…cyrano disse,

21.12

Uma dica de leitura.

Filed under: academialivre, humor, micropolítica — cyrano @ 23:24

Entre todos os livros, uma de minhas impressões mais fortes vem daquele provençal petulante, Petrônio, que escreveu a última Satura menippea*. Essa soberana libertação da “moral”, do “sério”, e até mesmo do gosto sublime, esse refinamento na mistura do latim vulgar e do latim “culto”, esse indomável bom humor, que salta com graça e malícia sobre todas as anomalidades da alma “antiga” — eu não saberia mencionar um só livro que teve sobre mim uma semelhante impressão libertadora: seu efeito foi dionisíaco. Em casos em que tenho a necessidade de me restabelecer rapidamente de uma impressão mesquinha — quando, por exemplo, devido à minha crítica ao cristianismo tive de respirar por muito tempo o ar pestilento do apóstolo Paulo —, bastam-me, como remédio heróico, algumas páginas de Petrônio e de imediato volto a me sentir saudável.

– Nietzsche. Ecce Homo.

* referência ao Satiricon, desse autor.

Esse Henfil…

Filed under: humor, metareciclagem, micropolítica — cyrano @ 23:03

Da orelha (as duas!) do livro “Cartas da Mãe”, que peguei pra ler hoje e, com um nome desses, claro que me deixou surpreendido:

Querido Orelhão,

Falar o nome do Geisel, só podia baixinho e entre amigos de infância. O “alemão” não perdoava. Tinha mil olhos, mil ouvidos e aquela postura de quem vai aplicar chineladas no primeiro que rir.

Se lembra? Então vou repetir a frase do Ivan Lessa, a mais repetida ultimamente: de 15 em 15 anos o brasileiro esquece os últimos 15 anos.

Bão, o que que você estava fazendo em 9 de março de 1977?

Eu estava morando em Natal (Rio Grande do Norte) e lia todo dia todos os jornais procurando pistas da abertura lenta, gradual e segura que o presidente Ernesto Geisel prometia, se a gente ficasse bem bonzinho. Aí, indicado pelo Hugo Estenssoro, ganhei do Mino Carta a última página da sua revista, Isto É, que ia virar semanal: “Faz o que você quiser, meu caro”, disse o Mino.

Que que eu sabia fazer? Desenhar. E desenhei. Mas um amigo, Woden Madruga, encheu minha cabeça que eu tinha que escrever. “Escreve cartas para sua mãe. A melhor coisa que você fazia no Pasquim eram aqueles bilhetinhos pra ela no meio das tiras do Fradim, com os retratinhos de família e tudo.”

Ora, naquele tempo minha mãe morava no Rio e eu estava de fato com dificuldade pra matar a saudade dela e minha. Dona Maria já sofria com um filho, Betinho, exilado no Canadá, e agora outro tão longe, lá no nordeste.

Escrevi.

Timidamente. Só nas entrelinhas falando do governo. Sugerindo. Usava a linguagem dela, o jeitinho dela pra dizer as coisas. E a cada carta que publicava, esperava o aviso da censura. E a censura não vinha. É verdade que eu contava com o respeito que o retrato da mãe provocava. É como se eu estivesse escondido debaixo da saia da mãe. Tinham que passar por cima dela pra me pegar. E fui ousando, lenta e gradualmente. Como você poderá ver lendo a primeira carta, depois a segunda… até hoje.

Será pretensão minha dizer que, por estas cartas, publicadas na Isto É nos anos de 1977, 78, 79 e 80 é possível acompanhar a história do Brasil deste período? Pois sou assim pretensioso.

As cartas vivem o início da abertura, os apertos, os medos, a campanha pela anistia, os depoimentos no exílio do Betinho, as greves do ABC, os medos, a volta dos exilados, os apertos, 1977, 78, 79, 80…

Voltando lá atrás. Aos poucos eu fui escrevendo o nome Geisel. Até ele acostumar e não achar que era desrespeito. Depois fui tomando liberdade pra sentar no colo dele, mexer nos bolsos dele. Quando ele viu, eu tinha pregado chicletes na cadeira dele. Aí, já era tarde. Aldir Blanc e João Bosco já cantavam pela voz da Elis: — Meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil…

Conclusão.

Primeiro: quem tem mãe não tem medo.

Segundo: se todo mundo falar que nem eu, como se EU tivesse feito a abertura, vamos acabar descobrindo que ninguém nos deu abertura nenhuma — nós que conquistamos.

E tome que a mãe é sua também.

Henfil

São Paulo, 13 de novembro de 1980 (dia da reproclamação das eleições diretas pra governador!)

Natal, 4 de maio de 1977.

Mãe,

Pois é, tava uma esperança tão gostosa. A gente acordava sem temores, lia o jornal relaxado, via TV desinteressado, última edição extraordinária tinha sido a da queda do Brandão… de repente, trancaram o mundo.

Mas o que foi desta vez que nós fizemos? Alguma nós fizemos!

Fui olhar na gaveta pra conferir os impostos. Tá tudo pago e em dia! Quer dizer, não foi por aí. E aí pensei: será que andamos assistindo a filmes tentatórios como Z, Último Tango? Ou será que andamos lendo certos livros como Feliz Ano Novo? Será, Deus do céu! que alguém andou assistindo o Bolshoi? Por tudo que é sagrado, mãe, ninguém no Brasil viu estes filmes, leu estes livros. Quero ver a senhora dura atrás da porta, se eu vi o diabo desse balé!

Será que andamos foi traindo a nacionalidade? Como? Se continuo escutando rock, usando calça Lee, mascando chicletes, bebendo Coca ou Pepsi, andando de Volks e assistindo Kojak? Continuo dos pés à cabeça um brasileiro roxo e autêntico.

Estaríamos então badernando e arruaçando? Mas é só olhar: reina completa ordem, paz e tranquilidade nas filas do INPS, do feijão, dos trens, ônibus e ambulatórios. Percorri quilômetros delas e em todas há disciplina, um atrás do outro, ordem.

Assim, mãe, carecem de nos dizer o que de errado andamos fazendo para nos caber tão pesado castigo. Saber pra gente se emendar, corrigir e nunca mais repetir. Se não, se não, a gente vai achar que o que andamos fazendo de errado foi andar nesta ordem toda. Será que somos maus justamente porque somos dóceis e respeitadores? Porque ficamos nas filas sem reclamar? Porque pagamos os aumentos sorrindo? Mãe, será que pagar todos esses impostos em dia é que é a tal (cruz credo!) subversão?

Precisam orientar o povo, estamos confusos.

A bênção do seu pacato e ordeiro filho,

Henfil.

PS: Tire o dinheiro da senhora da caderneta de poupança e invista no custo de vida: tá dando 4,2% ao mês!

19.12

O burguês.

Filed under: academialivre — cyrano @ 23:01

O “burguês”, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis extremos e pares de opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino, e nossa comparação se esclarecerá em seguida. O homem tem a possibilidade de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem, por outro lado, a possibilidade de entregar-se inteiramente à vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no sentido de satisfazer seus prazeres momentâneos. Um dos caminhos conduz à santidade, ao martírio do espírito, à entrega a Deus. O outro caminho conduz à libertinagem, ao martírio da carne, à entrega, à corrupção. O burguês tentará caminhar entre ambos, no meio do caminho. Nunca se entregará nem se abandonará à embriaguez ou ao ascetismo; nunca será mártir nem consentirá em sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo, tenta plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades ou borrascas, e o consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência extremada e sem reservas permite. Viver intensamente só se consegue à custa do eu. Mas o burguês não aprecia nada tanto quanto o seu eu (um eu na verdade rudimentarmente desenvolvido). À custa da intensidade consegue, pois, a subsistência e a segurança; em lugar da posse de Deus cultiva a tranqüilidade da consciência; em lugar dos ardores mortais, uma temperatura agradável. O burguês é, pois, segundo sua natureza, uma criatura de impulsos vitais muito débeis e angustiosos, temerosa de qualquer entrega de si mesma, fácil de governar. Por isso colocou em lugar do poder a maioria, em lugar da autoridade a lei, em lugar da responsabilidade as eleições.

– Herman Hesse. O Lobo da Estepe.

Filed under: academialivre, aforismos, micropolítica — cyrano @ 22:44

Mas na verdade o homem, mesmo superior, não sabe em absoluto o que significa afirmar. Ele apresenta da afirmação uma caricatura, um disfarce ridículos. Acredita que afirmar é carregar, assumir, suportar uma prova, encarregar-se de um fardo. Avalia a positividade conforme o peso daquilo que carrega: confunde a afirmação com o esforço de seus músculos tensos. É real tudo o que pesa, é afirmativo e ativo tudo o que carrega! Por isso os animais do homem superior não são o touro, mas o asno e o camelo, animais do deserto, que habitam a face desolada da Terra e sabem carregar.

– O texto integral tá aqui.

15.12

Nada como um argumento de autoridade…

Filed under: academialivre, aliados, ativismo, metareciclagem, micropolítica — cyrano @ 18:54

As boas maneiras de ler hoje, é chegar a tratar um livro como se escuta um disco, como se olha um filme ou um programa de televisão, como se é tocado por uma canção: todo tratamento do livro que exigisse um respeito especial, uma atenção de outra espécie, vem de uma outra era e condena definitivamente o livro. Não há nenhuma questão de dificuldade nem de compreensão: os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens, são intensidades que convêm a você ou não, que passam ou não passam. ‘Pop’ filosofia. Não há nada a compreender, nada a interpretar.

– Gilles Deleuze.

14.12

Degustação.

Filed under: academialivre, metacafe, micropolítica — cyrano @ 10:21

Uma das sedes de nostalgia da infância, e das mais profundas, é o céu da boca. A memória do paladar recompõe com precisão instantânea, através daquilo que comemos quando meninos, o menino que fomos. O cronista, se fosse escrever um livro de memórias, daria nele a maior importância à mesa de família, na cidade de interior onde nasceu e passou a meninice. A mesa funcionaria como personagem ativa, pessoa da casa, dotada do poder de reunir todas as outras, e também de separá-las, pelo jogo de preferências e idiossincrasias do paladar — que digo? Da alma, pois é no fundo da alma que devemos pesquisar o mistério de nossas inclinações culinárias.

– Carlos Drummond de Andrade.

3.12

Contos pro meu filho.

Filed under: academialivre, ativismo, humor — cyrano @ 17:55

— Bom dia. Gostaríamos de falar com o seu filho.
— Meu filho? Mas quem são os senhores?
— Chame o seu filho, por favor.
— Mas é uma criança, está…
— Se a senhora não chamá-lo, nós iremos buscá-lo.
— O que foi que ele fez?
— A senhora sabe o que ele fez. Queremos saber por quê. Alguém pagou para ele dizer que o rei estava nu?
— Não. Claro que não. Nós fomos ver o rei desfilar com a sua roupa nova. Até fomos cedo, para pegar lugar na frente. E quando o rei passou, ele disse, só isso.
— Por quê?
— Por que o rei estava nu.
— Isso não vem ao caso. O que o levou a se manifestar?
— Não sei. Ele ficou surpreso e…
— Influência de casa, talvez? Que tipo de educação recebe o menino?
— Uma educação normal. Nós somos gente pobre. Enfim…
— Quem são seus amigos? Ele pertence a alguma organização? O que costuma ler? Recebe publicações estrangeiras?
— Ele ainda não sabe ler! É um inocente.
— Inocente útil, talvez. Teremos que levá-lo para interrogatório. Prepare suas coisas.
— Mas…
— Vá buscá-lo, por favor.
— Mas ele disse a verdade. O rei estava mesmo nu. Todo mundo viu.
— Mas só ele disse. Esses são os que dão trabalho.

– Luís Fernando Veríssimo.

Sobre a religião.

Filed under: academialivre, aforismos, denuncia, humor — cyrano @ 14:26

Religião é aquela coisa engraçada que fala de compreensão e tolerância enquanto vai deixando seu rastro de sangue pela história.

Pedro Doria.

1.12

Filed under: aforismos — cyrano @ 11:25

De verdade, Zaratustra é um vento forte para todas as planícies; e um conselho desses ele dá a seus inimigos e a tudo que cospe e escarra: guardai-vos de escarrar contra o vento!…

– Assim falou Zaratustra. (Nietzsche)

Filed under: aforismos — cyrano @ 10:46

Desconsiderado o fato de que eu sou um décadent, sou também o seu contrário. Minha prova para isso é, entre outras coisas, o fato de eu sempre ter escolhido instintivamente os meios corretos contra as situações graves: enquanto o décadent costuma escolher sempre os meios prejudiciais a si mesmo. Como summa summarum, eu era saudável; como parcela, como especialidade, eu era um décadent. Aquela energia para o isolamento e para o rompimento de relações costumeiras, a compulsão contra mim mesmo, a vontade de não deixar mais me tratarem, me servirem, me medicarem… tudo traía o instinto de certeza incondicional acerca daquilo que naquela época me era necessário mais do que tudo. Eu mesmo me tomei pela mão, eu mesmo voltei a me tornar são: a condição para isso — não há psicologia que não o reconheceria — é que ao cabo de contas a gente seja saudável. Um ser tipicamente mórbido não pode vir a se tornar são e muito menos vir a se tornar são por sua própria conta; para alguém que é tipicamente saudável uma doença pode, ao contrário, até ser uma estimulação energética à vida, a viver mais. É assim que vejo agora aquele longo tempo de enfermidade: é como se eu tivesse redescoberto a vida de novo, incluindo-me dentro dela; eu degustei todas as coisas boas e até mesmo coisas insignificantes, como outros não as podem degustar com tanta facilidade — eu fiz de minha vontade para a saúde, para a vida, a minha filosofia… Pois é preciso que se dê atenção a isso: os anos em que minha vitalidade foi mais débil foram os anos em que deixei de ser pessimista: o instinto do auto-reestabelecimento me proibiu uma filosofia da miséria e do desânimo… E é nisso que se reconhece, no fundo, a-vida-que-deu-certo! No fato de um homem bem-educado fazer bem aos nossos sentidos: no fato de ele ser talhado em uma madeira que é dura, suave e cheirosa ao mesmo tempo. A ele só faz gosto o que lhe é salutar; seu prazer, seu desejo acabam lá onde as fronteiras do salutar passam a estar em perigo. Ele adivinha meios curativos contra lesões, ele aproveita acasos desagradáveis em seu próprio favor; o que não acaba com ele, fortalece-o. Ele acumula por instinto tudo aquilo que vê, ouve e experimenta à sua soma: ele é um princípio selecionador, ele reprova muito. Ele está sempre em sua própria companhia, mesmo que esteja em contato com livros, pessoas ou paisagens: ele honra pelo ato de selecionar, pelo ato de permitir, pelo ato de confiar. A todo o tipo de estímulo ele reage lentamente, com aquela lentidão que uma longa cautela e um orgulho desejado inculcaram nele — ele testa o estímulo que se aproxima; ele está longe de ir ao encontro dele. Ele não acredita no “infortúnio” nem na “culpa”: ele dá conta de si mesmo e dos outros; ele sabe esquecer… Ele é forte o suficiente a ponto de fazer que tudo tenha de vir para o seu bem… Vá lá, eu sou o antípoda de um décadent: pois acabei de descrever a mim mesmo.

– Nietzsche, Ecce Homo.

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