Eita. Antropologia endoscópica.
Não precisamos exagerar o contraste em relação a nós mesmos, isso porque o interesse geral dos estados burgueses é o interesse particular de suas classes dominantes, conforme os ensinamentos de Marx. Porém, a sociedade capitalista realmente tem um modo distintivo de aparência e, portanto, uma consciência antropológica definida, também difundida nas disposições teóricas da academia. A teoria nativa dos “Boo-jwas” (aqui o autor brinca com a pronúncia inglesa de borgeois, burgueses) é de que as consequências sociais são as expressões cumulativas das ações individuais e, por esse motivo são mais atrasadas do que o estado prevalecente das vontades e opiniões do povo, conforme geradas, especialmente a partir de seus sofrimentos materiais. A sociedade é constituÃda como a soma institucional de suas práticas individuais. O locus clássico desse folclore é, claro, o mercado, onde o êxito relativo de agentes autônomos individuais e, portanto, a ordem polÃtica da economia, é mensurável pelas porções quantitativas obtidas respectivamente nos cofres públicos à s expensas de quem interessar possa. Apesar disso, esse processo social é vivenciado por seus participantes como sendo a maximização de suas satisfações pessoais. E, como essas tais satisfações — desde ouvir a orquestra sinfônica de Chigago a ligar para nossa própria casa a cobrar do exterior — requerem a redução de relações e condições sociais a seu menor denominador comum, o do custo pecuniário, com o propósito da alocação racional de nossos recursos limitados, a impressão que se tem é de que a cultura é organizada pela economicidade metódica do povo. Essa impressão é duplicada pelo processo polÃtico democrático, onde qualquer pessoa vale por “um” (voto) e, assim, os poderes dominantes são representados como sendo a “escolha popular”. As pressuposições prevalecentes, quantitativas, populistas e materialistas das nossas ciências sociais não podem ser acidentais — senão não há antropologia.
— Ilhas de História, de Marshall Sahlins.