…cyrano disse,

29.11

A riqueza da escassez.

Filed under: academialivre, aliados, ativismo, metacafe, metareciclagem — cyrano @ 14:36

No fundo, a questão da escassez aparece outra vez como central. Os “de baixo” não dispõem de meios (materiais e outros) para participar plenamente da cultura moderna de massas. Mas sua cultura, por ser baseada no território, no trabalho e no cotidiano, ganha a força necessária para deformar, ali mesmo, o impacto da cultura de massas. Gente junta cria cultura e, paralelamente, cria uma economia territorializada, uma cultura territorializada, um discurso territorializado, uma política territorializada. Essa cultura da vizinhança valoriza, ao mesmo tempo, a experiência da escassez e a experiência da convivência e da solidariedade. É desse modo que, gerada de dentro, essa cultura endógena impõe-se como um alimento da política dos pobres, que se dá independentemente e acima dos partidos e das organizações. Tal cultura realiza-se segundo níveis mais baixos de técnica, de capital e de organização, daí suas formas típicas de criação. Isto seria, aparentemente, uma fraqueza, mas na realidade é uma força, já que se realiza, desse modo, uma integração orgânica com o território dos pobres e o seu conteúdo humano. Daí a expressividade dos seus símbolos, manifestados na fala, na música e na riqueza das formas de intercurso e solidariedade entre as pessoas. E tudo isso evolui de modo inseparável, o que assegura a permanência do movimento.

– Milton Santos, num artigo sobre o FSM.

21.11

Coisa de economista…

Filed under: academialivre, metacafe, micropolítica — cyrano @ 17:33

Mas é de fato verdade que a felicidade do indivíduo aumenta à medida que o homem progride? Nada é mais duvidoso.

— Émile Durkheim. Da Divisão do Trabalho Social.

Um copo de pólvora.

Filed under: aforismos — cyrano @ 11:14

1.

A ventura da minha existência, sua unicidade talvez, repousa em sua fatalidade: eu estou, para expressá-lo em forma de enigma, morto na condição de meu pai ao passo em que na condição de minha mãe ainda vivo e envelheço. Essa origem dupla, rebento ao mesmo tempo do mais alto e do mais baixo degrau na escada da vida, décadent e princípio a um só golpe — tudo isso, se é que há algo, esclarece aquela neutralidade, aquela liberdade de partido na relação com o problema geral da vida, que talvez me distinga dos outros. Eu tenho um faro mais apurado do que jamais teve homem algum para os sinais de princípio e de ocaso, eu sou o mestre par excellence nesse assunto — eu conheço ambos, eu sou ambos… Meu pai morreu com trinta e seis anos: ele era frágil, amável e mórbido, como um ser destinado apenas à transitoriedade — antes uma lembrança bondosa da vida do que a vida em si. No mesmo ano em que sua vida foi ao chão, também a minha declinou: aos trinta e seis anos cheguei ao ponto mais baixo da minha vitalidade — eu ainda vivia, mas sem enxergar mais do que três passos a minha frente. Naquela época — era 1879 — eu abdiquei da minha cátedra na Universidade de Basiléia, vivi aquele verão como se fosse uma sombra em Saint Moritz e o inverno seguinte, o mais pobre em sol da minha vida inteira, como se fosse sombra em Naumburg. Esse foi o meu mínimo: “O andarilho e sua sombra” é produção desse período. Indubitavelmente, eu entendia de sombras naquela época… No inverno seguinte, meu primeiro inverno genovês, aquele adoçamento, aquela espiritualização, que quase era condicionada por uma miséria extrema em sangue e músculos, produziram “Aurora”. A clareza e a serenidade totais, até mesmo a exuberância do espírito que a obra mencionada reflete, pode ser entendida em mim não apenas devido à fraqueza psicológica mais profunda, mas inclusive por um excesso de sensações de dor. Em meio a martírios, que trouxeram consigo uma enxaqueca ininterrupta de três dias, mais vômitos de muco dos mais penosos… eu possuí uma clareza dialética par excellence e examinei a fundo e friamente coisas que não sou alpinista, não sou refinado, não sou frio o suficiente para pensar quando me encontro em situações mais saudáveis. Meus leitores talvez saibam até que ponto considero a dialética como um sintoma de décadence, por exemplo no mais famoso dos casos: o caso de Sócrates… Todos os distúrbios doentios do intelecto, até mesmo aquele semi-atordoamento, séquito da febre, permaneceram sendo coisas em todo estranhas para mim até hoje, coisas sobre cuja natureza e frequência eu apenas fui me instruir em caminho douto. Meu sangue corre lento. Jamais alguém conseguiu constatar febre em meu sangue. Um médico, que me tratou como doente nervoso por longo tempo, disse ao fim: “Não! o problema não está em seus nervos, eu mesmo estou apenas nervoso”. Era simplesmente impossível de ser demonstrada qualquer degeneração local; nenhuma moléstia do estômago condicionada de forma orgânica, por mais que sempre, como consequência do esgotamento geral, se revelasse a profunda fraqueza do meu sistema gástrico. Também a moléstia nos olhos, a cegueira se aproximando pouco a pouco perigosamente, era apenas consequência, não era causa. De modo que com cada acréscimo em força vital também a visão ficava mais forte… Convalescença significa para mim uma longa, demasiado longa série de anos — mas lamentavelmente ela significa também, ao mesmo tempo, recaída, declínio, periodismo de uma espécie de décadence. Será que preciso dizer, depois de tudo isso, que sou experimentado em questões de décadence? Eu a soletrei do início ao fim e de trás pra frente. Até mesmo aquela arte filigrânica de prender e compreender, aquele dedo para nuances, aquela psicologia de “ver-além-da-esquina” e tudo aquilo de que me apossei foi aprendido apenas naquela época, é o verdadeiro presente daquele tempo em que tudo se aprimorou em mim, a observação em si e todos os orgãos da observação. A partir da ótica do doente ver conceitos e valores mais saudáveis, e, pelo lado inverso, da abundância e da autoconfiança da vida abastada, olhar para baixo em direção ao trabalho clandestino do instinto da décadence — esse foi o meu exercício mais longo, a minha verdadeira experiência; se me tornei mestre em alguma coisa, então foi nisso. Agora o tenho às mãos, agora tenho a mão para inverter perspectivas: primeiro motivo pelo qual talvez chegue a ser possível para mim uma “transvaloração de todos os valores”…

Ecce Homo, porque sou tão sábio?. Nietzsche.

15.11

Blá blás.

Filed under: academialivre, ativismo, radiolivre — cyrano @ 15:03

O fato é que em geral as pessoas querem se achar tão “livres” que acham que não atuam dentro da lógica preexistente da cultura política (por exemplo: chegar atrasado nas reuniões…), e se eximem de inventar outros dispositivos ou de investigar as inovações/descobertas que emergem por aí. Remoendo sempre o mesmo Marx, o mesmo Gramsci, o mesmo Lukács… sem nem mesmo tentar ler esses caras de um jeito diferente. E sempre querem enquadrar as inovações no puído marxismo-leninismo ou mesmo republicanismo banalizado, para aliviar sua angústia… (Vamos ficar angustiados então! Assumindo a perplexidade, quem sabe não se descobre algo diferente?)

Quanto mais envelheço (ou “cresço”, não sei que verbo usar) imagino que a vida tem um segredo engraçado. Nós todos poderíamos, com tranqüilidade, sermos bem mais ousados e irresponsáveis do que supomos. As penalidades, na maioria das vezes, não passam de ameaças ocas.

Interessado/a? O Coletivo RadiolaLivre reune-se todas as quintas-feiras no ComuniCA (CA do Curso de Comunicação Social), às 17h30, pontualmente. O ComuniCA está situado no terceiro andar do prédio da FAFICH, no Campus da UFMG e está permantemente aberto às pessoas que queiram conhecer o radiotranse, se sintam concernidas e assumam a ação.

Retirei esses trechos de uma conversa que está rolando no Centro de Mídia Independente, aqui.

13.11

E porquê só se torna riqueza quando alguma entidade põe uma cerca em volta e declara aquilo propriedade privada? Bem, sabe como é, isso não é criação de riqueza. É usurpação de riqueza.

– Elaine Bernard, diretor executivo do “Trade Union Program”, Harvard

Quer uma dica? Vai em i-Corp

Execration do capitalismation.

Filed under: academialivre, aliados, ativismo — cyrano @ 12:03

The Corporation.

- A film by Mark Achbar, Jennifer Abbott, and Joel Bakan.

Permacultura.

Filed under: academialivre, aliados, ativismo, metacafe, metareciclagem — cyrano @ 11:51

Plante comida na Cidade

Você vive em uma cidade onde você gasta a maior parte do seu suado dinheiro somente com comida? Ou você é um fazendeiro lutando para colocar seu alimento nos mercados da cidade - lutando contra o alto preço da refrigeração e do transporte? Se isso lhe descrever, aqui tem uma coisa de seu interesse.

Em Cuba, uma grande quantidade de alimento é plantada na cidade, onde vive a maior parte dos habitantes. Uma crise econômica em 1990 forçou Cuba a tomar uma medida diferente para alimentar sua população. O objetivo de Cuba é produzir na própria cidade o alimento que a cidade precisa. Esta é uma forma de alimentar as pessoas e reduzir o custo do transporte e da refrigeração das mercadorias.

Será que Cuba terá êxito? Bem, com certeza já é um bom começo! Vejamos o exemplo de Havana, a capital.

Havana é uma cidade grande, com dois milhões de habitantes. O governo incentiva as pessoas a usarem todo espaço disponível para plantar alimento. Hoje existem mais de 5.000 hortas comunitárias e 2.000 pequenas fazendas em e próximas a Havana. O sistema anterior de plantação e de transporte no país exigia refrigeração, transporte, armazenamento e sistema de distribuição. Tudo isso gastava muita energia - especialmente petróleo e eletricidade. Ao plantar alimento na cidade, Cuba reduziu enormemente sua dependência do caro petróleo.

– retirado do MetaOng.

12.11

Cansado? Eu?

Filed under: micropolítica — cyrano @ 16:07

Dentro de mim
morreram muitos tigres.

Os que ficaram
No entanto
São livres.

– Lau Siqueira.

7.11

Lima Barreto…

Filed under: academialivre, aliados — cyrano @ 10:24

PREFÁCIO

Na Arte de furtar, que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos, há um capítulo, o quarto, que tem como ementa esta singular afirmação: “Como os maiores ladrões são os que têm por oficio livrar-nos de outros ladrões”.

Todos os Santos, 2-9-17.

6.11

Anarquista é a senhora tua mãe!

Filed under: academialivre, micropolítica, radiolivre — cyrano @ 23:06

Se juntaram. Resolveram botar aquela treta pra funcionar. Discutiram, discutiram, discutiam aquilo que poderia dar acordo e aquilo que não dava ficava de aperitivo pro ao longo da tarde. Que, aliás, era sempre longa. O pessoal ia se encontrando assim, uns mais loucos que outros, mais barbudos ou mulherengos, ou homerengos também. E mulheres. Todas, claro, muito mais belas sábias inteligentes e polidas que qualquer um dos homens. Mas assim mesmo, juntos, resolveram botar a treta pra funcionar. E enquanto discutiam como iriam se organizar, foram se organizando. E quando viram já não tinha mais jeito, putz!, tava organizado, e agora cumé que a gente faz pra implantar tudo o que pensamos? Escafedeu-se o planejamento, escafedeu-se a tiuría. Escafedeu-se o estudo prévio, a pensação anterior a cada ação, essa cultura já é, tá nascendo, já surgindo, não adianta estudar porque já foi!, ó, puf, já passou. É, assim mesmo. Alegre-se e contente-se em cultivar, que a formação genética dessa porra toda terminou faz tempo. É isso mesmo, cara, brotação espontânea existe! Ah, mas assim fica tudo diferente — muito diferente…

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