Aldous huxley surpreendendo.
— Oh! Esquisito, não há dúvida, e tudo mais que quiseres… Mas cheio de um muco viscoso e sem sangue! Nada de sangue, nada de ossos verdadeiros, ou de entranhas. Apenas polpa e sumo branco. E depois, aquela mentira tremenda da alma. Aquela maneira que ele tinha sempre de mentir, de fingir, em benefÃcio próprio e em benefÃcio dos outros, que o mundo não era realmente o mundo, mas sim céu ou inferno. E que dormir com mulheres não era realmente dormir com elas, mas simplesmente dois anjos que se davam as mãos. Ah! Lembras-te de como ele tratava as mulheres — é escandaloso, verdadeiramente escandaloso. As mulheres adoravam isso, está claro — durante algum tempo. Dava-lhes um tal sentimento de espiritualidade… Durava pelo menos até o dia em que lhes vinha a vontade de suicidar-se. Tão espiritual… E durante toda a vida ele não passou dum jovem colegial que tinha desejos sexuais iguais aos de todos os outros, mas que se persuadia a si mesmo e aos outros de que ele era Dante e Beatriz feitos um ser único, e muito mais ainda. Tremendo, tremendo! A única desculpa, suponho, é que ele não podia deixar de ser assim. Não nasceu homem; era apenas uma espécie de lesma-fada com os apetites sexuais dum menino de escola. E depois, pensa naquela formidável incapacidade de chamar gato a um gato. Era-lhe preciso sempre fingir que se tratava dum gênio doméstico ou duma idéia platônica. Lembras-te da ode “A uma Cotovia”? “Salve, espÃrito jucundo! Pássaro jamais foste!” — Rampion recitava fazendo uma paródia ridÃcula da “expressão” dum declamador. — Fingindo, apenas fingindo e mentindo a si mesmo como sempre. Ele não podia permitir que a cotovia fosse um simples pássaro, com sangue e penas e um ninho e um apetite de comer lagartas. Oh não! isso não seria bastante poético, seria demasiado groseiro. A cotovia tinha de ser um espÃrito desencarnado… Privado de sangue e de ossos. Uma espécie de lesma etérea e volante. Não se podia esperar outra coisa. O próprio Shelley era uma espécie de lesma volante; e, no fim das contas, ninguém pode verdadeiramente escrever sobre coisa alguma que não seja o próprio eu… Quando somos lesmas, é preciso que escrevamos sobre lesmas, ainda que o nosso assunto pareça ser uma cotovia. Mas, por Deus, eu quisera — acrescentou Rampion, com uma explosão súbita de fúria extravagante — eu quisera que essa cotovia tivesse tanto espÃrito como os pardais do livro de Tobias e deixasse cair no olho de Shelley um cataplasma bem grande! Seria bem-feito para o poeta não andar dizendo que a cotovia não era pássaro. Espirito jucundo, essa é boa! EspÃrito jucundo!
- Contraponto, Aldous Huxley.
July 28th, 2005 at 19:43
Já leu Henry Miller? É parecido!
O que é jucundo? Tô com preguiça de olhar no dicionário…
July 29th, 2005 at 12:46
Jucundo é “Alegre, aprazível, prazenteiro, jovial. ‘Herodias sorri com seu sorrir jucundo’. (Eugênio de Castro)”. Putz. Se alguém me dizesse isso a respeito de meu sorriso, eu dava um soco.