…cyrano disse,

29.11

Galpão, galpão.

Filed under: academialivre, aliados, micropolítica — cyrano @ 11:06

O beija-flor e a borboleta.

De manhãzinha, de flor em flor
Procura mel, o beija-flor.
De tardezinha, a borboleta
Procura água, morta de sede.

De noitezinha, quando escurece
A lua-nova logo aparece…

Ai! Lua, Lua,
Cadê o mel? Cadê a água que vem do céu?
O mel bem doce, menino comeu.
A água fria, menino bebeu.

* * * * * * * * * * *

Deus vos salve, Lua nova
Minha lua bonitinha
Faça com que eu consiga tornar-me
Outra vez novinha

Deus vos salve, ó crescente Lua boa
E tão bonita
Ajuda-me a conseguir
Uma vida de prazer

Deus vos salve, Lua cheia (lua cheia!)
Lua brilhante, Lua forte!
Não me deixe minguar tanto
Vem clarear minha sorte

– A Rua da Amargura.

Blogando.

Filed under: academialivre, aliados, metacafe, metareciclagem — cyrano @ 9:52

Deu eco do MetaCafé dentro da caverna do Tupi (no sentido não-bíblico do termo).

Daí que via-ele encontrei um irmão do bar: o Blogbar. Tendi muita coisa não, mas desconfio. Bora apropriar!

Daniel Pádua escreveu: O legal seria criar uma rede entre bares médios, que tem aquela clientela mais ou menos constante, ou seja, que já possuem algum embrião de comunidade. Interligar essas comunidades é que seria um avanço em termos de sociedade…

27.11

Conversa no Conversê.

Filed under: academialivre, ativismo, metacafe, metareciclagem — cyrano @ 22:20

Conversê:

– E a revolução? Já começou?
– Dizem que sim. Mas não passa na tv.

Disposição.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 22:14

É isso: meus pensamentos fazem pequenas confraternizações. Nada de palestras, livros, grandes galas. Nada de grandioso, tiuréias, à pqp com as categorias. Eu sou piquititim por opção. Mas meu pau é grande pacas.

26.11

Pré-histórias.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 10:54

Anoitece — nossas fogueiras, danças, cantigas; histórias e brincadeiras, cheiros de comes e bebes e esses olhares encolhidos que lançamos ao mar, às estrelas, ou aos nossos maiores desejos. Nos distraímos do vazio; do escuro; do silêncio do vazio do frio da noite. É preciso esquecer os invisíveis insetos venenosos, os pequenos monstros, as assombrações e também aqueles percevejos que invadem sorrateiramente nossos ouvidos enquanto dormimos — para devorar-nos os miolos enquanto acordados. Ninguém suportaria, sem isso, sequer uma noite no mundo. Escurece e sentimos uma puta vontade de dançar!

Depois dessa vou comer umas frutas pra boa digestão.

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 10:35

146. Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.

– Nietzsche.

Mais pérolas. Politicamente incorretas.

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 10:07

129. O Diabo tem as mais amplas perspectivas sobre Deus, motivo pelo qual se mantém tão afastado dele. O Diabo: o mais velho amigo do conhecimento.

131. Os sexos se enganam um a respeito do outro: no fundo, cada um deles ama e honra apenas a si mesmo (ou o seu ideal, para dizê-lo de modo mais agradável). Assim o homem quer a mulher tranquila — mas a mulher, como o gato, é essencialmente intranquila, por mais que tenha aprendido a dar-se uma aparência de paz.

– Nietzsche. Além do bem e do mal.

25.11

Eita povo bonito!

Filed under: aliados, metacafe, metareciclagem, micropolítica — cyrano @ 22:08

Dalton, do metareciclagem, escreveu isso daqui:

bom, mas, como poderíamos fazer isso em outros campos? como poderíamos extrapolar o modelo ligado a tecnologia? evidentemente que não tenho essa resposta, mas sinto dentro de mim alguns passos que poderiam ser tentados… vejo que o primeiro ponto é vc. ter profundo tesão por algo que faça sentido para si. seja lá o que for, culinária, tecnologia digital, arquitetura, cinema, medicina, etc. a partir disso, perceber como vc. pode praticar isso junto com as pessoas, o que passa por perceber como simplificar essa prática, como ser mais simples, como não precisar de grandes orçamentos, como colocar poesia em tudo isso, como tornar aquela prática algo que seja belo, profundo e que permita ser o tecido social de interação entre as pessoas. ao praticar isso, outros vêm chegando sem que vc. precise chamar, pois as sincronicidades se potencializam, o campo está aberto convidando um tanto de outras pessoas. daí pra frente, cada história é uma história….

Valeu, cara! MetaCafé ano que vem não falha! :)

Algumas pérolas.

Filed under: academialivre, humor, micropolítica — cyrano @ 14:38

68. “Eu fiz isso”, diz minha memória. “Eu não posso ter feito isso”, diz meu orgulho, e permanece inflexível. Por fim — a memória cede.

69. Fomos maus espectadores da vida, se não vimos também a mão que delicadamente — mata.

77. Com os mesmos princípios queremos tiranizar, justificar, honrar, insultar ou esconder nossos hábitos — dois homens com os mesmos princípios querem provavelmente algo profundamente diverso.

78. Quem se despreza, ainda preza a si mesmo como desprezador.

79. Uma coisa que se esclarece deixa de nos interessar. — Que queria dizer o deus que aconselhou: “Conhece-te a ti mesmo”? Isto significava talvez: “Deixa de interessar-te por ti! torna-te objetivo!” — E Sócrates? — E o “homem científico”? –

92. Quem já não se sacrificou alguma vez — pela própria reputação?

94. Maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar.

98. Se treinamos nossa consciência, ela beija enquanto nos morde.

100. Para nós mesmos nos fazemos mais simples do que somos: assim descansamos do nosso próximo.

– Nietzsche. Além do bem e do mal.

24.11

Vagueando…

Filed under: micropolítica — cyrano @ 11:32

… que, por dias e dias, caceteava enxergar aquele Morro: que sempre dava ar de estar num mesmo lugar, sem se aluir, parecia que a viagem não progredia de render, a presença igual do Morro era o que mais cansava.

– Guimarães Rosa. O recado do morro.

Alergias.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 8:41

Não sinto nada!, dizia-se com olhos arregalados. Entretanto a cabeça coçava-lhe um pouco. Forçou sombrancelha e gesto, e coçou-se lentamente como um distraído que está a perder algo importante. Seus olhos o fitavam ali, em pé, sozinho. Não sabia muito bem onde estava. Sabia, é certo, que sempre passava por ali, mesma rua, mesma cidade, mesma função, algumas dúvidas; ora, nada que fosse caso para coceiras. Entretanto, as malditas foram para a perna esquerda. Olhou para o mesmo lado e não havia ninguém. Não sentia nada e ninguém por perto para sabê-lo! Coçou-se, um pouco distraído. …Perna direita. Agora as costas. E novamente a cabeça, Não sinto nada!, negou quase em voz alta à pele, que entretanto coçava. O calor já se espalhara por seu corpo e vergões vermelhos logo se espalhariam. A situação já beirava o incontrolável e lhe ocupava plenamente. No início do parágrafo, prestes a atravessar a rua, parou com olhos arregalados e pensou, Não sinto nada. Coisa simples, tudo sob controle. Entretanto, as coceiras agora lhe domavam todos os sentidos. Agachou-se quase caindo no chão, com apenas duas desesperadas mãos a caçar coceiras enquanto ouviam, ele e elas, berros distantes: “…Não sinto nada!…”

23.11

Insustentável leveza: vertigens.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 13:44

17.

Aquele que deseja continuamente “elevar-se” deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.

O cortejo de mulheres nuas em torno da piscina, os cadáveres no carro mortuário que se alegravam com o fato de que Tereza, com eles, estivesse morta, é o “embaixo” que a assusta e do qual ela já fugira uma vez, mas que a atraía misteriosamente. É a sua vertigem: ela ouve um chamado muito doce (quase alegre) que a convida a renunciar ao destino e à alma. É o chamado da solidariedade bestial e, nos momentos de fraqueza, tem vontade de se deixar levar por ele e voltar para sua mãe. Tem vontade de reunir na ponte de seu corpo a tripulação de sua alma; de descer e sentar-se entre as amigas de sua mãe; de rir quando uma delas solta um sonoro peido; de desfilar nua com elas em volta da piscina e cantar.

18.

É verdade que antes de deixar a família Tereza estava em luta com a mãe, mas não nos esqueçamos de que o amor que ela lhe dedicava era também um amor infeliz. Teria feito qualquer coisa pela mãe, se esta lhe pedisse num tom afetuoso. Era o fato de nunca ter ouvido esse tom que lhe dera forças para sair de casa.

Quando a mãe de Tereza compreendeu que sua agressividade não tinha mais poder sobre a filha, passou a mandar cartas chorosas para Praga. Queixava-se do marido, do patrão, de sua saúde, de seus filhos, e dizia que Tereza era a única pessoa que lhe restava na vida. Tereza acreditou estar ouvindo, enfim, a voz do amor materno, pela qual ansiava há vinte anos, e teve vontade de voltar. E essa vontade era ainda mais intensa porque se sentia fraca. As infidelidades de Tomas lhe revelavam de repente sua impotência, e desse sentimento de impotência nascia a vertigem, um imenso desejo de cair.

Mamãe lhe telefonou. Estava com câncer, dizia, e tinha apenas alguns meses de vida. Diante dessa notícia, o desespero em que Tereza mergulhara por causa das infidelidades de Tomas transformou-se em revolta. Traíra a mãe, dizia a si mesma em tom de censura, po causa de um homem que não a amava. Estava pronta a esquecer tudo que a mãe lhe fizera. Agora podia compreendê-la. Estavam ambas na mesma situação. Mamãe amava o marido como Tereza amava Tomas, e as infidelidades do padrasto faziam-na sofrer exatamente como as de Tomas atormentavam Tereza. Se a mãe tinha sido cruel com ela era unicamente porque se sentia infeliz demais.

Falou com Tomas sobre a doença da mãe e anunciou que iria tirar uma semana de licença para ir vê-la. Havia um desafio em sua voz.

Adivinhando, sem dúvida, que era a vertigem que atraia Tereza para junto da mãe, Tomas lhe desaconcelhou a viagem. Telefonou para o dispensário da pequena cidade. Na Boêmia, os dossiês dos exames de câncer são muito detalhados, e ele pôde verificar, facilmente, que a mãe de Tereza não tinha nenhum sintoma de câncer e que há mais de um ano não fazia uma consulta.

Tereza obedeceu e não foi ver a mãe. Mas no mesmo dia caiu na rua; seu passo tornou-se hesitante; caía quase todos os dias, esbarrava nas coisas ou,na melhor das hipóteses, deixava cair todos os objetos que tinha nas mãos.

Sentia um desejo irresistível de cair. Vivia numa vertigem contínua.

Quem cai diz: “Levante-me!” Pacientemente, Tomas a levantava.

Metarecicleiros falando.

Filed under: academialivre, metareciclagem — cyrano @ 13:00

FelipeFonseca:

Miguel Caetano, nosso aliado nas terras lusófonas além-mar, está estruturando sua tese de mestrado sobre o que foi ProjetoMetaFora e o que é a MetaReciclagem. Ele me fez algumas perguntas por e-mail. Para manter o hábito e gerar assunto (eu tenho andado sem paciência de blogar), mando aqui as respostas.

22.11

Deleuze!

Filed under: academialivre, aliados, metareciclagem, micropolítica — cyrano @ 22:55

Fui eu todo empolgado ler um entrevista póstuma do Deleuze, O Abecedário de Gilles Deleuze - O Estrangeiro. Ainda não terminei.

A cláusula

Claire Parnet [1994]: Gilles Deleuze sempre se negou a aparecer na TV. Mas atualmente ele acha sua doença tão parecida com a petite mort, da canção de A. Souchon, que mudou de opinião. Mantive, porém, sua declaração ["a cláusula"], feita em 1988, no início da filmagem:

Gilles Deleuze [1988]: Você escolheu um abecedário, me preveniu sobre os temas, não conheço bem as questões, mas pude refletir um pouco sobre os temas… Responder a uma questão, sem ter refletido, é para mim algo inconcebível. O que nos salva é a cláusula. A cláusula é que isso só será utilizado, se for utilizável, só será utilizado após minha morte.

Então, já me sinto reduzido ao estado de puro arquivo de Pierre-André Boutang, de folha de papel, e isso me anima muito, me consola muito, e quase no estado de puro espírito, eu falo, falo …após minha morte… e, como se sabe, um puro espírito, basta ter feito a experiência da mesa girante [do espiritismo], para saber que um puro espírito não dá respostas muito profundas, nem muito inteligentes, é um pouco vago, então está tudo certo, tudo certo para mim, vamos começar: A, B, C, D… o que você quiser.

20.11

Que bons ventos o trazem?

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 14:57

32. Durante a era mais longa da história humana — a chamada era pré-histórica — o valor ou não-valor de uma ação era deduzido de suas consequências: não se considerava a ação em si nem a sua origem, mas, de maneira semelhante ao que ainda hoje ocorre na China, onde uma distinção ou uma desgraça do filho recai sobre os pais, era a força retroativa do sucesso ou do fracasso que levava os homens a pensar bem ou mal de uma ação. Chamemos esse período de período pré-moral da humanidade: o imperativo “conhece-te a ti mesmo!” ainda não era conhecido. Nos últimos dez milênios, contudo, em largas regiões da Terra chegou-se gradualmente ao ponto em que é a origem da ação, e não mais as consequências, que determina seu valor: um grande acontecimento no seu todo, um considerável refinamento do olhar e da medida, a repercussão inconsciente do predomínio de vlores aristrocráticos e da crença na “origem”, a marca de um período que se pode denominar moral no senso estrito: com isso fez-se a primeira tentativa de autoconhecimento. Em vez das consequências, a origem: que inversão de perspectiva! E sem dúvida uma inversão alcançada após longos debates e hesitações! É verdade que com isso uma nova e fatal superstição, uma singular estreiteza de interpretação tornou-se dominante: a origem de uma ação foi interpretada, no sentido mais determinado, como origem a partir de uma intenção; concordou-se em acreditar que o valor de uma ação reside no valor de sua intenção. A intenção como origem e pré-história de uma ação: sob a ótica desse preconceito é que, quase até os dias de hoje, sempre se louvou, condenou, julgou e também se filosofou moralmente. — Mas não teríamos alcançado a necessidade de novamente nos decidirmos quanto a uma inversão e um deslocamento básico dos valores, graças a um novo auto-escrutínio e aprofundamento do homem, — não estaríamos no limiar de um período que, negativamente, de imediato se poderia designar como extramoral: agora, quando pelo menos entre nós, imoralistas, corre a suspeita de que o valor decisivo de uma ação está justamente naquilo que nela é não-intencional, e que toda a sua intencionalidade, tudo o que dela pode ser visto, sabido, “tornado consciente”, pertence ainda à superfície, é sua pele — que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde? Em suma, acreditamos que a intenção éapenas sinal e sintoma que exige primeiro a interpretação, e além disso um sinal que, por significar coisas demais, nada significa por si, — que a moral, na acepção que até agora teve, isto é, moral das intenções, foi um preconceito, um precipitação, algo provisório talvez, uma coisa da mesma ordem que a astrologia e a alquimia, mas, em todo caso, algo a ser superado. A superação da moral, num certo sentido até mesmo a auto-superação da moral, inclusive: este poderia ser o nome para o longo e secreto lavor que ficou reservado para as mais finas e honestas, e também mais maliciosas consciências de hoje, na condição de ardentes pedras de toque da alma. –

34. Não importando o ponto de vista filosófico em que nos situemos hoje: o caráter errôneo do mundo onde acreditamos viver é a coisa mais firme e segura que nosso olho ainda pode apreender: — para isso encontramos muitas e muitas razões, que gostariam de nos induzir a conjecturas sobre um enganador princípio na “essência das coisas”. Mas quem responsabiliza nosso próprio pensar, ou seja, “o espírito”, pela falsidade do mundo — uma honrada escapatória, a que recorre todo advocatus dei [advogado de Deus] consciente ou inconsciente: quem toma esse mundo, junto com espaço, tempo, forma, movimento, como uma falsa conclusão: esse alguém teria, quando menos, um bom motivo para aprender a suspeitar enfim de todo o pensamento: não teria ele nos pregado a maior peça até agora? e que garantia pode haver de que ele não continue fazendo o que sempre fez? Com toda a seriedade: a inocência dos pensadores tem algo tocante e que inspira reverência, que ainda hoje lhes permite se postar ante a consciência e lhe pedir respostas honestas para algumas questões: por exemplo, se ela é “real”, por que mantém o mundo exterior tão decididamente à distância, e outras perguntas assim. A crença em “certezas imediatas” é uma ingenuidade moral, que nos honra, a nós, filósofos: mas — não devemos ser homens “apenas morais”! Prescindindo da moral, essa crença é uma estupidez que nos honra muito pouco! Na vida civil, a suspeita sempre alerta pode ser tida como indício de “mau caráter”, e portanto uma falta de bom senso: aqui entre nós, além do mundo civil e seus Nãos e Sins, — o que nos impediria de não ter bom senso e dizer: o filósofo, como a criatura que sempre foi mais ludibriada na Terra, tem simplesmente direito ao “mau caráter”, — ele tem hoje o dever da desconfiança, do olhar oblíquo e malicioso a partir de abismos de suspeita. — Perdoem-me a brincadeira dessa caricatura e expressão sombria: pois eu mesmo aprendi há muito a pensar de outro modo, a avaliar de outra maneira o enganar e o ser enganado, e guardo ao menos alguns socos para a fúria cega com que os filósofos resistem a ser enganados. Por que não? Não passa de um preconceito moral que a verdade tenha mais valor que a aparência; é inclusive a suposição mais mal demonstrada que já houve. Admita-se ao menos o seguinte: não existiria nenhuma vida, senão com base em avaliações e aparências perspectivas; e se alguém, com o virtuoso entusiasmo e a rudeza de tantos filósofos, quisesse abolir por inteiro o “mundo aparente”, bem, supondo que vocês pudessem fazê-lo — também da sua “verdade” não restaria nada! Sim, pois o que nos obriga a supor que há uma oposição essencial entre “verdadeiro” e “falso”? Não basta a suposição de graus de aparência, e como que sombras e tonalidades do aparente, mais claras e mais escuras, — diferentes valeurs [valores], para usar a linguagem dos pintores? Por que não poderia ser o mundo que nos concerne — ser uma ficção? E a quem faz a pergunta: “mas a ficção requer um autor?” — não se poderia replicar: Por quê? Esse “requer” não pertenceria também à ficção? Não é permitido usar de alguma ironia em relação ao sujeito, como em relação ao predicado e objeto? O filósofo não poderia se erguer acima da credulidade da gramática? Todo o respeito às governantas: mas não seria tempo de a filosofia abjurar da fé das governantas? –

– Nietzsche. Além do bem e do mal.

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