…cyrano disse,

25.10

Apresentando: Tião Rocha.

Filed under: academialivre, aliados, metareciclagem — cyrano @ 23:55

Sebastião Rocha, ativista da educação e pedagogia popular | MetaONG

Coisinhas a toa.

Filed under: academialivre, micropolítica — cyrano @ 23:14

A experiência do Abuzz mostra que, de fato, é na dinâmica das ações que melhor compreendemos uma pessoa, seus gostos, preferências, conhecimentos etc. Não esqueçamos que todo coletivo é uma negociação constante de preferências. O que o agente inteligente do Abuzz faz é construir um perfil dinâmico da pessoa, seguindo seus passos no site, procurando “entender” o que ela efetivamente gosta ou prefere. Esse perfil dinâmico acaba por se diferenciar em muito daquilo que foi declarado inicialmente pelo usuário como sendo “minhas preferências”. Então, no caso da comunidade virtual Abuzz, as pessoas passam a interagir segundo suas mais legítimas preferências, e acabam por receber de uma máquina, como feedback, uma imagem de si, que talvez possa até lhe surpreender, mas que é baseada no que de fato ela faz, troca, pratica, conversa etc. O agente inteligente não investiga quem as pessoas “realmente” são, ele apenas procura interagir com características de sua identidade com as quais entra em contato. Assim, as identidades são tratadas como performances localizadas, como perfis dinâmicos. (grifo meu)

Mais em Lab. de Inteligência Coletiva.

Cientistas sociais deveriam ler essas coisas…

21.10

D’Alice.

Filed under: academialivre, aliados, ativismo, humor — cyrano @ 22:52

Havia certamente muita pimenta no ar. Mesmo a Duquesa espirrava ocasionalmente; o mesmo acontecia com o bebê, que espirrava e uivava alternadamente, sem um momento de pausa. As únicas duas criaturas na cozinha que não espirravam eram a cozinheira e um grande gato, que estava deitado no centro e sorria de orelha a orelha.

“Por favor, a senhora poderia me dizer”, perguntou Alice timidamente, pois não estava muito certa se era educado falar primeiro, “porque seu gato sorri desse jeito?”

“Porque ele é um Gato de Cheshire”, respondeu a Duquesa, “é por isso. Porco!”

Ela pronunciou a última palavra com tanta violência que Alice deu um pulo; mas ela percebeu no instante seguinte que o chamado era dirigido ao bebê, e não a ela, então armou-se de coragem e tentou novamente:

“Eu não sabia que os gatos de Cheshire sempre sorriam, de fato, eu nunca soube que gatos pudessem sorrir.”

“Todos eles podem”, afirmou a Duquesa, “e muitos deles o fazem.”

“Eu não conheço nenhum”, disse Alice muito polidamente, sentindo-se agradecida por ter conseguido iniciar uma conversa.

“Você não sabe muito”, disse a Duquesa, “e isso é um fato.”

(…)

e estava justamente dizendo para si mesma “se apenas soubesse a maneira certa de mudá-los…” quando levou um pequeno susto ao ver o Gato de Cheshire sentado sobre o ramos de uma árvore a pouca distância.

O Gato apenas sorriu quando viu Alice. Ele parecia bem natural, ela pensou, e tinha garras muito longas e muitos dentes grandes, assim ela sentiu que deveria tratá-lo com respeito.

“Gatinho de Cheshire”, começou, bem timidamente, pois não tinha certeza se ele gostaria de ser chamado assim: entretando ele apenas sorriu um pouco mais. “Acho que ele gostou”, pensou Alice, e continuou. “O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”

“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importo muito para onde…”, retrucou Alice.

“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.

“… contanto que dê em algum lugar”, Alice completou.

“Oh, você pode ter certeza que vai chegar”, disse o Gato, “se você caminhar bastante.”

Alice sentiu que isso não deveria ser negado, então ela tentou outra pergunta.

“Que tipo de gente vive lá?”

“Naquela direção”, o Gato disse, apontando sua pata direita em círculo, “vive o Chapeleiro, e naquela, apontando a outra pata, “vive a Lebre de Março. Visite qualquer um que você queira, os dois são malucos.”

“Mas eu não quero ficar entre gente maluca”, Alice retrucou.

“Oh, você não tem saída”, disse o Gato, “nós somos todos malucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”

“Como você sabe que eu sou louca?”, perguntou Alice.

“Você deve ser”, afirmou o Gato, “ou então não teria vindo para cá.”

Alice não achou que isso provasse nada afinal: entretanto, ela continuou: “E como você sabe que você é maluco?”

“Para começar”, disse o Gato, “um cachorro não é louco. Você concorda?”

“Eu suponho que sim”, respondeu Alice.

“Então, bem”, o Gato continuou, “você vê os cães rosnarem quando estão bravos e balançar o rabo quando estão contentes. Bem, eu rosno quando estou feliz e balanço o rabo quando estou bravo. Portanto, eu sou louco.”

“Eu chamaria isso de ronronar, não rosnar”, disse Alice.

“Chame do que você quiser”, disse o Gato. “Você vai jogar críquete com a Rainha hoje?”

“Eu gostaria muito”, respondeu Alice, “mas ainda não fui convidada.”

“Você me verá lá”, disse o Gato, e desapareceu.

Alice não ficou muito surpresa com isso, ela estava se acostumando com coisas estranhas acontecendo. Enquanto ela ainda estava olhando para o lugar onde o Gato estivera, ele reapareceu repentinamente.

“A propósito, no que se transformou o bebê?”, perguntou o Gato. “Eu quase esqueci de perguntar.”

“Transformou-se num porco”, Alice respondeu calmamente, come se o Gato tivesse voltado da maneira mais natural possível.

“Eu pensei que ele iria”, disse o Gato, e desapareceu novamente.

Alice esperou um pouco, meio que esperando vê-lo novamente, mas ele não apareceu, e depois de um minuto ou dois ela começou a caminhar na direção de onde foi dito que a Lebre de Março morava. “Eu já vi Chapeleiros antes”, disse ela para si mesma, “a Lebre de Março será bem mais interessante, e talvez, como é Maio ela não estará delirante – pelo menos não tão loucamente como ela deve ficar em Março.” Ao dizer estas palavras ela olhou para cima e lá estava o Gato novamente, sentado no galho de uma árvore.

“Você falou porco ou figo? (pig or fig)”, disse o Gato.

“Eu disse porco”, retrucou Alice, “e eu gostaria que você parasse de aparecer e desaparecer repentinamente: você deixa a gente tonta!”

“Tudo bem”, disse o Gato, e desta vez ele desapareceu bem lentamente, começando pelo final do rabo e terminando pelo sorriso, que permaneceu por algum tempo depois do resto ter ido embora.

“Bem! Eu tenho visto muitos gatos sem sorriso”, pensou Alice, “Mas um sorriso sem um gato! É a coisa mais curiosa que já vi em toda minha vida!”

(…)

Ela estava procurando alguma maneira de escapar, imaginando se daria para fugir sem ser vista quando percebeu uma curiosa aparição no ar: aquilo a confundiu muito no início, mas depois de olhar por um minuto ou dois percebeu que era um sorriso e ela disse para si mesma: “É o Gato de Cheshire: agora eu tenho alguém com quem falar.”

“Como você está se saindo?”, perguntou o Gato, tão logo ele teve boca o suficiente para falar.

Alice esperou até que seus olhos surgissem e então cumprimentou-o com a cabeça.

“Não adianta falar com ele”, ela pensou, “até que suas orelhas apareçam, ao menos uma delas.” Em um minuto toda a cabeça apareceu e então Alice colocou seu flamingo no chão e começou a comentar o jogo, sentindo-se muito feliz por ter alguém para ouvi-la. O Gato parecia achar que já havia parte suficiente sua aparente e nada mais surgiu.

“Eu não acho que eles joguem de maneira muito certa”, Alice começou em um tom de queixa, “e discutem de um jeito tão maluco que você não consegue ouvir ninguém falar… parece que eles não têm nenhuma regra. Finalmente, se têm, ninguém parece respeitar…você não faz idéia de como é confuso jogar com todas essas coisas vivas. Por exemplo, o arco sob o qual deveria passar minha bola mudou-se para o outro lado do campo…e quando eu deveria atingir o ouriço da Rainha agora há pouco, ele saiu correndo ao ver o meu se aproximando!”

“O que é que você acha da Rainha?”, perguntou o Gato em uma voz baixa.

“Nada em especial”, respondeu Alice, “ela é tão extremamente…” Exatamente neste instante ela percebeu que a Rainha estava bem ao seu lado, ouvindo, “…boa nesse jogo que vai ser muito difícil chegar ao final da partida.”

A Rainha sorriu e seguiu em frente.

“Com quem você está falando?”, perguntou o Rei, vindo em direção de Alice e olhando para a cabeça do Gato com muita curiosidade.

“É um amigo meu…o Gato de Cheshire”, respondeu Alice. “Deixe-me apresentá-lo.”

“Eu não gosto do jeito dele”, disse o Rei. “Entretanto ele pode beijar minha mão, se quiser.”

“Eu prefiro não beijar”, o Gato retrucou.

“Não seja impertinente”, disse o Rei, “e não me olhe dessa maneira!”, escondendo-se atrás de Alice enquanto falava.

“Um gato pode olhar para um rei”, disse Alice. “Eu já li isso em algum livro, mas não me recordo qual.”

“Bem, ele tem que retirar-se daí”, disse o Rei decidido, e chamou a Rainha, que passava por ali naquele momento: “Minha querida! Eu gostaria que você mandasse retirar esse gato daqui!”

A Rainha só tinha uma maneira de remover todas as dificuldades, grandes ou pequenas. “Cortem-lhe a cabeça!”, ela ordenou sem nem mesmo olhar para os lados.

“Eu mesmo vou buscar o carrasco”, disse o Rei impacientemente e apressou-se.

Alice pensou que seria melhor voltar e ver como andava a partida, quando ouviu ao longe a voz da Rainha gritando enlouquecidamente. Ela já ouvira por três vezes a sentença de execução para jogadores que tinham perdido sua vez e não estava gostando nada disso, pois com o jogo confuso como estava ela nunca sabia se era sua vez ou não de jogar. Daí, ela saiu procurando seu ouriço.

O ouriço estava engalfinhado com outro ouriço, o que pareceu para Alice uma excelente oportunidade para atirar um contra o outro: a única dificuldade foi que o seu flamingo tinha corrido para o outro canto do campo, onde Alice podia vê-lo tentando, sem grandes resultados, levantar vôo até uma árvore.

Quando finalmente ela conseguiu apanhar o flamingo e trazê-lo novamente de volta, a luta entre os ouriços tinha terminado e os dois animais tinham sumido: “Mas isso não importa”, Alice pensou, “pois todos os arcos se foram desse lado do campo.” Então ela novamente colocou o flamingo debaixo do braço para que ele não escapasse novamente, e voltou para conversar um pouquinho mais com seu amigo.

Quando ela voltou para onde estava o Gato de Cheshire, surpreendeu-se com uma multidão ao seu redor: havia uma discussão entre o carrasco, o Rei e a Rainha, todos falando ao mesmo tempo, enquanto o resto permanecia em silêncio, parecendo bastante constrangidos.

No momento em que Alice apareceu, foi chamada pelos três para decidir a questão. Eles repetiram seus argumentos, mas, como todos falavam ao mesmo tempo, ela achou muito difícil entender exatamente o que diziam.

O carrasco argumentava que não se pode cortar uma cabeça ao menos que ela não esteja presa a um corpo. Que ele nunca fizera uma coisa dessas na vida e não seria desta vez que ele começaria.

O Rei argumentava que qualquer coisa que tivesse cabeça poderia ser decapitada, e que aquela conversa era besteira.

A Rainha argumentava que, se alguma coisa não fosse feita rapidamente, ela iria mandar executar todo mundo em volta. (Esta última observação é que deixara o grupo com aquele tom sério e ansioso.)

Alice não encontrou nada melhor para dizer que “Ele pertence à Duquesa: seria melhor perguntar para ela sobre isso.”

“Ela está na prisão”, a Rainha disse ao carrasco.

“Vá buscá-la.”

E o carrasco saiu disparado como uma flecha.

A cabeça do Gato começou a desaparecer bem no momento em que ele se foi e na hora que o carrasco voltou com a Duquesa já tinha sumido totalmente. O Rei e o carrasco começaram a procurá-lo desesperadamente por todo lado, enquanto o restante do grupo voltou ao jogo.

17.10

Álvaro de campos.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 23:55

Gostava de gostar de gostar.
Um momento… Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa-de-cabeceira.
Continua… Dizias
Que no desenvolvimento da metafísica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel…

Álvaro de Campos.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 23:47

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.
A compaixão custa, e sobretudo sincera, e em dias de chuva.
Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.
Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu.

Com que então problema sexual?
Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência.
Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia —
Mas isso é estúpido, filho.
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
O problema existe para estar resolvido e não para preocupar.
Compreender é ser impotente.
E você devia revelar-se menos.
«La Colère de Samson», conhece?
«La femme, enfant malade et douze fois impure!»
Mas não é nada disso.
Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave as terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
Não somos senão fantasmas de fantasmas,
E a paisagem hoje muda muito pouco.
Tudo é geograficamente exterior.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.

14.10

Rituais do CMI.

Filed under: academialivre, aliados, ativismo, humor, radiolivre — cyrano @ 22:04

Algumas coisas me dão esperança de que a humanidade ainda tem salvação (tô falando sério):

Todo ano, num encontro especial, todo mundo se encontra e aqueles que foram os mais participativos nas reuniões, que mais falaram, que mais fizeram e etc., levam uma torta na cara.

– ‘Stalker’, sobre um ritual bastante sugestivo praticado pelos integrantes do comitê do Centro de Mídia Independente em Belo Horizonte.

13.10

Quero ser oleiro.

Filed under: academialivre, aliados, micropolítica — cyrano @ 21:30

…Agora a quem teremos de seguir é a Cipriano Algor, nada mais que segui-lo, ir atrás dele, acompanhar o seu passo sonâmbulo. Quanto a imaginar como é possível juntarem-se em uma pessoa sentimentos tão contrapostos como, no caso que temos vindo a apreciar, a mais profunda das alegrias e o mais pungente dos desgostos, para depois descobrir ou criar aquele único nome com que passaria a ser designado o sentimento particular consequente a essa junção, é uma tarefa que muitas vezes foi empreendida no passado e que em cada uma delas se resignou, como um horizonte que se vai incessantemente deslocando, a não alcançar sequer o limiar da porta das inefabilidades que esperam deixar de o ser. A expressão vocabular humana não sabe ainda, e provavelmente não o saberá nunca, conhecer, reconhecer e comunicar tudo quanto é humanamente experimentável e sensível. Há quem afirme que a causa principial desta seriíssima dificuldade reside no facto de os seres humanos serem no fundamental feitos de argila, a qual, como as enciclopédias prestimosamente nos explicam, é uma rocha sedimentar detrítica formada por fragmentos minerais minúsculos, do tamanho um/duzentos e cinquenta e seis avos de milímetro. Até hoje, por mais voltas que se dessem às linguagens, não se conseguiu achar um nome para isto.

– José Saramago. A Caverna.

12.10

Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós.

– Platão, República, Livro VII.

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