A Horta da Radiola.
Vamos ver se eu continuo gostando desse texto daqui a dois dias…
Definição de “áreas de conhecimento”:
Em parte, a proposta desse projeto é a de escapar das diversas instâncias que determinam o que é e o que não é conhecimento. Uma visão muito comum hoje do conhecimento é que quanto mais especializada uma pessoa for, mais sábia ela é. Muito embora reportagens e estudos apontem mudanças, o endeusamento da especialização e do técnico continuam sendo o normal da nossa sociedade. Basta vestir uma gravata e dizer que é doutor para jogar qualquer lorota em cima de cidadãos inocentes. O que tem de gente dando golpe assim para roubar resgate de FGTS e 13º em porta de banco não é brincadeira!
Agir de tal forma (nos referimos à valorização do técnico, não aos truques de porta de banco…) implicou, com o tempo, na formação de várias disciplinas que, com mais um pouco de tempo, se fracionaram em especialidades ainda mais precisas. História, geografia, biologia, fÃsica e quÃmica foram separadas. A medicina passou a ter especialistas em pés, estômago, olhos esquerdo ou direito: corpo humano como conjunto de sistemas meio autônomos, meio interdependentes. O mesmo com a sociedade, tornando-se um sistema de profissões interdependentes: há que existir um engenheiro para construir pontes e outro para derrubá-las. Todo um universo formado por fragmentos mais ou menos autônomos e relacionados entre si, mas cada um lutando por sua própria identidade.
E assim, duas valorizações bastante questionáveis vão se mantendo ainda hoje — mais, talvez, pela profundidade de suas raÃzes que pela qualidade de seus frutos. Uma delas é o senso de ameaça e respeito mútuo que as especialidades técnicas têm entre si, e que faz com que profissionais de uma área não tolerem “estrangeiros” (ao mesmo tempo que evitam visitar outras áreas). A outra valorização institui, através de diversas máquinas de guerra, o que é o conhecimento, como construÃ-lo e quem possui autorização para transmitÃ-lo. É claro que tais valorizações expulsam, para fora de suas margens, tudo que não é conhecimento, todos os lugares onde ele não está, e todas as maneiras que não se pode lidar com ele. A estrutura de pensamento dessas valorizações é hierárquica, arbórea. As coisas brotam umas das outras como ramos de uma árvore, e essa árvore possui raÃz. E, nela, a Verdade: o que “a ciência” nasceu para buscar, e que prometia alcançar assim que se especializasse o suficiente. Eis que em um dado momento a Verdade, promessa no horizonte, se dissolveu em uma multiplicidade incompreensÃvel de especializações. Mas a árvore continua com suas raÃzes bem fincadas no chão.
As discussões atuais nos estimulam a desenraizar a validade dessas hierarquias. As “áreas de conhecimento” precisam ter espaço para se dissolver, se misturar e emanar novos ares. Para funcionarem como rizoma, que não possui raÃz nem unidade: se espalha e mistura em redes de interação imprevisÃvel. E é preciso que elas sejam semeadas não só entre si, como uma transdisciplinaridade. É preciso uma indisciplinaridade — isto é, uma suspensão das disciplinas. Isso significa desmontar não só as áreas de conhecimento, mas a idéia implÃcita de que tal definição se refere apenas ao conhecimento cientÃfico. A Horta é pensada como um espaço a ser criado, preenchido, usado e alterado pela prática contÃnua desse desmonte, dessa pausa, dessa metareciclagem.