Pesquei no metarec.
Se estamos fartos de vendermos a nossa obediência, devemos começar a fazer mais mutirões.
Djair Guilherme. Metarecicleiro.
Se estamos fartos de vendermos a nossa obediência, devemos começar a fazer mais mutirões.
Djair Guilherme. Metarecicleiro.
Deleuze me disse outro dia que há momentos em que é bom imaginar assim: uma superfÃcie lisa, muito lisa, joga-se água por cima dela e vejamos o que acontece. Nada de caminhos, rotas lineares ou poços com profundidade. Apenas algumas aglomerações esparsas e espalhadas das mais diversas formas, ligadas à s vezes sim, à s vezes não; espaços que demoram para deixar de ser móveis e que, sob qualquer pretexto, voltam a sê-lo.
Me recordei de você e de suas “águas profundas”, esse imaginário tão importante que foi marcado em sua pele. Imagino, pois sim, uma funda superfÃcie que de tempos em tempos você agita com as pontas dos dedos — um simples pretexto para sentir-se em movimento. Mas você são poças profundas e, enquanto a superfÃcie se agita em espumas e anéis, permanece logo abaixo um fundo inerte, escuro, sensato, gelado como um fundo de oceano.
Não sei ser isso bom ou ruim. Afinal, é uma espécie de sonho. É seu, imaginário. Somos sonho e sonhos, sonhos são. Mas acho que, talvez, possa ser proveitoso para você parar e sentir algo a respeito, permitir-se ficar aqui por mais alguns instantes. E quem sabe, talvez — agitar-se uma vez por inteiro?
Sim! Eu sei muito bem de onde venho!
Insaciável como a chama no lenho
Eu me inflamo e me consumo.
Tudo que eu toco vira luz,
Tudo que eu deixo, carvão e fumo.
Chama eu sou, certamente.
De verdade, Zaratustra é um vento forte para todas as planÃcies; e um conselho desses ele dá a seus inimigos e a tudo que cospe e escarra: guardai-vos de escarrar contra o vento!…
– Nietzsche.
Por que Dioniso tem necessidade de Ariadne, ou de ser amado? Ele canta uma canção de solidão, reclama uma noiva. É que Dioniso é o deus da afirmação; ora, é necessária uma segunda afirmação para que a própria afirmação seja afirmada. É preciso que ela se desdobre para poder redobrar. Nietzsche distingue claramente as duas afirmações quando diz: “Eterna afirmação do ser, eternamente sou tua afirmação”. Dioniso é a afirmação do Ser, mas Ariadne é a afirmação da afirmação, a segunda afirmação ou o devir-ativo. Desse ponto de vista, todos os sÃmbolos de Ariadne mudam de sentido quando são referidos a Dioniso, em vez de serem deformados por Teseu. Não só a canção de Ariadne deixa de ser a expressão do ressentimento para tornar-se uma pesquisa ativa, uma questão que já afirma (”Quem és… É a mim que tu queres, a mim? A mim — a mim totalmente?”); mas o labirinto já não é o labirinto do conhecimento e da moral, o labirinto já não é o caminho tomado por quem, segurando o fio, vai matar o touro. O labirinto tornou-se o próprio touro branco, Dioniso-touro: “Sou o teu labirinto”. Mais precisamente, o labirinto agora é a orelha de Dioniso — a orelha labirÃntica. Ariadne precisa ter orelhas como as de Dioniso a fim de ouvir a afirmação dionisÃaca, mas tambêm precisa responder à afirmação ao ouvido do próprio Dioniso. Dioniso diz a Ariadne: “Tens pequenas orelhas, tens minhas orelhas, põe aà uma palavra sensata”, sim. Ocorre ainda a Dioniso dizer a Ariadne, por brincadeira: “Por que tuas orelhas não são ainda mais longas?”. Dioniso lhe recorda assim seus erros, quando ela amava Teseu: acreditava que afirmar era carregar um peso, fazer como o asno. Na verdade, porém, com Dioniso Ariadne adquiriu pequenas orelhas: a orelha redonda, propÃcia ao eterno retorno.
– Deleuze, falando do Nietzsche…
É aÃ, talvez, que pela primeira vez se impõe, sob a forma de uma constrição geral, essa injunção tão peculiar ao Ocidente moderno. Não falo da obrigação de confessar as infrações à s leis do sexo, como exigia a penitência tradicional; porém da tarefa, quase infinita, de dizer, de se dizer a si mesmo e de dizer a outrem, o mais frequentemente possÃvel, tudo o que possa se relacionar com o jogo dos prazeres, sensações e pensamentos inumeráveis que, através da alma e do corpo tenham alguma afinidade com o sexo. Este projeto de uma “colocação do sexo em discurso” formara-se há muito tempo, numa tradição ascética e monástica. O século XVII fez dele uma regra para todos. Dir-se-á que, de fato, só poderia se aplicar a uma elite mÃnima; a massa dos fiéis que só frequentavam a confissão raras vezes por ano escapava a prescrições tão complexas. Sem dúvida, o importante é que esta obrigação era fixada, pelo menos como ponto ideal para todo bom cristão. Coloca-se um imperativo: não somente confessar os atos contrários à lei, mas procurar fazer de seu desejo, de todo o seu desejo, um discurso. Se for possÃvel, nada deve escapar a tal formulação, mesmo que as palavras empregadas devam ser cuidadosamente neutralizadas. A pastoral cristã inscreveu, como dever fundamental, a tarefa de fazer passar tudo o que se relaciona com o sexo pelo crivo interminável da palavra. A interdição de certas palavras, a decência das expressões, todas as censuras do vocabulário poderiam muito bem ser apenas dispositivos secundários com relação a essa grande sujeição: maneiras de torná-la moralmente aceitável e tecnicamente útil.
(…)
Objetar-se-á, sem dúvida que, se para falar do sexo foi necessário tanto estÃmulo e tanto mecanismo coercitivo é porque reinava, globalmente, uma certa interdição fundamental: somente necessidades precisas — urgências de natureza econômica, utilidades polÃticas — poderiam suprimir essa interdição e possibilitar alguns acessos ao discurso sobre o sexo, mas sempre limitados e cuidadosamente codificados; falar tanto de sexo, organizar tantos dispositivos insistentes para fazer falar dele, mas sob estritas condições, não é prova de que ele permanece secreto e que se procura, sobretudo, mantê-lo assim? Não obstante, seria preciso interrogar justamente esse tema tão frequente de que o sexo está fora do discurso e que somente a suspensão de um obstáculo, a quebra de um segredo pode abrir o caminho que conduz até ele. Esse tema não seria parte da injunção que suscita o discurso? Não seria para incitar a falar, para sempre levar a recomeçar a falar nesse tema que, nas fronteiras de todo discurso atual, ele é exibido como o segredo que é indispensável desencavar — uma coisa abusivamente reduzida ao mutismo, ao mesmo tempo difÃcil e necessária, preciosa e perigosa de ser dita? É preciso não esquecer que a pastoral cristã, fazendo do sexo aquilo que, por excelência devia ser confessado, apresentou-o sempre como enigma inquietante: não o que se mostra obstinadamente mas o que se esconde em toda a parte, presença insidiosa que se corre o risco de se ouvir porque fala em voz tão baixa e muitas vezes disfarçada. O segredo do sexo não é, sem dúvida, a realidade fundamental da relação à qual se dispõem todas as incitações a falar de sexo — quer tentem quebrá-lo quer o reproduzam de forma obscura, pela própria maneira de falar. Trata-se, ao contrário, de um tema que faz parte da própria mecânica dessas incitações: maneira de dar forma à exigência de falar, fábula indispensável à economia infinitamente proliferante do discurso sobre o sexo. O que é próprio das sociedades modernas não é o terem condenado o sexo a permanecer na obscuridade, mas sim o terem-se devotado a falar dele sempre, valorizando-o como o segredo.
– História da sexualidade, vol. I. Michel Foucault.
Indecisão.
Ele reza toda noite para encontrar outra mulher. Não é força de expressão. Tudo para esquecer alguém que sequer diz sim ou não, que não descarta a possibilidade, muito menos assegura certezas. Ele tem namorada. Ela tem namorado. Há três anos se amam em segredo e explodem quando juntos e se esfriam quando separados. Não mudam de vida. Ele já arriscou completamente: ficou solteiro, se distanciou dela, avisou que não mais se encontraria e não houve jeito de convencê-la. Mas ao receber uma mensagem dela no celular, ele corre para tentar de novo. E tenta como se fosse a primeira vez. E tenta como se fosse a última vez. Por fora, já desistiu. Por dentro, sempre descobre alguma desculpa para recomeçar. Ele não se sente vivo para fazer mais do que isso. Ele não se sente morto para desistir. Perdeu a confiança ao longo do perÃodo. Não entende o que o impede de ser feliz com ela.
(…)
O impasse dos dois é que nunca se doaram por inteiro, para ver se realmente são complementares. São metades cômodas se desperdiçando e se consolando. Da minha parte, não conviveria com essa dúvida de que poderia dar certo e não deu. Viver durante décadas com a sensação de que não se foi até o fundo. É preferÃvel conviver com a frustração do que com o medo.
Ele reza toda noite para encontrar outra mulher. Constatou que não adianta rezar contra ela. Ela é a sua fé.
Fulminante.
Não consigo. Caso para quebrar as regras, para me aproximar no ato, para não deixar o inferno dourar a pele. Entro no primeiro apartamento e fico. Os livros já são estantes. Ponho o colchão no chão e subo devagarinho com os meses. Caso rápido porque nunca fui sozinho dentro de mim, porque a saliva é água potável, porque amor é urgência. Ajeita-se a vida como pode. Um dia a menos não será depois um dia a mais. Caso em segredo, a dois. Beijo tem muito despudor para ter medo. Não me exibo, caso. Não faço futuro, caso logo para fazer passado.
Algumas plantas do jardim de FabrÃcio Carpinejar.
(Chico Buarque, Ruy Guerra)
Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contestoSe trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incestoQuando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoaE se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa…
“Ao longo desse tempo, a história não correu somente numa direção. Os excluÃdos lutaram para sobreviver. Se não podiam viver dentro da ordem excludente, passaram a viver fora da ordem. E foi desse modo que centenas de alternativas de existência econômica, social e polÃtica foram geradas a partir da sociedade. Em oposição, à margem, ou contra o Estado ou a ordem legal vigente. Foi assim Palmares, sobrevivência indÃgena, movimentos negros, bóias-frias, sindicatos em luta, associações de moradores, direitos humanos, economia informal, Ação da Cidadania contra a Miséria e centenas de outros movimentos sociais.
Foi dessa forma que quase metade da população brasileira passou a viver na informalidade, fora da ordem legal. Essa realidade é solenemente ignorada pelos economistas e cientistas sociais e, particularmente, pelo poder público.”
A Parte do Diabo. Leia na Ãntegra.
Fases da Inclusão Digital
Pensamos que a ‘inclusão digital’ só será potencializada quando entendermos que as necessidades das pessoas não são as mesmas necessidades daqueles que concebem os projetos.
Pare a fita. Vamos voltar um pouco. E verificar outros caminhos.
Em primeiro lugar, vamos contextualizar as fases deste processo de ‘inclusão digital’. Podemos dividir em duas fases:
fase 1. - acesso ao computador
fase 2. - acesso à informação.
Essas situações são bastante diferentes. A primeira fase pode ser resumida por uma pergunta: Para que precisamos do computador? Empregabilidade pareceu ser uma resposta que atendia a todos atores envolvidos. Ensinar computação ao povo necessariamente contribuiria para que os novatos rompessem com as fronteiras do trabalho. Essa idéia não se mostrou verdadeira. Com certeza não foi a melhor pedida.
Mas com o acesso à internet (e por conseqüência o acesso à informação) começamos a perceber que as pessoas estão conversando com outras pessoas através da rede. Essa conversação traz na bagagem um novo incentivo cultural, catapulta as inteligências para novas instâncias. Assim, ao invés de orientar se à empregabilidade, poderÃamos disponibilizar ferramentas para a reverberação das vozes desses protagonistas. A retomada da voz é um atalho para a cidadania.
Esse texto é parte do Projeto Parque Digital.
1. A Catedral e o Bazar
Linux é subversivo. Quem pensaria mesmo há cinco anos atrás que um sistema operacional de classe mundial poderia surgir como que por mágica pelo tempo livre de milhares de colaboradores espalhados por todo o planeta, conectado somente pelos tênues cordões da Internet?
Li na lista do metareciclagem…
Olá a todos,
meu nome é Carol, trabalho na escola Lumiar e pretendo organizar uma oficina de metareciclagem com as crianças. Falei com o Dalton e o Guina na semana passada e eles sugeriram que eu colocasse as idéias aqui na lista pra expandir a discussão. Então aà vai:
Na Lumiar, as crianças participam da gestão da escola, na elaboração das regras e na constituição da cultura da escola, junto com os educadores, nas assembléias semanais. Elas ajudam a definir quais são os projetos que serão desenvolvidos no trimestre e escolhem de quais querem participar, inclusive se não querem participar de nenhum. Não há seriação, não há provas ou notas. Nosso objetivo é que elas se apropriem da idéia de que o conhecimento não se mede com números ou seja necessário porque cai na prova, mas porque tem um significado para elas, porque é prazeroso. Um desses projetos chama-se Páginas pessoais, e a princÃpio, o objetivo é aprofundar o interesse que eles têm pelo computador, e potencializar o uso dos jogos eletrônicos e para além deles. Iniciamos com a produção de páginas em html. A oficina de metareciclagem é outro desses passos. Ver a exposição do D.Quixote no Sesc é, com certeza, outro.
Outro espaço em que gostaria de inserir a discussão do metarec e da cultura hacker é no Curso de Formação em Educação Democrática que oferecemos todo semestre para interessados. O curso é dividido em 3 módulos: teoria e prática da educação democrática, gestão democrática do conhecimento e formação do educador. Na segunda parte gostarÃamos de inserir a cultura hacker e a produção de conhecimento, e sua influência nos padrões escolares de aprendizagem e levar alguém para falar. Dalton já me indicou 2 textos: A catedral e o bazar e “Como se tornar um ráquêr” (aliás, muito ruim esse texto. vou linqar ele não. Cyrano). São duas turmas, uma terça das 19h à s 21h e outra ~sábado das 9h30 à s 11h30, para o começo de outubro. Fica aà o convite.
O site da escola é www.lumiar.org.br
O wiki do curso é www.lumiar2004.utopia.com.br
É isso, acho que tem muita a coisa que pode virar.
Abs, Carol
Uns caras disseram, em 99, que “mercados são conversações”. E que sua voz é humana, inconfundÃvel.
Abriram, lá no nordeste, o Mercado Virtual Solidário do Nordeste (MVSN). Ele “visa possibilitar a sobrevivência auto-sustentada de milhares de cooperativas, micro e pequenas empresas agroindustriais, industriais e comerciais das regiões metropolitanas e do Interior dos Estados nordestinos”. Lá, a Maria Uiara, da comunidade do Grande Bom Jardim em Fortaleza, vende seus brincos de R$1,20 a unidade; e Antônio Gomes da Silva (seu Totonho), do MunicÃpio de Mauriti, no Cariri, fabricante de violinos e violoncelos, a R$ 500,00 cada. Produtores de variados tipos, suas histórias, e um portal de comércio eletrônico com voz humana.
Esses caras estão clamando por algo tão distante assim?
— Como cães, — pensou Philip. Mas o coração, o coração… O coração era a especialidade de Burlap. — “Você nunca há de escrever um bom livro” — dissera ele oracularmente — “a menos que esse livro lhe brote do coração”. Era verdade; Philip o sabia. Mas seria Burlap o homem indicado para dizer aquilo? — Burlap, cujos livros vinham tão do fundo do coração que pareciam ter saÃdo do estômago, depois dum vomitório. Se ele se dedicasse à s grandes simplicidades, os resultados seriam não menos repulsivos. Melhor seria cultivar o seu próprio jardim particular em toda a sua plenitude. Melhor seria permanecer rÃgida e lealmente ele mesmo. Ele mesmo? Mas esta questão de identidade era precisamente um dos problemas crônicos de Philip. Teoricamente, com a sua inteligência, era-lhe tão fácil ser quase qualquer um! Philip tinha tal poder de assimilação que corria muitas vezes o perigo de não mais distinguir o assimilador do assimilado, de não conhecer, entre a multiplicidade de seus papéis, qual era o ator. A ameba, quando acha uma presa, abarca-a com a sua substância, incorpora-a e continua a deslizar. Havia algo de amebiano no espÃrito de Philip Quarles. Era como um mar de protoplasma espiritual, capaz de fluir em tdoas as direções, de engolfar todos os orifÃcios, de encher todos os moldes e, depois de engolfar, de encher — continuar a fluir para outros obstáculos, outros receptáculos, deixando os primeiros vazios e secos. Em ocasiões diferentes de sua vida, e até mesmo simultaneamente, ele tinha enchido os mais variados moldes. Philip tinha sido cÃnico e também mÃstico, humanitário e também um misantropo cheio de desdém; tinha procurado viver uma vida de razão desprendida e estóica, e em outra ocasião aspirara à ausência de razão duma existência natural e não civilizada. A escolha dos moldes dependia do momento, dos livros que lia, das pessoas com quem mantinha relações. Burlap, por exemplo, tornara a dirigir a corrente de seu espÃrito para aqueles canais mÃsticos que ele não enchera desde que havia descoberto Boehme, nos seus tempos de estudante. Depois Phil compreendera claramente Burlap e seu espÃrito se afastara, ficando sempre pronto, todavia, para a qualquer momento voltar atrás, desde que as circunstâncias parecessem exigi-lo. Naquele instante voltava a coar-se num molde que tinha a forma de um coração. Onde estava o eu a que ele podia ser leal?
(…)
O desenho da esquerda era composto à maneira de um simples crescendo. Um macaco minúsculo era seguido por um pitecantropo levissimamente maior, o qual por sua vez era seguido por um homem de Neanderthal levissimamente maior que ele. O homem paleolÃtico, o homem neolÃtico, o egÃpcio da idade de bronze e o homem babilônico, o grego da idade de ferro e o homem romano — as figuras cresciam vagarosamente em tamanho. À época em que Galileu e Newton surgiram em cena, a humanidade tinha atingido dimensões bem respeitáveis. O crescendo continuava ininterrupto através de Watt e Stevenson, Faraday e Darwin, Bessemer e Edison, Rockefeller e Wanamaker, para chegar à perfeição contemporânea nas figuras do próprio Mr. H. G. Wells e de Sir Alfred Mond. E o futuro também não fora descurado. Através da bruma radiosa da profecia, as silhuetas de Wells e Mond, que iam ficando sempre maiores a cada repetição, se espichavam numa espiral triunfante para além do papel, rumo do infinito utópico. O desenho da direita tinha uma composição menos otimista de picos e declÃnios. O minúsculo macaco bem depressa florescia num homem da idade de bronze, o qual dava lugar a um grego muito grande e a um etrusco escassamente menor. Os Romanos iam ficando de novo menores. Os monges da Tebaida mal se distinguiam dos macaquinhos primitivos. Seguia-se um certo número de florentinos, ingleses e franceses de bom tamanho. Vinham após estes uns monstros revoltantes denominados Calvino e Knox, Baxter e Wesley. A estatura dos homens representativos declinava. Os vitorianos tinham começado a ficar anões e disformes. Os seus sucessores do século XX eram abortos. Através das brumas do futuro podia-se ver a companhia decrescente de pequenas gárgulas e de fetos cujas cabeças eram grandes demais para os seus corpos gelatinosos, e as caudas simiescas e os rostos de nossos contemporâneos mais eminentes todos a se morder, a se arranhar e a se estripar uns aos outros com essa energia metódica e sistemática que é apanágio exclusivo dos seres mui altamente civilizados.
— Contraponto, de Aldous Huxley.
Little Room (The White Stripes)
When you’re in your little room
And you’re working on something good
Boy, if it’s really good
You’re gonna need a bigger roomWhen you’re in your bigger room
You might not know what to do
You might have to think of how you got started
Sitting in your little room
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