…cyrano disse,

29.02

In: paciência.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 0:49

O que eu acho é que eu nunca vou saber te responder. Essa questão “o que forma o homem” é estúpida. É a mesma sempre e sempre e sempre! Todo espertalhão metido a clássico vem nos dizer isso na cara. Eu sei o que forma o homem!, gritam com seus bigodes pulguentos. Porra nenhuma. É a sociedade que forma o homem? Seus pais? Suas vestes? Sua fala? O fato de ter nascido com Marte na frente de Júpiter? O fato de ter nascido na classe média? O fato de ter genes determinantes? O fato de ter tendências individuais ou psicológicas? Papai-mamãe? O fato de estar em um ambiente de seleção natural? O fato de ter… oras bolas. Parem com isso, matracas. Olhem para o fato. Olhem! Não, não para mim, com essa cara imbecil. Olhem! Isso. Mais perto. Mais perto, estou dizendo, amassem seu nariz nele!

Isso, olhem para o fato, vamos lá, pertinho bem perto quase dando pra lamber. Que curioso, aproxima-se o nariz mas ele não se aperta? Ora, acaso o fato foge? Que ilusão grotesca é essa que faz do fato algo que se distancia quanto mais nosso lânguido nariz se aproxima? Será uma ilusão — nosso nariz — ou o fato?

20.02

Calvino, As Cidades Invisíveis.

Filed under: cidadesinvisíveis — cyrano @ 12:35

As cidades e o céu 3.

Quando se chega a Tecla, pouco se vê da cidade, escondida atrás dos tapumes, das defesas de pano, dos andaimes, das armaduras metálicas, das pontes de madeira suspensas por cabos ou apoiadas em cavaletes, das escadas de corda, dos fardos de juta. À pergunta: Por que a construção de Tecla prolonga-se por tanto tempo?, os habitantes, sem deixar de içar baldes, de baixar cabos de ferro, de mover longos pincéis para cima e para baixo, respondem:

— Para que não comece a destruição. — E, questionados se temem que após a retirada dos andaimes a cidade comece a desmoronar e a despedaçar-se, acrescentam rapidamente, sussurrando: — Não só a cidade.

Se, insatisfeito com as respostas, alguém espia através dos cercados, vê guindastes que erguem outros guindastes, armações que revestem outras armações, traves que escoram outras traves.

— Qual é o sentido de tanta construção? — pergunta. — Qual é o objetivo de uma cidade em construção senão uma cidade? Onde está o plano que vocês seguem, o projeto?

— Mostraremos assim que terminar a jornada de trabalho; agora não podemos ser interrompidos — respondem.

O trabalho cessa ao pôr-do-sol. A noite cai sobre os canteiros de obras. É uma noite estrelada.

— Eis o projeto — dizem.

19.02

Grilhão.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 11:07

Fraqueza não. É transbordar de gostos, transbordar puro e simples. Ostentação gratuita essa, de diversas coisas possíveis, imagináveis, no entanto dói pensar em descrevê-las (ou agarrá-las, dá no mesmo). Dói porque não consigo, dói porque elas não querem. Tenho aqui um grande nevoeiro na cabeça, ocupa-me o espaço destinado à escritura. Não escrevo, portanto. Não temo, nem enfraqueço. E também não tenho controle, não foi nesse sentido que te disse que tinha o controle! Me limito a não forçar as portas, e ficar mesmo assim, deitado na grama. Nem quero saber de portas agora. Só quero saber de você. E vejo cada vez mais claramente o descomunal — cada vez mais descomunal? — grilhão que te prende as canelas e te puxa para trás o corpo. Não que esse peso aumente consideravelmente a cada uma de suas noites mal dormidas, cheias de fragâncias cinzentas… É a sua tolerância a essa porcaria que está evaporando. Pois então, te digo que vou ficar logo aqui na frente pra te agarrar, pra quando essa energia descolorida se explodir e soltar seus pés — pois você vai ser lançada, catapultada, mais em cores que em preto e branco.

17.02

Filed under: metacafe, metareciclagem — cyrano @ 17:03

O que como
É o que me dá forma
O que tomo
É o que me entorna
O que me informa
É a fôrma
Que me conforma.

andré cabelo

4.02

Álvaro de Campos esteve aqui.

Filed under: micropolítica — cyrano @ 15:05

Três Sonetos.

I [a Raul de Campos]

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me jugo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Lisboa, Agosto 1913.

2.02

Hein?

Filed under: micropolítica — cyrano @ 21:56

Não pretendia. Fiz, pensei e desejei. Mas não pretendia. Nem tanto, nem menos, sem pretender mesmo que não desejando outra coisa. Não pretendia nada, a moça. Uma menina, praticamente. Mas desejou assim mesmo. E se viu saboreando água, leite, manga e tudo o mais que até então lhe era velado pelos maiores olhos. Talvez porque os seus eram suficientemente grandes, agora. Mas pretender não pretendia que tenho certeza! Apenas desejou — assim mesmo. Onde já se viu?, olhar não pretende. Olha. Não se pretende mirar as vistas a algo, apenas olha-se e desejasse e olha-se mais, e desejasse mais. Talvez seja ver possuir, desejar dominar, tudo vontades de poder que tomam conta primeiramente dos olhos, vira-os tragicamente para. Qualquer coisa. E o organismo todo rebaixa-se a tal tirania. É pra isso que tenho olhos, eu acho. Onde é que eu estava mesmo?

Powered by WordPress

FireStats icon Produzido pelo FireStats