(…)
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
– Manoel de Barros.
Sua boca se abrira como um tampão escuro de engolir um céu. Os olhos abertos, maravilhados, o corpo alongado e curvo parecia um arco em tensão da mira em riste, prestes a atirar um coração. Sua posição sugeria um sonho (ou seria o contrário?). Ignorava solenemente qualquer gravidade e apenas as pontas dos pés acariciavam, levemente, o chão. Uma força qualquer nascia e jorrava quase visÃvel embaixo na coluna, fazendo-a flutuar no ar bem em cima da sombra do homem.
A cena se alongava irreal. A flutuar, os braços perdidos para trás do corpo, e ainda a tensão de arco a lhe envergar a coluna enquanto, nessa mesma curva, desenhava uma paz inimaginável. Aquele movimento onduloso das meditações se fazia presente nesse corpo; como se acompanhasse uma harmonia muito lenta e universal. A boca permanecia exageradamente aberta, como num susto, mas há tanto tempo que parecia ter sido sempre daquele jeito. Uma porta aguardando por entrarem e sairem coisas.
Foi então que saiu a primeira. Amarela, pequena, delicada. Pousou no lábio inferior, depois de se debater entre os dentes do homem que, aparentemente, adormecera flutuando no ar. Saiu balançando-se aos pulinhos, como as borboletas sempre fazem, variando as direções como se passeasse indecisa e cheia de idéias. Logo depois surgiu outro amarelo indefinido na beirada da boca, saiu das entranhas do homem e roubou novamente a atenção para o arco tenso que era o corpo. Sim, outra borboleta, saindo silenciosamente de sua garganta. Ao contrário de inusitada, a cena era perfeitamente natural. Borboletas nas entranhas eram a única explicação para a leveza absurda daquele corpo, que ignorava com inocência as leis da gravidade. E, mal surgido esse segundo vôo saltitante, já estava à vista um terceiro e então um quarto. Elas não paravam de brotar — e também não iam embora.
Precedido por um silencioso farfalhar, desses que se escuta pelos olhos, um amarelo vivo tomou conta da escura boca do homem. Suas tonalidades produziam ventos e sussurros adivinháveis, um autêntico enxame de borboletinhas amarelas a tamborilar e saltar da boca para o ar em torno, rodeando aos poucos aquela posição para protegê-la da realidade. O ambiente tornava-se, aos poucos, circular. Os vôos alegres e instáveis decidiram fluir num desenho caótico que, de quando em quando, aproximava-se dos limites do que conseguimos entender. Mas era só por brincadeira, e a harmonia nunca se estabilizou nesse redimunho de borboletas que, de repente, engoliram numa explosão amarela o homem flutuante.
Pois digo que uma nuvem se formara em torno dele, e numa variedade tão grande de amarelos que seria impossÃvel, mesmo numa fotografia, contê-los. Cada vez mais densa e forte, cheia de violência e de dança, a nuvem à s vezes ocupava a visão e quase sempre ocultava o corpo. A dança se estendeu e esticou o tempo, enquanto o adormecido começou a girar lentamente sobre os próprios pés, que flutuavam (sim, flutuavam). O corpo agora voava sem tocar o chão, carregado pelo ar invisÃvel que as borboletas animadamente giravam e cada vez mais rápido. Ainda estavam a girar, quando o golpe de uma mão enorme lavou a cena.
Num instante partido ao meio, o admirável caos transformou-se. A nuvem imediatamente se desfez da flutuação impossÃvel, e as borboletas foram arremessadas para longe como se tivessem explodido. E o amarelo intenso rebentou em delÃrios aéreos que, de tão rápidos, quase não deu tempo de serem bonitos. Um amarelo trágico espirrou-se no ar e, no instante seguinte, desapareceu. E então o mundo tornou-se novamente como é, e o homem reapareceu.
Envolto num ar peso, no silêncio triste depois do trovão, seu corpo se transformara em algo vazio, pálido e oco. A pele se tornara profundamente cinza e cheia de rugas, como um encardido e velho tecido de algodão. Desgraçadamente, sem nada para desviar de si a atenção ou os sentidos, tornara-se dolorosamente outro. O homem adormecido, flutuante, dançarino invisÃvel na homenagem que lhe faziam as delicadas borboletas, era agora apenas um trapo abandonado na calçada. Seu aspecto era tão outro que lágrimas me subiram aos olhos, e foi preciso algum tempo para dar-me conta de que — realmente — o corpo apertava, com todo o seu peso, o chão. E que isso acontecera em algum momento oculto daquela cena impossÃvel.
As pernas viradas para um lado; os braços sem rumo, as palmas da mão invertidas; a cabeça virada para o outro. Uma posição cujo desconforto me entrava nos olhos. Parecia uma marionete cujo dono sentira, de súbito, ganas de ir ao banheiro. Estava morto.