma série de violações dos seus direitos, entre eles a saúde, pelo fato de haver uma contaminação com agrotóxicos”.

A programação do Tribunal dos Povos segue até este sábado (13) na Áustria.

Sofia Prestes

puta que pariu.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 10:21

classe média me irrita. e navegar em blogues é passear pelas cabeças da classe média.

nota mental: nunca mais seguir linqs de blogues aconselhados por quem eu não admiro (respeitar não é suficiente).

John Perkins confessando.

Filed under: academialivre, ativismo, denuncia — cyrano @ 8:53

Confissões de um Assassino Econômico (Cultrix, 272 págs., R$ 37,00), livro resenhado no Bombordo pelo Daniel Lopes:

Se você já é leitor assíduo de um Noam Chomsky, pode muito bem passar sem Perkins. Afinal de contas, o que este vai relatar é, em essência, aquela aliança corporação-Estado estadunidense que sai mundo a fora derrubando governos a torto e à direita. Nada que não possamos ler, com muito mais fartura documental e analítica, em um Contendo a Democracia (Record, 518 págs., R$ 49,90). A novidade no livro de Perkins é que, se para alguns, Chomsky não passa de um intelectualóide “antiamericano” sem senso de realidade, o mesmo não se poderá afirmar daquele estadunidense nascido em 1945 de família humilde, formado em administração de empresas pela Universidade de Boston e recrutado, em 1971, para trabalhar na Chas T. Main, uma consultoria internacional discreta na fachada, que encarregava-se de elaborar estudos sobre diversos países, a pedido do Banco Mundial e congêneres, para fins de empréstimos a serem concedidos aos necessitados países. Perkins e outros “analistas” tinham como missão exagerar perspectivas de crescimento de países pobres e em desenvolvimento, para os empréstimos do BM serem generosos. Filantropia do primeiro mundo? Vai nessa. Uma vez endividados e sem condições de honrar as dúvidas, tais países seriam, enfim, meras peças no tabuleiro geopolítico e econômico do império estadunidense.

Em Confissões… temos, portanto, a visão de alguém que outrora participou e viu de perto as engrenagens do poder mundial, e não de um mero crítico externo e extemporâneo. De alguém que já havia tentado escrever essas memórias antes, mas nunca havia prosseguido na ação. De alguém que, depois do 11 de setembro de 2001, quando já estava trabalhando apenas com tribos indígenas na Amazônia, resolveu de uma vez por todas relatar suas experiências como um “assassino ecônomico” (AE). Ele lembra: “No momento [imediato pós 11-S] uma coisa era certa: o meu país estava pensando em vingança, e estava concentrado em países como o Afeganistão. Mas eu estava pensando sobre todos os outros lugares do mundo onde as pessoas odiavam as nossas empresas, os nossos militares, as nossas políticas, e a nossa marcha em direção ao império mundial”. Essa passagem esconde também a fraqueza mais notável de Perkins, a saber, a falta de uma condenação enfática do ato terrorista, que não se justificaria nem mesmo pelo ódio árabe infligido pela América S.A. (Gore Vidal). Nem por isso seu livro deixa de ser indispensável. Vejamos algumas ações dos AEs nos últimos anos, relatadas por Perkins.

Vejamos, então.

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