Antropologia.
Ele mostra como um contraste fundamental entre cidade e campo se alia a outras oposições difusas: civilizados e primitivos, Ocidente e “não-Ocidente”, futuro e passado. Ele analisa uma complexa, inventiva e fortemente padronizada gama de respostas à mudança e ao deslocamento social, estendendo-se da Antiguidade Clássica ao presente. Williams traça a constante ressurgência de um padrão convencional de retrospecção que lamenta a perda de um campo “bom”, um lugar onde os contatos sociais e naturais autênticos foram, uma vez, possÃveis. Logo ele observa, no entanto, uma inquietante regressão. Pois em cada momento que se encontra um escritor olhando para trás, para um lugar mais feliz, para um momento “orgânico” perdido, encontra-se um outro escritor, daquele perÃodo anterior, lamentando um prévio e similar desaparecimento. O referente último é, claro, o Éden.
Uma pequena parábola pode ajudar a entender por que essa alegoria do resgate etnográfico e da perda tornou-se recentemente menos auto-evidente. É uma parábola verdadeira. Um estudante de etnohistória africana está fazendo pesquisa de campo no Gabão. Ele trabalha com os mpongué, um grupo do litoral que, no século XIX, tinha muito contato com negociantes europeus e colonos. A “tribo” ainda existe, na região de Libreville, e o etnohistoriador conseguiu entrevistar o atual chefe mpongué sobre a vida tradicional, o ritual religioso, etc. Preparando-se para essa entrevista, o pesquisador consulta um compêndio de costumes locais compilado no inÃcio do século XX por um gabonês, cristão e etnógrafo pioneiro, o abade Raponda-Walker. Antes de se encontrar com o chefe mpongué, o etnógrafo copia uma lista de termos religiosos, instituições e conceitos, registrados e definidos por Raponda-Walker. A entrevista seguirá essa lista, checando em que medida os costumes persistem, e se assim for, com que inovações. No inÃcio as coisas correram fáceis, com a autoridade de mpongué fornecendo descrições e interpretações dos termos sugeridos, ou ainda observando que uma prática havia sido abandonada. Após um certo tempo, no entanto, quando o pesquisador pergunta sobre uma certa palavra, o chefe parece em dúvida, meio perturbado. “Um momentinho”, diz ele animadamente, fugindo para dentro de casa, para voltar com uma cópia do compêndio de Raponda-Walker. Durante o resto da entrevista o livro ficou aberto no seu colo.
— James Clifford. A experiência etnográfica.